Um“Bebés Felizes, Encarnações Plenas” é o tema do simpósio internacional organizado pela AlmaSoma para a EUROTAS, que decorre de 22 a 24 maio de 2026, no hotel Seminário Torre d’Aguilha, em S. Domingos de Rana. Durante três dias, especialistas de todos os campos da psicologia, psicoterapia e desenvolvimento pessoal vão mergulhar, a fundo, na vida intrauterina e explicar como é que as feridas e traumas “herdados” desse período se refletem na existência de cada um. Em entrevista ao Integrall, Mário Resende, psicólogo, inscrito na Ordem dos Psicólogos, psicoterapeuta transpessoal, co-diretor da AlmaSoma e presidente do Simpósio EUROTAS 2026 antecipa o encontro e afirma que “era precisa uma sociedade que, verdadeiramente, investisse nas mulheres grávidas e que lhes desse todas as condições para uma gestação tranquila”.
Mário Resende/DR
Integrall: Vão ser dias de encontros transformadores no simpósio?
Mário Resende: Esperamos que sim, o melhor que temos a dizer um é que sim. Nós criámos um simpósio em que as pessoas vão ter a oportunidade de se sintonizarem com o tema através das palestras, de mergulharem um pouco dentro de si mesmas através dos exercícios, que vão ser feitos durante o dia das palestras e depois, vão ter a oportunidade de vivenciar, em workshops, diversas abordagens relativas à transformação das feridas precoces ou à potencialização das competências, também precoces, que todos nós recebemos no nosso processo de encarnação, em termos da gestação que passámos no útero das nossas mães até à herança transgeracional de que também somos herdeiros. Portanto, será uma hipótese de pensar no tema, de se sintonizar com ele e de trabalhá-lo, através das diferentes propostas que vamos ter.
Integrall: Em que é que este simpósio se distingue de edições anteriores?
Mário Resende: Distingue-se pelo tema, que nunca foi trabalhado desta forma sistemática em encontros ou congressos da Associação Europeia de Psicologia Transpessoal, que é a Eurotas, para quem a Alma Soma organiza este evento e distingue-se, também, pela estrutura, que é mais alargada do que a que normalmente os simpósios têm. Será uma estrutura que, inclusive, vai ter um retiro pós-simpósio para um mergulho ainda mais profundo, com duas noites extra.
Integrall: Há preços mais acessíveis para quem se inscrever no simpósio até ao final deste ano?
Mário Resende: Sim, nós temos um (preço) early bird, que termina no final de dezembro. Temos, também valores, diferenciados para Portugal e para países de economias menos desenvolvidas, quer da Europa, quer de fora da Europa. Portanto, quem se queira inscrever a um preço mais reduzido deve fazê-lo até ao final do ano.
Integrall: Os preços dos retiros pós-simpósio serão à parte?
Mário Resende: Os valores do retiro pós-simpósio serão à parte, sim. Portanto, não estão incluídos no simpósio. O que está incluído no simpósio são as palestras, as atividades de desenvolvimento pessoal, que acontecem no final do dia, os workshops, as refeições e um concerto com o Netanel Goldberg, no sábado à noite.
DR
Integrall: Vários especialistas internacionais vão partilhar visões pioneiras sobre feridas pré e perinatais, traumas e despertar de consciência. Que especialistas vão estar presentes?
Mário Resende: Vamos ter vários especialistas de várias partes da Europa e também, dos Estados Unidos. Vamos ter o italiano Pier Luigi Lattuada, Franz Ruppert, da Alemanha, Regina U. Hess, da Holanda, Bernardette Blin de, França, Andrea Cardillo, de Itália e Estados Unidos. Haverá um leque de pessoas que virão de várias partes do mundo para estar connosco.
“Há uma memória muito precoce que pode atravessar todo o percurso da vida intrauterina (…) Aquilo que se passa no útero da mãe é relevante”
Integrall: Que feridas e traumas é que podemos adquirir ainda na barriga da nossa mãe?
