Aquilo que começou por ser um negócio, tornou-se numa missão. Uma década depois de abrir, com o marido, a mercearia pioneira de produtos biológicos e a granel, em Portugal, a fundadora da “Maria Granel, já revolucionou muitas vidas, a começar pela sua. Desde aí, Eunice Maia não tem tido mãos a medir. Além das duas lojas em Lisboa, lançou o livro “Desafio Zero”, vai a escolas e empresas despertar consciências para a sustentabilidade e integra ainda o consórcio que luta, há anos, pela flexibilização do granel em terras lusas.
Integrall: Passaram dez anos desde que abriste a “Maria Granel”, em Alvalade, Lisboa, uma mercearia pioneira em Portugal, só de produtos biológicos e a granel. Anos depois abriste uma segunda loja em Campo de Ourique, também em Lisboa. Como é que tem sido este percurso até agora?
Eunice Maia: Tem sido a viagem de uma vida, porque como dizias e bem, fomos pioneiros a conciliar o granel e o biológico, o que teve aspetos muito positivos do ponto de vista da inovação – estávamos a desbravar um caminho para o mercado – e depois, também, teve um lado profundamente desafiante, porque, como estávamos a criar de raiz um conceito que implica alterações na cadeia de valor, nomeadamente, em termos de distribuição e acondicionamento, tivemos de alterar e de trabalhar de forma muito próxima com os nossos fornecedores. Por outro lado, trouxe, também, desafios, do ponto de vista do empreendedorismo, e em particular, neste negócio, que conhecemos bem ao fim de dez anos, é preciso muita resiliência para continuar sempre a inovar. Não basta na abertura, é preciso depois continuar e sobretudo, quando se pensa num contexto que é, também ele, desafiante, de aumento exponencial do custo de vida e da habitação para as pessoas e para as famílias, em geral, o biológico e o granel neste momento, não são propriamente a prioridade. Portanto, é juntar tudo isto e estamos perante um contexto que exige muita resiliência e criatividade.

Integrall:. Como é que se mudam as mentalidades, tendo em conta, precisamente, que o nível de vida está elevado, mas que, por outro lado, o biológico compensa em saúde?
Eunice Maia:. É esse trabalho de educação que nós procuramos fazer também. A nossa prioridade é, acima de tudo, garantir acesso a produtos de qualidade, promover a saúde das pessoas e do planeta, ou seja, o nosso posicionamento não é em termos de preço. No entanto, e apesar de termos secções menos competitivas, temos produtos em que somos extremamente competitivos, como as especiarias e os chás, que, sendo biológicos, a granel e de muita qualidade, em que conseguimos ter preços seis vezes mais baratos e, às vezes, as pessoas não têm essa noção. Um exemplo muito concreto – e nós fizemos a comparação com o mesmo fornecedor -é quando se compra uma caixinha com saquetas de erva-príncipe. Normalmente, a caixa traz 20 saquetas de um grama cada uma. Se pensarmos do ponto de vista de resíduos, existe a caixa com uma película plástica à volta, existem as saquetas, algumas com componentes sintéticos, existe o cordel da saqueta e existe ainda uma etiqueta de papel, ou seja, estamos a produzir todos esses resíduos. Se uma pessoa comprar a granel e trouxer o seu próprio frasco, além de não estar a gerar resíduos, ainda vai poupar. Portanto, quando se pesa tudo isto, as pessoas poupam financeiramente, poupando, também, recursos ao planeta, que não tem hipótese de se regenerar de outra forma e em tempo útil. Por outro lado, também se trata muito de uma mentalidade de longo prazo. Quando se compara e se pensa, por exemplo, num produto biológico e noutro de agricultura mais convencional, é muito importante refletir sobre como é possível que o produto de agricultura convencional é assim tão barato. Quem é que, pelo caminho, deixa de ganhar justamente? Então, quando falamos de biológico, falamos, também, de externalidades a longo prazo – o que fazemos é uma tentativa de redução e de solução criativa dessas mesmas externalidades. Já no caso da agricultura convencional, temos todos de assumir os efeitos colaterais.
