Desde novo sentiu a chamada da natureza e quase sem dar-se conta tornou-se agricultor biodinâmico, iniciando uma agricultura respeitosa do meio ambiente, que restringe o uso de agroquímicos, ainda que sejam naturais.
Fundador da primeira quinta biodinâmica, em Espanha, há quase 40 anos e formador na área há 15, Julio Arroyo foi padeiro, pasteleiro, queijeiro, artesão, ganadeiro e presidente da Associação Biodinâmica, no país.
Actualmente, dirige a cozinha do Centro de Salut Vital, em Zuhaizpe, Navarra, é assessor de empresas e impulsionador de projectos biodinâmicos.
Integrall: O que é a agricultura biodinâmica?
Julio Arroyo: Temos de reconhecer que a agricultura biodinâmica foi a primeira agricultura que optou por deixar de deitar agroquímicos sintéticos no campo. Podemos dizer que foi a primeira agricultura do que se conhece hoje como agricultura biológica, orgânica ou ecológica, dependendo do país onde estejamos a falar deste tipo de agricultura. É uma agricultura biológica “plus” (mais) – à parte de não deitar agroquímicos no campo, tem outras atividades, que o que fazem é aportar vida ao solo e sobretudo, aportar alimentos para alimentar o ser humano completo, para alimentar o seu corpo físico, para ter um bom sistema imunitário, para poder manejar a parte emocional correctamente e para ter um pensamento claro e luminoso.
Integrall: Qual é a diferença entre a agricultura biodinâmica e a agricultura biológica?
Julio Arroyo: Há uma diferença, que é o facto de a agricultura biodinâmica utilizar uns produtos que se chamam preparados biodinâmicos. Estes produtos são feitos à base de plantas sanadoras: mil-folhas, camomila, valeriana, urtiga. Esta é uma gama de preparados. Noutra gama, utiliza-se cornos de vaca – que se preenchem com silício ou quartzo-, que se introduzem no solo para lhe dar vida e para que as plantas tenham mais capacidade de defender-se das agressões externas.
Outra coisa que a agricultura biodinâmica tem é que trabalha em tem em conta os processos da lua, dos planetas, das estrelas, para fazer trabalhos distintos ou para decidir que trabalhos vamos fazer nos cultivos, seja numa horta, num pomar ou numa vinha.
“A lua tem influência, sobretudo, na água e as plantas são 90 por cento de água”
Integrall: Qual é a influência da lua na agricultura biodinâmica?
Julio Arroyo: A lua é a que mais influencia, sobretudo, o trabalho agrícola, o trabalho com as plantas, o trabalho agronómico, porque está mais perto da terra. Através da lua, vem-nos a informação do céu. A lua tem influência, sobretudo, na água e as plantas são 90 por cento de água. Dependendo da constelação onde esteja a lua, actuamos numa parte da planta. Se a lua está numa constelação que activa as raízes, trabalhamos com plantas de raízes. Se a lua está numa constelação que activa as folhas, trabalhamos com plantas em que consumimos as folhas, se a lua está numa constelação de calor, trabalhamos com as plantas das quais comemos os frutos, que têm a ver com o calor. Estamos sempre a trabalhar com estes processos. Há momentos da lua que são forças de expansão e há momentos da lua que são forças de contracção, forças de inspiração. Dependendo do que temos de fazer nos nossos campos, vamos trabalhar com a lua que nos dá a informação para trabalhar no solo ou com a lua que nos dá a informação para trabalhar com a parte exterior da planta.
Integrall: Os agricultores biodinâmicos trabalham com a lua, mas também com os outros planetas. Consultam os astros?
Julio Arroyo: Trabalham, sobretudo, com a lua e com as constelações, com as estrelas fixas. Os planetas, também, surgem pelo meio, mas influenciam um pouco menos do que as constelações.
Integrall: A agricultura biodinâmica completou 100 anos, em 2024. Está muito difundida pelo mundo ou não?