Mário Resende: Quase todos. De facto, é uma área de fronteira na psicologia e na psicoterapia. Durante muito tempo – até há pouco tempo, eu diria-, nós pensámos que os bebés, as crianças, não tinham memória nem do que se passava no período da gestação, nem do que se passava nos primeiros anos de vida. Daí que, por muito bárbaro que pareça hoje, se realizavam cirurgias sem anestesia em bebés, porque se considerava que não ficava registo e que, portanto, não haveria problema em fazê-los passar por isso. O que a investigação mostra é que, de facto, há uma memória muito precoce, que pode atravessar todo o percurso da vida intrauterina. Aquilo que se passa no útero da mãe é relevante. Na área do transpessoal, nós descobrimo-lo de uma forma vivencial, há muito tempo, através dos processos de regressão de memória, onde, nomeadamente, Stanislav Grof se notabilizou. Percebemos, realmente, que as pessoas regrediam a memórias de algo que acontecia no ventre da mãe. A questão de ser ou não simbólico foi sempre uma hipótese, embora os factos narrados pelos familiares comprovem algumas vivências em regressão. Mas, hoje, a ciência, a outro nível, mostra, de facto, a existência dessa memória precoce, que abrange estados que são, muitas vezes, impactantes e que provêm do ambiente onde está o bebé, a mãe ou o próprio ambiente familiar. Portanto, a criança é impactada por acontecimentos traumáticos durante a gravidez, mas, também, é impactada, no próprio útero, pela vida emocional e pela vida mental da própria mãe e por aquilo que se passa com o casal. Então, de certo modo, feliz ou infelizmente – não nascemos todos iguais -, podemos já nascer bastante condicionados por experiências, num período em que não tínhamos nenhumas defesas para lidar com elas, a não ser algumas reações corporais do feto, que tenta proteger-se da toxicidade que lhe chega do exterior.
“O feto pode proteger-se, curiosamente, estrangulando o cordão umbilical, para reduzir o influxo de toxinas que entram no seu sistema e que podem ser produzidas também pelo estado emocional da mãe”
Integrall: Como é que o feto se tenta proteger?
Mário Resende: O feto tenta proteger-se através de alguns movimentos corporais, nomeadamente, no que se refere a toxinas que entram pelo cordão umbilical, para fazer circular mais rapidamente o sangue dentro do seu sistema e assim mais rapidamente metabolizar e libertar-se dessas toxinas, através de movimentos com o que serão as suas pernas – é como se batesse os pés. O feto pode ainda proteger-se, curiosamente, estrangulando o cordão umbilical, para reduzir esse influxo de toxinas, que estão a entrar no seu sistema e que podem ser produzidas, também, pelo estado emocional da mãe e não apenas pelos alimentos que ela ingere ou por outros hábitos que tem, como o tabaco. Portanto, o bebé defende-se, mas, obviamente, que essa defesa pode criar nele a ideia de estar num ambiente hostil e de que o mundo exterior é tóxico, é perigoso e que ele tem de estar fechado em si mesmo para não absorver tanta toxicidade, ou seja, já pode criar um padrão defensivo, já na vida intrauterina, de não estar aberto aos outros nem à vida.
Integrall: Quase tudo, quase todos os traumas vêm do período em que estamos na barriga da nossa mãe?
Mário Resende: Quase tudo, não. Não se pode dizer quase tudo. Agora, pode-se ter, vamos dizer, um tipo muito variado de traumas ou de formatações defensivas já desde esse período, pois há muitas outras circunstâncias que podem acontecer durante a vida, que não poderão acontecer, obviamente, no útero materno. Mas há um conjunto grande de traumas ou de formatações defensivas, que podem ter a sua origem ali.
Integrall: As feridas e traumas que vêm do período intrauterino influenciam/moldam toda a nossa vida ou podem ser quebrados, de alguma forma, ao longo da nossa existência?
Mário Resende: Eles podem quebrar-se, idealmente, tendo consciência deles, mas a vida pode também levar-nos por caminhos de saúde e de bem-estar que se tornam tão antitéticos desses estados iniciais, que nós podemos também desmontar, digamos, essas formatações primeiras. Mas muitos de nós poderemos transportá-los durante toda a vida e não nos libertarmos deles.
“(As feridas e os traumas intrauterinos) podem ficar dentro de nós, mas a consciência dos mesmos impede-os de nos manipularem”
Integrall: Mesmo tendo consciência deles?
Mário Resende: Tendo consciência deles. Eles podem ficar dentro de nós, mas ter consciência deles impede-os de nos manipularem. Uma pessoa que, realmente, compreende que se tornou muito desconfiada porque a mãe, por razões diversas, quis interromper a gravidez – ou tentou mesmo -, e que passa a sua vida um pouco paranóica em relação aos outros, ao compreendê-lo, poderá não se libertar completamente dessa desconfiança, mas poderá desvalorizá-la e essa desconfiança deixa de a impactar de uma forma tão profunda.