Eu costumo falar dos morangos fast fashion, para fazer uma comparação com o têxtil. A produção desses morangos, envolveu pesticidas, que acabaram por contaminar a própria água, o próprio solo, mas os morangos são extremamente baratos, muito mais do que os biológicos. De facto, os biológicos são mais caros, mas, a longo prazo, quando se vai comparar o impacto que os morangos fast fashion tiveram no solo, na água, na saúde das pessoas e do planeta com o dos biológicos, fica claro quais são verdadeiramente os mais caros para todos nós.
“A ‘Maria Granel’ acabou por contagiar e por revolucionar a minha vida”

Integrall:Parece um clichê, mas não há planeta B.
Eunice Maia: Exato, só temos este.
Integrall:. Que balanço fazes desta primeira década de existência?
Eunice Maia:.Do ponto de vista pessoal, foi extraordinário porque mudou completamente a minha vida. Eu venho de um paradigma de consumo, portanto, se recuasses dez anos, ias encontrar uma pessoa extremamente consumista, sem refletir propriamente sobre aquilo que estava a comprar, nem que consequências é que isso teria. Eu era, de facto, uma compradora muito impulsiva, muito inconsciente e acho que o fazia para encher vazios dos quais eu nem sequer tinha noção. Portanto, a Maria Granel, sobretudo, por me ter cruzado com outras pessoas e com outros projetos muito inspiradores, acabou por contagiar e revolucionar a minha vida.
Integrall: De onde é que surgiu esta tua consciência para a sustentabilidade?
Eunice Maia: Não a tinha, de todo.
“No início, o nosso foco não era a proteção do planeta, não tínhamos essa noção (…) trabalhando na área da alimentação, distribuição e retalho a granel, percebemos que fazíamos parte do problema e também por isso precisávamos fazer parte da solução”
Integrall: Sendo professora de Português, porque é que decidiste abrir um negócio dedicado ao desperdício zero?
Eunice Maia: São coincidências completamente improváveis, pelo menos, quando acontecem, mas, depois, é muito interessante quando ao fim de dez anos, afinal, tudo fez sentido. O que acontece, como te estava a dizer, é que eu era extremamente consumista. A minha formação inicial e nada na minha vida me dava indicação de que seria merceeira e teria esta mercearia, mas, hoje em dia, estas duas áreas, que aparentemente não tinham nada a ver, são totalmente complementares, ou seja, muito do que fazemos aqui é educação e, portanto, como professora, eu revejo-me totalmente neste trabalho, que também me permitiu levar para a educação esta preocupação que está, tantas vezes, ausente e que devia ser incontornável: levar a sustentabilidade para o centro do currículo.
Respondendo à tua pergunta, eu destaco sempre duas mulheres essenciais, que inspiraram muito o nosso conceito – e atenção que quando tivemos a ideia, em 2013 e abrimos em 2015 -, era simplesmente uma ideia de fazer um negócio. No início, o nosso foco não era a proteção do planeta, não tínhamos essa noção. Detetámos uma necessidade no mercado, trabalhámos o conceito e abrimos. O que aconteceu foi que, ao longo desses dois anos – até à abertura e mais tarde -,trabalhando na área da alimentação e em particular, na distribuição e no retalho a granel , percebemos que fazíamos parte do problema e também por isso precisávamos fazer parte da solução. Portanto, mesmo sendo uma pequena loja – e isso também dá muita força, que é pensar por mais pequena que tu sejas, tu podes fazer parte da solução – essa é uma grande força temos e que nos orienta muito.
“Foi graças à Béa Johnson que introduzimos, em Portugal e no retalho, de forma intencional, a prática de ‘traga o seu próprio frasco’”

Integrall: Quem foram as duas mulheres que te inspiraram?