Julio Arroyo: Está muito difundida porque em todos os continentes há agricultores biodinâmicos. A agricultura biodinâmica começou no centro da Europa, na Alemanha, que é onde há mais agricultores biodinâmicos, mas há iniciativas no Egipto, na China, no Japão, em África, na América. Na Península Ibérica, expandiu-se muito, nos últimos anos, sobretudo, em Espanha.
“O mundo vinícola está a procurar a biodinâmica porque os vinhos e os azeites, de mais alto nível, são de produtores de agricultura biodinâmica”
Integrall: Como é que reagem os agricultores a quem dás formação?
Julio Arroyo: No início da formação, quando se fala da lua, das estrelas, dos cornos de vaca – que não é algo tão quantitativo -, porque a agricultura biodinâmica trabalha mais com o qualitativo, há como que – não uma rejeição -, mas estranheza. Às vezes, pensam que o que fazem os biodinâmicos, sobretudo os preparados, é um pouco estranho, mas quando veem os resultados nos seus cultivos, mudam e então, dizem: “que estranho, mas funciona”. O mundo vinícola está a procurar a biodinâmica porque os vinhos e os azeites, de mais alto nível, são de produtores de agricultura biodinâmica.
Os agricultores que trabalham com biodinâmica “notam que as plantas estão mais saudáveis, que crescem com mais vitalidade e que o produto final tem mais sabor.”
Integrall: Que resultados veem os agricultores, na prática? Que diferença notam quando começam a aplicar a agricultura biodinâmica?
Julio Arroyo: Primeiro, notam que as plantas estão mais saudáveis, que crescem com mais vitalidade e que o produto final tem mais sabor, mais odor e mais cor e quando uma pessoa os ingere, como alimentos, sente-se melhor.
Integrall: Os consumidores também ganham?
Julio Arroyo: Os consumidores ganham, sobretudo, em saúde, ganham, sobretudo, em sentir-se melhor. Podem perder algo, porque é mais caro do que a comida convencional.
Integrall: Mas ganham em saúde.
Julio Arroyo: Ganham em saúde, claramente.
Integrall:Há muitos agricultores biodinâmicos, em Espanha, mas exportam principalmente, para a Alemanha.
Julio Arroyo: O consumidor potencial está no centro e no norte da Europa. Em Espanha, não há muito consumo de produtos Demeter (biodinâmicos), não se encontra no mercado, nem muita gente conhece os produtos biodinâmicos.
Integrall: A Demeter é o selo da agricultura biodinâmica?
Julio Arroyo: A Demeter é o selo de garantia de que é um produto biodinâmico. Para se obter o selo Demeter é preciso cumprir um caderno de normas e cumprir uns parâmetros mínimos, definidos pela normativa Demeter. Nem todos os agricultores podem aceder às compatibilidades para conseguir o logótipo Demeter.
“A agricultura biodinâmica restringe o uso de agro químicos, ainda que sejam naturais e sobretudo, obriga a que sejam usados os preparados biodinâmicos.”
Integrall: Quais são as condições no solo para obter um selo Demeter?
Julio Arroyo: As condições são muito mais estritas do que na agricultura biológica. Na agricultura biológica são permitidos insumos, que não se pode usar na agricultura biodinâmica. A agricultura biodinâmica restringe o uso de agro químicos, ainda que sejam naturais e sobretudo, obriga a que sejam usados os preparados biodinâmicos.
Integrall: Quantos agricultores biodinâmicos existem no mundo?
Julio Arroyo: Muitíssimos. Todos os anos, em fevereiro, há um congresso mundial de agricultura biodinâmica, em Dorna, na Suíça. Mais de 1000 agricultores assistem a estes eventos, que são conferências, que são investigações e que são experiências de agricultores biodinâmicos de todo o mundo.
Integrall: Rudolf Steiner dizia que os problemas de actualmente são problemas de nutrição.