Integrall: A pessoa consegue pacificar-se com isso?
Mário Resende: No mínimo, a pessoa poderá pacificar-se mais com isso. Se se pode pacificar, completamente, acho que não devemos ser nem pessimistas, nem otimistas a nível destas vidas precoces, pois elas são muito profundas e podem ficar, de facto, na nossa memória e acompanhar-nos o resto da vida, mas, podem perder a possibilidade de nos impactar e de manipular a nossa vida e isso fará toda a diferença.
Integrall: Como é que uma pessoa, que não tem consciência/conhecimento destes temas, sabe que algo na sua vida é fruto de uma ferida ou trauma intrauterino? Como é que esses traumas se manifestam na sua vida?
“Não devemos ser fundamentalistas em relação à necessidade da psicoterapia, mas, na verdade, quem procura na psicoterapia compreender estes padrões, poderá acelerar mais rapidamente o seu processo e ter também, o autoconhecimento”
Mário Resende: A forma como se manifesta vai depender daquilo que aconteceu e que pode ser muito diversificado. Se há um acidente automóvel durante a gravidez, se há uma morte muito dolorosa na família durante a gravidez, se há uma depressão durante a gravidez da mãe, se há uma doença grave de um irmão, tudo isso terá o seu impacto específico. Agora, uma pessoa que tenha uma intenção positiva muito forte em relação à sua vida, mesmo não percebendo de onde vêm as coisas – ela quer estar bem, quer fazer o bem –, isso poderá dar-lhe força para, efetivamente ,mudar esse padrão, simplesmente, porque ela quer ser uma pessoa saudável, positiva, uma presença transformadora. Mesmo nunca compreendendo a origem desse padrão, ela poderá transformar-se. Não devemos ser fundamentalistas em relação à necessidade da psicoterapia, mas, na verdade, quem procura, na psicoterapia, compreender estes padrões, poderá acelerar mais rapidamente o seu processo e ter também, o autoconhecimento, porque há duas coisas diferentes a autotransformação e o autoconhecimento e uma coisa e a outra podem não estar a par. Eu posso, de facto, ter tanta vontade de ser uma presença positiva na vida dos outros que me transformo e transformo toda a minha negatividade, tanta quanto está ao meu alcance, sem propriamente compreender o que foi a causa e o que é o efeito – para isso há o autoconhecimento e para isso, de facto, a psicoterapia pode ser indispensável: para eu realmente compreender os meus padrões, os padrões familiares, o que eu herdei, o que foi o resultado de uma situação concreta que eu vivi. Nesse caso, a psicoterapia pode ser inultrapassável, mas não para a autotransformação.
“A nossa personalidade, numa parte substancial, é construída em cima e por causa das nossas feridas”
DR
Integrall: Há uma relação profunda entre as nossas feridas mais profundas e a forma como nos relacionamos connosco próprios e com os outros?
Mário Resende: Exatamente. Nós, muitas vezes, estamos completamente identificados com as nossas feridas, mas, na verdade, a nossa personalidade, em parte – e numa parte substancial-, é construída em cima e por causa das nossas feridas. Portanto, para a maior parte de nós, não há como distinguir/separar a nossa personalidade das nossas feridas. A nossa personalidade é construída em cima de feridas, em cima de defesas relativas a elas e portanto, aquilo que nós sentimos, a forma como nos comportamos, a forma como pensamos, aquilo a que chamamos a nossa personalidade, é, em parte, um resultado de defesas que tivemos de montar para poder lidar com a realidade que nos circunda. A um certo nível, não há uma separação entre as nossas feridas e a nossa personalidade. Portanto, a resposta é sim: as nossas feridas determinam, substancialmente – sobretudo, em situações de stress, em que temos algum tipo de sofrimento ou em que temos algum tipo de desejo e de medo de não o realizar -, a forma como lidamos connosco próprios, com as nossas emoções, com as nossas necessidades e como lidamos com os que estão à nossa volta, especialmente, aqueles com quem a relação se possa tornar mais tóxica.
“O parto dará, em princípio, um aspeto da personalidade em particular”
Integrall: Além das feridas e dos traumas que trazemos da barriga da nossa mãe, eu sempre ouvi dizer que a forma como foi o nosso parto também influencia muito como vai ser a nossa vida. Partilha desta opinião?