Eunice Maia: A primeira inspiração foi a Béa Johnson da Zero Waste, que surgiu, exatamente, uns meses antes de abrirmos. Eu não a conhecia nem ao conceito e cruzei-me, de forma completamente aleatória, com uma reportagem na internet, em que os jornalistas a acompanhavam durante um dia. Lembro-me, durante essa reportagem, que a Béa ia a um supermercado carregada de sacos e dentro desses sacos levava os seus frascos – estávamos em 2015 – fiquei muito intrigada e absolutamente curiosa. Depois, ela dirigiu-se a um corredor lateral – que também é muito simbólico: o granel marginal, literalmente – e começou a abastecer-se diretamente para os seus frascos. Quando chegou a casa, parecia um passo de mágica, porque ela colocou os frasquinhos com os seus produtos na sua despensa e efetivamente não gerou qualquer tipo de resíduo ao dar esse passo. Foi decisivo. Naquele exato momento, em que nós já sabíamos que queríamos abrir uma mercearia que fosse a granel e que tivesse produtos biológicos, decidimos graças à Béa Johnson introduzir, em Portugal e no retalho, de forma intencional, a prática de BIOC – “bring your own container”, em Português, “traga o seu próprio frasco”, traga os seus próprios sacos, de plástico, de pano, de papel, para poupar recursos. Se eles já existem, não há nada mais sustentável do que reutilizá-los.
Integrall: E quem foi a outra influência?
Eunice Maia: A outra influência aconteceu um bocadinho mais tarde, já a loja estava aberta e também foi decisiva. Cruzei-me com a Ana Pêgo, uma bióloga marinha, que acho que foi das primeiras pessoas, em Portugal, a alertar para o problema do lixo marinho e da poluição por plástico. Ela começou a recolher esses resíduos e a chamar a atenção das pessoas através do artivismo. Lembro-me de acompanhar um grupo de 8º ano à exposição “Plasticus Maritimus”, homónima do livro, entretanto, publicado, e foi nesse momento, ao ver os resíduos que a Ana transforma em arte, que tive a noção aguda do que estávamos a fazer e das alternativas que precisávamos de introduzir e isso inspirou-nos para introduzir, no nosso negócio, em 2017, acessórios reutilizáveis para o dia a dia.
Integrall: A “Maria Granel” foi pioneira, mas atualemente uase toda a gente tem biológico. Como é que tem sido concorrer com as grandes superfícies?
Eunice Maia: Esse é um dos desafios. Acho que, em dez anos, talvez tenha sido um dos aspetos a mudar mais. Curiosamente, eu não encaro as grandes superfícies como concorrência, são modelos e propostas de valor totalmente diferentes, diria até, antagónicas, porque aquilo que encontras aqui, dificilmente encontras no supermercado. Além disso, depende também muito dos critérios que se valoriza: se for uma questão de preço, o supermercado efetivamente será a alternativa e a escolha, mas, aqui, procuramos conciliar outras dimensões. Eu acho muito importante – e temos que ser muito claros em relação a isso -, na perspetiva do consumidor, que as grandes superfícies pensem e apresentem o granel. Aliás, nós, enquanto Maria Granel, fazemos parte de um consórcio que está a lutar pela flexibilização do granel, em Portugal, o que é válido para todos os espaços que tenham granel, sejam grandes superfícies, espaços independentes como os nossos ou outras lojas, portanto, acho que é absolutamente fundamental que, para o consumidor, isso exista, mas também sei muito bem distinguir aquilo que é granel intencional e missão daquilo que é um granel quase de greenwashing e que é resultado da pressão dos consumidores e de tendências. Eu respondo pelo granel como missão, intencional e sei muito bem o trabalho que dá e os recursos que exige, porque abastecer um linear de supermercados com pacotes é muito mais fácil e imediato do que, numa loja a granel, garantir que temos pessoas e tempo para higienizar, abastecer várias vezes o dispensador, colocar em prática uma série de procedimentos de Higiene e Segurança Alimentar – é isso que nos distingue e quando as pessoas percebem o processo, valorizam-no, por isso, trata-se de paradigmas totalmente distintos.

“Em França, é possível vender azeite português a granel e, em Portugal, estes produtores não o podem vender”
Integrall: Quais são os maiores impedimentos e limitações legais em lojas como a Maria Granel?