Julio Arroyo: Rudolf Steiner disse-o, mas, agora, todos sabemos que a maioria dos problemas de saúde tem a ver como a forma como nos alimentamos e com a qualidade de comida que ingerimos. Não é algo novo.
Integrall: A agricultura biodinâmica ajuda?
Julio Arroyo: A agricultura biodinâmica ajuda e a agricultura biológica também pode ajudar um pouco porque nos intoxica menos do que a agricultura convencional.
Integrall: Onde se pode comprar produtos biodinâmicos?
Julio Arroyo: Em Espanha e em Portugal, creio que com bastante dificuldade. Em lojas de produtos biológicos ou se conhecer agricultores que produzam biodinâmico, comprando-lhes diretamente, mas, em lojas convencionais, não se vai encontrar com facilidade.
“É uma pena que estejamos a produzir comida de qualidade para que a comam os que têm mais dinheiro“
Integrall: O que é uma pena.
Julio Arroyo: É uma pena que estejamos a produzir comida de qualidade para que a comam os que têm mais dinheiro.
Integrall: Tu costumas dizer que “os médicos cuidam do microseres e os agricultores do macro seres”.
Julio Arroyo: Alguns agricultores cuidam da terra, que é um ser vivo. A terra não é um troço de terra rolando debaixo do céu, é um ser que cumpre os parâmetros para ser considerada um ser vivo. Diz-se, cientificamente, que o único parâmetro para que (a terra) não seja considerado um ser vivo é que não se possa reproduzir, mas (ela) cumpre todos os outros parâmetros.

“Primeiro conselho para uma boa alimentação: utilizar matéria-prima de qualidade e se possível, biodinâmica”
Integrall: Conselhos para uma boa alimentação?
Julio Arroyo: Primeiro conselho: utilizar matéria-prima de qualidade e se possível, biodinâmica. Segundo conselho: conhecer o sistema digestivo do ser humano para, dependendo das combinações, se possa optimizar o potencial nutritivo dos alimentos. Terceiro: conhecer o ser humano completo para alimentá-lo com o que o ajude a equilibrar-se e a desenvolver-se correctamente nesta vida. Trabalhar com as plantas, utilizando técnicas de cozinha para não destruir todo o potencial nutritivo que têm, trabalhar com a comida para fazer combinações de modo a que o corpo tenha de trabalhar menos para poder assimilar mais os nutrientes, saber que os alimentos têm a ver com o céu e trabalhar com os alimentos que correspondem aos dias da semana para nos harmonizarmos com a nossa parte do microcosmos que imita o macrocosmos.
Integrall: Que combinações de alimentos aconselhas?
Julio Arroyo: O que aconselho é não misturar proteínas e hidratos, não misturar frutas doces com frutas ácidas, cozinhar de forma simples e com pouca elaboração e sobretudo, começar as refeições com uma salada ou consumir 40 por cento a 50 por cento de alimentos crus diariamente.
As pessoas “sentem que as digestões são mais fáceis, que têm menos problemas digestivos e que a sua cabeça fica livre depois de comer”
Integrall: Que mudanças sentem as pessoas que fazem essa alimentação?
Julio Arroyo: Sentem que as digestões são mais fáceis, que têm menos problemas digestivos e que a sua cabeça fica livre depois de comer – não têm de ir dormir a sesta rapidamente.
“Ao início, eu era (considerado) louco, de uma seita, agora, chamam-me para dar palestras, inclusive, em eventos oficiais.”
Integrall: Quem é o Julio Arroyo?
Julio Arroyo: Isso gostava eu de saber (risos). “Quem sou eu?” é a pergunta que me faço desde muito jovem e uma das razões para ter-me tornado agricultor é que me fazia a pergunta: “quem é o Julio Arroyo, o que fazia aqui, para que tinha vindo à terra e que sentido tem a vida?”. Continuo a fazer-me essas perguntas.