Mário Resende: Eu partilho parcialmente. Eu diria que a gestação, por ser um processo do zero aos nove meses, aos oito meses ou sete meses terá um impacto maior do que o parto, a não ser que o parto seja e o período imediatamente a seguir ao parto seja de tal forma perturbador, como quando há internamento, incubadoras, intervenções cirúrgicas. Se não, eu diria que a gestação será mais impactante, no geral, do que o parto. No entanto, parto dará, em princípio, um aspeto da personalidade em particular.
Integrall:Por exemplo? Mário Resende: Por exemplo, uma pessoa que nasça de cesariana pode passar o resto da vida a ser um pouco uma procrastinadora, que fica à espera que alguém resolva por ela. Por outro lado, uma pessoa que tenha um parto bem sucedido, em que sente a pressão das contrações, em que sente o aperto da passagem pelo canal, que sente um certo esmagamento da cabeça pela estrutura da bacia da mãe, mas que depois consegue, com aquele esforço -e sem ajuda de forceps ou de ventosas -, sente aquele impulso vital e que sai para fora, apesar de eventualmente sentir alguma dificuldade, pode ser uma pessoa mais confiante, mais empreendedora do que aquela que, por exemplo, vai ser tirada a forceps, a ventosas ou, como disse, que vai passar por uma cesariana.
Integrall: E uma pessoa cujo parto foi atrasado por decisão da equipa médica? Uma pessoa que teve um parto normal, mas que era para ter nascido num dia e nasceu no dia seguinte, por decisão da equipa médica?
Mário Resende: Digamos que é de ficar atenta, por exemplo, ao receio de haver uma força exterior que pára o seu movimento natural. Pode perder alguma confiança no seu impulso para realizar algo e ter sempre a sensação que há algo que a prende, que há algo que não a deixa ir em frente. Eu diria que são reações possíveis.
“As feridas podem ser silenciosas na medida em que não temos consciência delas”
Integrall: “As feridas e traumas são marcas silenciosas que não nos lembramos com a mente, mas ecoam na nossa alma.” É preciso atravessar a dor?
Mário Resende: Não sei se usaria, neste caso, o conceito de alma, mas diria que sim, que as feridas podem ser silenciosas, na medida em que não temos consciência delas. Há pessoas que, de facto, têm feridas que dão muito nas vistas, no sentido em que enveredam pela toxicodependência, enveredam pela violência, enveredam pela criminalidade – isso, de facto, é muito evidente e, de alguma forma, faz muito barulho, não é silencioso. Outras feridas podem, simplesmente, estar lá e a pessoa tem uma vida dita normal, a pessoa está enquadrada dentro do que a sociedade espera dela, e, portanto, é uma pessoa aparentemente de sucesso ou de sucesso relativo, mas, dentro de si, pode ter uma incapacidade de olhar para as suas necessidades, um medo de não ser amada, o medo dos outros, então, há feridas, sim, silenciosas, que podem impactar a um nível extremamente profundo. Sem usar o conceito de alma, mas diria que as feridas nos podem impactar a um nível muito profundo e caso a consciência seja algo que ultrapassa a vida material, portanto, no caso de a consciência ser algo que, em nós, não perece, essa consciência poderá transportar, carregar feridas que ocorreram quando estava ligada a um corpo e vivia na terra, numa vida humana. Portanto, sim, eu diria que há feridas tão profundas que poderemos ter de as carregar para além da própria existência física e da existência material, no caso de a consciência perdurar, para além da vida física. E, sim, eu diria que, para muitos de nós – porque não gosto da palavra “sempre”-, para muitos de nós, o caminho da cura passa pelo atravessar da dor.
“Não fugir da dor permite, de facto, que haja uma pacificação interna e uma compreensão de que, muitas vezes, não é tão destrutiva quanto parece quando fugimos dela”
Integrall: Há muita gente que prefere não olhar para a dor?