Eunice Maia: Acho que as pessoas não têm bem noção da legislação. Desde final de 2017/2018 que estamos a lutar, enquanto consórcio – a “Maria Granel”, uma rede de lojas a granel, a “Zero Waste Lab”, a Defesa do Consumidor, a “Associação Zero” e uma série de parceiros, como a DoBem – para termos, anualmente, o mês do granel, para sensibilizar as pessoas. Além disso, trabalhamos, também, em termos de lobby, para flexibilizarmos a regulação. Isto porque, e obrigada pela oportunidade de falar disto, existe um contexto europeu que é altamente flexível – se fores a França vais encontrar, por exemplo, azeite português vendido a granel- e estes produtores, em Portugal, não podem vender o seu produto a granel e atenção, que lutamos por um granel que assegure todas as condições de higiene e segurança alimentares, portanto, a nossa proposta é regular boas práticas, em vez de adotar imposição e proibição.
Por exemplo, nós tínhamos, na loja de Alvalade, entre 2015 e 2017, uma parede com 32 dispensadores com diferentes tipos de arroz – alimento muito presente na alimentação das famílias -, mas, em finais de 2017, apareceu um decreto de lei a impor a proibição da venda a granel desse arroz. O que aconteceu depois foi uma espécie de raide pelas lojas a granel para a imposição dessa proibição e posso dizer-te que, em termos de faturação diária, o arroz representava uma fatia muito significativa da nossa faturação, quase um terço em alguns dias. Tivemos de deixar de o vender, nós e todas as outras lojas.
“Muita gente mudou a sua vida ou passou a ter mais preocupações de sustentabilidade com o granel como porta de entrada”
Integrall: Produtos biológicos e a granel e só produtos secos, estes foram os vossos fatores diferenciadores, mas também o facto de ser uma loja de proximidade…
Eunice Maia: Sim, sem dúvida, e eu acho que é algo, que, mais uma vez, o que nos diferencia de outros espaços de maior escala, que é precisamente esta proximidade, esta comunidade e o sentido de comunidade. Eu acho que foi uma das grandes forças e o que nos ajudou a ter sucesso e a solidificar a nossa proposta de valor. A “Maria Granel” não é apenas loja, é também um centro de partilha e tenho muito orgulho nisso, porque acho que contribuímos muito para a criação de uma comunidade. Há muita gente que mudou a sua vida ou que passou a ter mais preocupações do ponto de vista de sustentabilidade, quer ambiental, quer social, com a “Maria Granel” e com o granel como porta de entrada. Sei que é apenas um gesto dentro do universo de possibilidades, mas há muita gente que começou pela parte da alimentação, por comprar porções mais ajustadas ao seu consumo, por reduzir o consumo de produtos de origem animal e portanto, começou por experimentar as leguminosas aqui da loja. Então, é muito interessante como às vezes, a partir deste pequenino gesto, se abrem outras portas.
Integrall: A “Maria Granel” não é só uma loja, também tem muitos workshops.
Eunice Maia: Exactamente. Temos workshops, damos também workshops, recebemos a comunidade, vamos à comunidade, temos uma presença sempre muito colaborativa. A nossa forma de estar – e eu acho que isso também nos distingue -, é dar palco a pessoas e a projetos que nos inspiram e que, quer em termos de redes sociais, quer em termos de espaços, fazemos questão de apoiar.
“A grande questão no plástico, papel ou alumínio, é analisar o seu ciclo de vida. Temos de olhar, sobretudo, para o uso que lhes damos e depois para o descarte”
Integrall: Na “Maria Granel” não há plástico, mas tu não acreditas que o papel e o alumínio sejam as soluções. Porquê?
Eunice Maia: Aqui, há plástico e o plástico é um material que nos ajudou em termos civilizacionais e de evolução. A grande questão no plástico, no papel, ou no alumínio, é analisar o seu ciclo de vida. Temos é de olhar, sobretudo, para o uso que lhes damos e depois, para o descarte. Estamos sempre a falar de materiais com impacto, nada é 100% sustentável. Então, se olhares à volta- estamos a fazer esta entrevista no armazém -, vês várias pilhas de baldes de plástico, mas que já estão connosco desde 2015. O que é que fazemos? Os baldes chegaram com produtos, nós higienizámo-los e agora servem, por exemplo, para transferências de produtos entre lojas. A ideia, seja qual for o material, é tentar reutilizá-lo ao máximo e prolongar a sua vida.