Mário Resende: E, ainda bem, ao contrário do que se fala, muitos de nós preferem não olhar para a dor, porque, se o fizerem, poderão mesmo ficar mais fragilizados e mais destruturados do que estavam antes, quando não olhavam para ela. Portanto, nós olhamos para a dor a partir do momento em que estamos preparados para olhá-la e não devemos ter chavões, em saúde mental, de“sempre ou nunca”, porque isso não se aplica à realidade humana. A realidade humana é muito diversificada. A dor humana é muito diversificada e não vejo que haja alguém com autoridade para definir os cânones do que se deve fazer ou não fazer. Agora, para muitos de nós, é importante e é essencial atravessar da dor. Não fugir da dor permite, de facto, que haja uma pacificação interna e haja uma compreensão de que, muitas vezes, não é tão destrutiva quanto parece quando fugimos dela. Como se, quando fugimos de uma onda, parece que aumenta atrás de nós e, quanto mais corremos a fugir dela, mais ela aumenta e mais sentimos que temos um monstro gigante atrás de nós. Muitas vezes, quando mergulhamos na onda, ou seja, quando sentimos a dor, quando nos permitimos sentir, mergulhar a onda e sair do outro lado, vemos que a onda apenas é uma onda e nós somos mais do que ela. Mas, como digo, só quem não conhece a dor humana e a destruturação que um ser humano pode carregar dentro de si – e que, muitas vezes, começa na própria vida intrauterina, mas depois continua em eventos ainda mais traumáticos -, só quem não sabe isso é que acha que há uma fórmula para o bem-estar, há uma fórmula para a felicidade, há uma fórmula para a realização pessoal, há uma fórmula para sairmos da dor, há uma fórmula para termos o sucesso e que tudo está ao nosso alcance porque a fórmula é infalível.
Integrall: Deduzo pelas suas palavras que não há essa fórmula.
Mário Resende: Eu acho que devemos analisar as coisas caso a caso, pessoa a pessoa, com muita humildade, com muita compaixão pelo sofrimento humano, com muita compaixão por aqueles que estão envoltos na dor. Quem fala da dor humana e tem muitas soluções, deveria ir à consulta de psiquiatria do hospital de Santa Maria, em Lisboa, ver pessoas que foram completamente destruídas por situações traumáticas e que passados 30/40 anos, estão cada vez piores e perceber que, aquelas pessoas, não tinham forma de fazer melhor do que aquilo que fizeram ou não tiveram a ajuda necessária. Portanto, acho que não deve haver chavões e deve haver muita humildade e muita compaixão pelo sofrimento humano.
“Deve haver muita humildade e compaixão pelo sofrimento humano”
Integrall: O que é que se considera uma encarnação plena?
Mário Resende: É uma grande questão. Uma encarnação plena é uma encarnação em que nós existimos, sem estarmos limitados pelas nossas defesas, pelas nossas feridas, ou seja, em que vivemos com energia, com afeto, com clareza mental e de alguma forma, podemos manifestar, na nossa vida, aquilo que são as nossas necessidades básicas, ou realizar, ou satisfazer, ou preencher essas necessidades básicas e por outro lado, preencher as nossas necessidades de autorrealização – um bocadinho na linha da pirâmide Maslow-, em que percebemos aquilo que verdadeiramente nos dá energia na vida, aquilo que verdadeiramente aquece o nosso coração, aquilo que nos apaixona e nos entusiasma, aquilo também que nos faz sentir úteis e realmente conseguirmos vivê-lo. Então, uma encarnação plena será uma encarnação que terá, pelo menos, estas características – eventualmente outras – e que é o oposto de uma encarnação regida pelo medo, pela defensividade ou por aquilo a que podemos chamar de adições ou por comportamentos autodestrutivos em que, de alguma forma, bloqueamos o impulso para o que é melhor para nós. Isso, de facto, impede uma plenitude. Nós queremos ser saudáveis, mas bebemos demais, ou fumamos demais, ou somos impulsivos e não conseguimos construir relações amorosas. Assim, uma encarnação plena é uma encarnação em que nós manifestamos aquilo que é mais profundo em nós, os nossos próprios talentos e que o fazemos de um forma que é satisfatória para nós, porque, muitos de nós, podem estar a manifestar os seus talentos, mas por razões que têm a ver com a sua personalidade e simplesmente se autodestroem, porque trabalham demais ou porque dão demais e isso ainda é um nível abaixo do que pode ser uma encarnação plena. É um tema complexo e é diferente de pessoa para pessoa, porque aquilo que me realiza profundamente a mim pode não realizar profundamente outras pessoas, mas uma encarnação plena será uma vida onde aquilo que é bom existe para nós, aquilo que é belo também e aquilo que é justo também, um bocadinho dentro da linha platónica, que é um pouco a minha.
“É muito importante criar uma cultura em que as grávidas possam saber que têm toda uma sociedade que valoriza o fruto que elas geram no seu ventre”
Integrall: Se fosse possível evitar traumas e feridas intrauterinos, a priori, que conselhos é que daria a uma mulher que esteja a pensar em gravidar, de como se proteger e como proteger o seu bebé?
Mário Resende: Esse é um tema muito complexo, porque a nossa cultura desenvolveu-se, em parte, à volta da culpabilização das mulheres em muitas coisas. Já começou no Génesis, ao culpar-se as mulheres da saída do paraíso e essa maldição, completamente injusta, continua até hoje. As mães e as mulheres, facilmente, se sentem culpadas pelo que não corre bem. Então, é uma pergunta difícil, porque a última coisa que uma pessoa, que sabe destas áreas, quer fazer é culpabilizar as mães – muitas delas que morrem pelos filhos e fazem tudo o que está ao seu alcance para criar os seus filhos da melhor maneira, o que é um ato de uma grande beleza e uma grande nobreza. O que era preciso, a meu ver, era uma sociedade que compreendesse a delicadeza e a importância do período da gestação, ou seja, uma sociedade que, verdadeiramente, investisse nas mulheres grávidas e lhes desse todas as condições que elas precisassem para ter uma gestação tranquila. Esse seria o cenário ideal: uma sociedade que desse as condições materiais, as condições de apoio – não falando das médicas-, mas as médicas não resolvem certos problemas mais profundos, evidentemente. Portanto, é muito importante criar uma cultura em que as grávidas possam saber que têm toda uma sociedade que valoriza o fruto que elas geram no seu ventre e isso, infelizmente, não existe. Obviamente, o que é, de facto, importante é trazer à sociedade a noção de que aqueles seres, que se desenvolvem no ventre das mulheres, registam a experiência que têm. Isso vai fazer uma grande mudança, porque maior parte das mães e dos pais querem o bem absoluto para os seus filhos. Se houver a consciência de que estar num sítio muito agressivo, ter conversas muito agressivas, vai ficar, de alguma forma, registado no filho que está a desenvolver-se, isso vai provocar uma mudança radical, porque maior parte dos seres humanos, na gravidez, quer e faz o melhor ao seu alcance. No passado, fumava-se quando se estava grávida, porque não havia consciência.
DR
“No passado, pensava-se o que se fazia às crianças até aos dois/três anos não era relevante, achava-se que não havia memória disso. Depois percebeu-se que não”
Integrall: Hoje em dia ainda se fuma. Mário Resende: Hoje em dia fuma-se infinitamente menos. Porquê? Porque as pessoas, agora, sabem que fumar pode impactar negativamente o seu bebé. Ainda assim, perante uma mãe, que fuma e que está numa situação muito difícil, em que o tabaco ajuda-a a regular-se ela própria, fumar, se calhar, é um mal menor do que ela estar completamente ansiosa, completamente em pânico ou completamente deprimida. Então, por favor, não pode haver julgamentos a este nível. O que tem de haver é uma consciência e crescermos na consciência de que o bebé que não é só impactado depois de nascer, mas é o feto – o bebé em desenvolvimento-, que também é impactado. No passado, pensava-se o que se fazia às crianças até aos dois/três anos não era relevante, achava-se que não havia memória disso. Depois percebeu-se que não: a criança já está em desenvolvimento e a absorver tudo. Mas temos de recuar ainda mais nesta consciência e ir para a vida intrauterina e isso vai fazer uma grande diferença, sabendo, contudo, que a vida será sempre imperfeita e não há gravidezes perfeitas, não há mães perfeitas, nem pais perfeitos.
Integrall: Qual é a importância destes simpósios para trazer à consciência estes temas?
Mário Resende: Os simpósios são importantes porque, por um lado, acordam os técnicos de saúde mental para o seu trabalho e para outras dimensões do seu trabalho e, como são abertos ao público em geral, podem, de facto, impactar a sociedade, fazer passar uma mensagem que, progressivamente, vai transformando as mentalidades. Nós temos de confiar na boa vontade do ser humano, que é uma coisa real, a par da má vontade que, também, existe. Mas existe a boa vontade do ser humano de querer fazer o seu melhor, de querer ser o melhor ser humano possível para si e para os outros e tudo o que se possa fazer para a consciência evoluir, será sempre um passo em frente, será sempre mais uma pedrinha que se põe na praia, mais uma areia, mais um saco de areia, mais um camião de areia, numa praia gigante, que é a vida, e que é muito complexa. Um simpósio deste género chama a atenção e nós temos também um podcast, um canal no Instagram, que vai ficar para além do simpósio, precisamente para deixar esta mensagem e para que mais pessoas, futuramente, possam inspirar-se e crescer, porque as mães – muitas mães hoje em dia e no passado -, procuram, ativamente, saber aquilo que é o melhor para o seu bebé, quer depois quer antes dele nascer. A humanidade evolui assim e devemos ser, não otimistas, mas, realistas e saber que a informação fica e as mentalidades transformam-se, mesmo depois tendo um contraciclo, como o que se está a assistir, agora, na Europa e nos Estados Unidos. A evolução pode ter contra evoluções, os períodos revolucionários têm períodos contra-revolucionários, mas é assim que a evolução acontece: por ciclos, de uma forma espiralada, e nós temos de confiar na capacidade de aprender e de melhorar do ser humano.