Integrall: A “Maria Granel” tem uma gama muito variada de produtos.
Eunice Maia: Nós temos em sistema, neste momento, entre 1500 e 2000 referências, o que, para uma pequena loja de bairro é bastante. Na parte alimentar, temos desde frutos secos, sementes, cereais de pequeno almoço, temos uma ilha de especiarias, com muitas referências e que é das mais procuradas – há pessoas que vêm de propósito só para comprar as nossas especiarias – temos bolachas, algas, cogumelos, leguminosas, cereais, infusões, chocolates, uma grande variedade de gomas biológicas. Temos, também, a parte dos acessórios, desde marmitas a garrafas, a parte da higiene pessoal, higiene menstrual, desodorizantes, champôs sólidos, marcas biológicas certificadas de cosmética, muitos acessórios para a cozinha e uma secção, que eu diria que é uma secção de nostalgia, que também tem muito sucesso, em que vendemos desde as molas de madeira, que víamos antigamente, saquinhos para as compras, objetos em madeira e também detergentes a granel e uma secção muito variada de matérias-primas para as pessoas fazerem os seus próprios detergentes, que são extremamente acessíveis – com 50 cêntimos conseguem fazer vários.
“Acredito muito na força dos pequeninos gestos (…) que conseguimos incluir na nossa rotina e que nos fazem sentido para se tornarem estáveis e duradouros”
Integrall: Além das duas lojas, tu lançaste o livro “Desafio Zero”, editado pela Manuscrito, que explica como é que se pode criar um mundo mais verde.

Eunice Maia: Não lhe chamaria criar um mundo mais verde. O livro é, sobretudo, uma partilha muito pessoal, um testemunho, na primeira pessoa, sobre esta jornada de uma pessoa consumista. É quase uma memória, uma reconstituição de uma mudança muito progressiva, que continua a acontecer na minha vida e que começou graças ao facto de eu ter uma loja a granel. Eu comecei pela parte da alimentação e pela forma de adquirir os meus alimentos, passei para a divisão da casa e depois, para fora de casa, em comunidade e na escola, pois, sendo professora também falo desse universo, dos pequeninos gestos -eu acredito muito na força dos pequeninos gestos – aquilo que conseguimos incluir na nossa rotina e na nossa vida e que nos fazem sentido para se tornarem estáveis e duradouros.
Integrall: A par desta educação que levas aos teus alunos, vais a outras escolas e empresas dar palestras sobre como ser mais sustentável. Como é que consegues conciliar tudo?
Eunice Maia: Neste momento, fiz uma transição de carreira e apesar de não deixar de ser a fundadora da ‘Maria Granel’, é o meu marido que está, neste momento, à frente do projeto. Surgiu-me um convite absolutamente irrecusável e extraordinário e assumi o cargo de diretora pedagógica de uma escola com quem eu já tinha trabalhado antes na coordenação da estratégia de sustentabilidade.
“É um caminho sem retorno (…) estar em linha com o que a natureza nos dá”
Integrall: Aquilo que começou por ser um negócio, tornou-se numa missão de vida. Que hábitos é que abandonaste e que outros é que adquiriste desde que abriste a “Maria Granel”?
Eunice Maia: Foi uma pequena revolução a todos os níveis, até na forma de estar na vida. Em termos de mudança de hábitos, como disse, comecei pela alimentação e uma das primeiras mudanças, além do consumo a granel que estava obviamente facilitado, foi passar a comprar o cabaz de biológicos da Quinta do Arneiro, em 2017. Foi um processo e é muito interessante que, no início, tínhamos imensa dificuldade com os primeiros cabazes sazonais, mas, depois, esses cabazes obrigaram-nos a mudar completamente os hábitos em casa. Costumávamos ter uma lista de compras e a ir buscar aquilo que queríamos. No caso de um cabaz semanal, ao subscrevermos o que já está preparado, a rotina mudou, porque tivemos de adaptar as refeições ao que o cabaz convidava a fazer.