“É possível começar um processo terapêutico num bebé de quatro semanas”
DR
Integrall: A AlmaSoma, que organiza pela primeira vez o simpósio, é pioneira em psicologia transpessoal e terapia de regressão no campo de trauma precoce, e desde 2013, também, na abordagem de traumas durante a gestação. Em que momento é que surgiu o interesse de olhar, mais a fundo, para este tema dos bebés?
Mário Resende: A AlmaSoma é herdeira dos pioneiros da psicologia transpessoal. Começámos, em 2006, a psicologia transpessoal – nessa altura já com 30 anos -, e somos herdeiros de Stanislav Grof, Abraham Maslow e depois, dos pioneiros, também, da terapia regressiva, que são Morris Netherton, Roger Woolger, Hans tem Dam. Em Portugal, o movimento transpessoal começou com a Associação Luso-Brasileira Transpessoal (ALUBRAT), da qual fui presidente e vice-presidente – o nosso trabalho começou dentro da ALUBRAT e depois, continuou na AlmaSoma, a partir de 2006. Onde fomos pioneiros, em Portugal, foi na construção de uma formação de psicoterapeutas dentro dos critérios internacionais, próximos da Associação Europeia de Psicoterapia e cumprindo os critérios rigorosos da Federação Portuguesa de Psicoterapia e da Eurotas – Associação Europeia de Transpessoal. Somos uma das 11 escolas, certificadas a nível mundial pela Eurotas, na formação de psicoterapeutas transpessoais, e nesse aspeto, somos pioneiros em transpessoal, em Portugal, sendo que há outras escolas que ensinam transpessoal, mas não com este grau de exigência em termos formativos. De facto, fomos pioneiros, em Portugal, na terapia para bebés ao convidar, em 2013, um formador americano para dar formação, nesta área, a pessoas ligadas à AlmaSoma. Algumas tinham já uma formação de três/quatro anos como psicoterapeutas e fizeram uma espécie de pós-graduação em cima da formação inicial. Além dissom nos últimos 12 anos, temos vindo a aprender, particularmente, através da outra diretora da AlmaSoma, Ilja Van de Griend, que foi quem trouxe esta formação para Portugal, que é a formadora principal nesta área e que tem múltiplas formações nos Estados Unidos, a nível do trauma pré e perinatal e no trabalho com crianças, bebés e adultos. Portanto, o que a AlmaSoma trouxe para Portugal foi a noção de que não precisamos de ser adultos nem de ser crianças para começar um processo terapêutico. Podemos ser bebés e iniciar esse processo e isso é revolucionário em relação à mentalidade da psicoterapia, que considerava que, quando muito, teria de se ser criança para começar e que não se podia fazer trabalho terapêutico com um bebé de quatro semanas. Nós, hoje, sabemos que não é verdade.
“Trazer os pais e o bebé para uma sala de terapia para falar das dificuldades que sofreram durante a gestação, durante o parto, tem um impacto terapêutico no bebé e pode ser libertador”
Integrall: Qual foi o paciente mais novo que já tiveram na AlmaSoma?
Mário Resende: Foi alguém entre as quatro e as seis semanas de vida. De facto, são usadas técnicas por um lado, muito simples e por outro, muito complexas, que trabalham no campo subtil da família, através da palavra e da presença terapêutica. Trazer os pais e o bebé para uma sala de terapia, para falar das dificuldades que sofreram durante a gestação, durante o parto, tem um impacto terapêutico no bebé e pode ser libertador. Existem resultados – não só nossos, mas noutras partes do mundo -, a nível do sono, da alimentação, da relação com a mãe, da atividade motora -, existem resultados muito claros e que são rapidamente percecionados pelos pais, por vezes, de uma sessão para a outra.