Integrall: E a comer aquilo que a natureza dava, dá.
Eunice Maia: Exato, de acordo com a estação. É um caminho sem retorno: em termos de qualidade e de sabor, passámos a estar em linha com o que a natureza nos dá e essa é uma maneira muito interessante e especial de religar as pessoas, porque, efetivamente, eu tinha deixado de ter a perceção dos alimentos de cada estação, portanto, esse foi dos primeiros gestos. Depois, ao nível dos detergentes, percebi que há produtos que podem ser totalmente multifuncionais. Estava habituada a ser bombardeada por publicidade e lembro-me perfeitamente de ter um armário cheio de tudo e mais alguma coisa e também, esse foi um caminho sem retorno. No caso dos detergentes, percebi que com dois, três produtos essenciais- um bicarbonato de sódio, limões, um percarbonato e um vinagre – e a coisa está feita, não é preciso mais.
No caso da cosmética e por ter acesso, na loja, a marcas certificadas, acabei por perceber quais eram os produtos que funcionavam – porque cada pessoa é uma pessoa-, e também, que existem opções extremamente acessíveis, com um bom desempenho.
Essencialmente, fiz mudanças em todas estas áreas, mas aquela que teve mais impacto, foi a da alimentação e a consciência que ganhei em relação ao desperdício alimentar. Isso mudou muito a forma como me relaciono com a comida. Em casa, passámos a pensar em função do que temos no frigorífico e na despensa e reutilizar o que sobra.
“A reciclagem não resolve, temos de ter estratégias para a reduzir.”

Integrall: A que mudanças assististe nos outros à tua volta?
Eunice Maia: A partir da loja, há relatos que me comovem muitíssimo. Há muitas pessoas que me falam da importância da “Maria Granel”, precisamente, como porta de entrada neste mundo. Foi o caso de uma nossa freguesa, que trabalha na área das finanças sustentáveis, e que me estava a contar, há pouco tempo, que entrou “neste mundo”, através da “Maria Granel”, que começou por ganhar consciência em relação aos descartáveis e depois, foi trilhando outras áreas.
Integrall: No teu livro dizes que não vale nada reciclar quando continuamos a consumir desenfreadamente. O que é que é preciso para além de reciclar?
Eunice Maia: Na verdade, eu dei-me conta disso na minha vida. Vivemos numa sociedade e num paradigma em que o primeiro impulso é a compra e comprar novo, tudo está feito para estimular esse impulso. A hierarquia, em termos de “R”, é muito sábia – há caminhos alternativos que são viáveis e que talvez já tenham sido mais óbvios na nossa sociedade e que têm a ver com gestos que são, absolutamente, fundamentais e que têm a ver com repensar hábitos antes de comprar, ver se existe alguma coisa à nossa volta que possa servir para o mesmo efeito e, portanto, reutilizar. No fundo, é repensar, reparar, reutilizar, recusar. Estes “R” são fundamentais, permitindo reduzir claramente os resíduos gerados e, portanto, também, a reciclagem. A reciclagem não resolve, temos de ter estratégias para a reduzir.
Integrall: Tu tens duas lojas, mas tu não incentivas ao consumo.
Eunice Maia: Eu preciso que as pessoas consumam aqui, mas com consciência. Na “Maria Granel” vais encontrar aquilo que eu chamo de transparência radical, por exemplo, nós vendemos panos encerados, mas também fazemos workshops para mostrar às pessoas como fazê-los, nós vendemos garrafas e marmitas, mas também mostramos às pessoas como reutilizar uma garrafa que já foi de polpa de tomate ou um recipiente que tenham em casa. Então, nós ajudamos as pessoas a refletirem sobre o que têm. De facto, nós temos o produto, mas damos também os caminhos e as vias de resolução às pessoas para pensarem no seu consumo e para terem alternativas.
Integrall: Sustentabilidade é responsabilidade?
Eunice Maia: Completamente. Essa é a melhor palavra.
