Integrall: A Almasoma completa 20 anos em 2026. Este simpósio vem, de alguma maneira, assinalar o vosso 20º aniversário?
Mário Resende: Este simpósio assinala o 20º aniversário do AlmaSoma e assinala os meus 60 anos de vida e, por isso, corresponde, também, a um movimento da própria equipa – que é extensa -, que também teve o seu processo de amadurecimento e que, agora, sente que está pronta para intervir mais na sociedade e trazer a mensagem terapêutica que está ao nosso alcance.
“Na (AlmaSoma) consideramos que a consciência humana e o ser humano têm uma dimensão energética”
Integall: A abordagem da AlmaSoma é a de que todos somos corpo-alma-emoções?
Mário Resende: A abordagem da AlmaSoma é uma abordagem, obviamente, holística. É uma abordagem psicoterapêutica que, por um lado, colhe a sua natureza da história da psicoterapia, desde a psicodinâmica a outras abordagens mais convencionais, como a humanista – a psicoterapia tem um corpo comum que é extensível a muitas das escolas de psicoterapia e dos modelos que existem-, mas o que distingue a AlmaSoma é a integração da espiritualidade dentro da psicoterapia e a noção de que a consciência humana é mais complexa do que a visão materialista considera. Nós consideramos que a consciência humana tem uma dimensão muito mais vasta do que a simples visão materialista, que reduz a consciência humana ao cérebro humano. Nós consideramos que a consciência humana e o ser humano têm uma dimensão energética, que permite explicar muitos fenómenos que a conceção materialista não permite, nomeadamente, parapsicológicos. O que distingue uma psicoterapia transpessoal – a que faz a AlmaSoma -, para além de inserir muitos dos conhecimentos e das informações da psicoterapia, em geral, é usar os estados modificados de consciência no processo terapêutico. Portanto, é uma clara distinção que tem alguma proximidade com a hipnose, embora não façamos hipnose clássica, apenas induzimos estados modificados de consciência, que permitem um foco interno e um processamento emocional, corporal e somático diferente das histórias de vida e das circunstâncias de vida. De facto, olhamos para o ser humano como aquele que tem uma dimensão espiritual e, portanto, uma dimensão energética, que é diferente de uma visão materialista.
Integrall: Que terapias é que se encontra na AlmaSoma?
Mário Resende: A psicoterapia transpessoal é uma psicoterapia integrativa, ou seja, inclui várias técnicas que foram desenvolvidas na história da psicoterapia, desde técnicas mais corporais, técnicas em estado de modificado de consciência, técnicas herdadas das constelações familiares. Na AlmaSoma forma-se e faz-se psicoterapia, ou seja, acompanha-se as pessoas nos seus processos de vida, seja de sofrimento, seja de desenvolvimento, seja ambos e depois, para implementar, para estimular esse desenvolvimento ou essa relação com o sofrimento, usam-se diferentes técnicas, que podem ser muito variadas: algumas podem recorrer a materiais, desde o desenho, até ao estado de modificado de consciência, passando por exercícios corporais. As técnicas não são relevantes. O processo de acompanhamento é o que é realidade.
Integrall: Esse processo pode ser individual e ou em grupo?
Mário Resende: Na AlmaSoma, especializámo-nos no trabalho individual, em consultório. Só fazemos trabalho de grupo a nível da meditação. Desenvolvemos um processo de meditações ativas, que ocorrem, semanalmente, e que usam o movimento, a dança e outros exercícios físicos, a pares, para induzir uma catarse e para produzir um estado de quietude.
Integrall: Já assistiu a muitas transformações na vida das pessoas que por aqui passam ou passaram?
Mário Resende: Já assisti a muitas transformações e essa é uma das razões de ser de eu estar aqui. É a grande satisfação, a grande alegria da minha vida profissional.
Integrall: O que é que se espera da AlmaSoma para os próximos 20 anos?
Mário Resende: Ainda bem que pergunta. Nós queremos continuar a dar formação a psicoterapeutas e desenvolver bastante esta consciência das nossas feridas precoces, e eventualmente, ter uma atividade de divulgação maior, a nível de palestras ou de webinars. Sentimos que estamos prontos para dar um passo maior e esse é também, um processo pessoal dos diretores da AlmaSoma – que sou eu e a minha esposa-, e que agora se está a substanciar num canal de Instagram, que eu vou criar com a minha poesia e dar a cara pelas palavras que produzo.