Eu queria ser agricultor e desde jovem quis ir viver para o campo – eu era uma pessoa da cidade – e escolhi a agricultura biodinâmica porque era a agricultura que, com o trabalho agrícola, me permitia responder a estas perguntas: quem sou, o que faço, porquê, que sentido tem tudo o que me acontece na vida e através da agricultura biodinâmica, tornei-me agricultor.
Estive 30 anos a viver numa propriedade no meio do monte. Vivi nas Astúrias, em Santander e desenvolvi a minha actividade agrícola com animais – vacas, cavalos, galinhas -, fazendo queijos, pão e depois de uma situação pessoal, mudei a minha vida e dediquei-me à formação agrícola, à assessoria de agricultores para fazerem trabalho biodinâmico.
Quando comecei a fazer biodinâmica, não se conhecia nem a agricultura biológica nem a agricultura biodinâmica, não havia selos (de garantia), nem normativas, nem logótipos. Ao início, eu era (considerado) louco, de uma seita, agora, chamam-me para dar palestras, inclusive, em eventos oficiais.
Integrall: Foste pioneiro em Espanha?
Julio Arroyo: Fui pioneiro porque antes de eu fazer estas coisas ninguém as fazia.
“Ao início, diziam que eu era estranho, mas, depois iam ver-me, queriam perceber o que eu fazia com este tipo de agricultura. Agora, tenho a sorte de a agricultura ecológica e a biodinâmica ser procurada e ter prestígio – e posso viver de ensinar biodinâmica (…)”
Integrall: Há muitos anos procuravam-te ministros?
Julio Arroyo: Saí em todos os meios de comunicação (espanhóis), visitaram-me todos os políticos. Ao início, diziam que eu era estranho, mas, depois iam ver-me, queriam perceber o que eu fazia com este tipo de agricultura. Agora, tenho a sorte de a agricultura ecológica e a biodinâmica ser procurada e ter prestígio – e posso viver de ensinar biodinâmica-, mas ultimamente, a vida colocou-me outro ofício pelo meio, que é ser cozinheiro de um centro de saúde, onde se pratica medicina antroposófica, medicina integrativa e é onde a minha vida mudou de produzir alimentos para transformar os alimentos. Como sei como se produzem, posso transformá-los para não perderem a essência. Como (conheço) o trabalho feito pelos agricultores para que os alimentos cheguem a nós, tento que cheguem o mais puro, o mais saudável e o mais cheio de vida possível às nossas mesas.
Integrall: Nesse centro de saúde, podes aportar valor?
Julio Arroyo: Posso aportar valor porque através da cozinha tento transmitir todo o conhecimento que tenho, não só de agricultura biodinâmica, como também de Antroposofia, desenvolvida por Rudolf Steiner.
“O problema é que não comemos por necessidade nem por fome, senão, por processos anímicos e processos sociais, mas quando deixamos de comer, percebemos que não precisamos de tanta comida.”
Integrall: Como é cozinhar num centro de saúde onde a maioria das pessoas está a fazer jejum?
Julio Arroyo: É muito bom que te paguem para não cozinhar (risos). É muito interessante trabalhar (neste centro) porque se entende que não é tão importante comer e não é tão importante comer tanto. Pode-se viver sem comer. Quiçá, o problema é que não comemos por necessidade nem por fome, senão, por processos anímicos e processos sociais, mas quando deixamos de comer, percebemos que não precisamos de tanta comida. É interessante porque percebemos que, comendo de outra maneira, a saúde aumenta e não comendo curamo-nos de patologias graves. O interessante é ver como uma pessoa começa a alimentar-se depois de sair de um jejum grande, pouco a pouco, porque é um perigo começar a comer depois de estar jejuando, porque pode ser muito perigoso. É interessante perceber que, quando se começa a comer pouco a pouco e se muda o regime alimentar, a vida muda também. Mudando a vida, a saúde melhora.
Integrall: Em que momento descobriste a Antroposofia de Rudolf Steiner?
Julio Arroyo: Ao mesmo tempo que a agricultura biodinâmica.
Integrall: Tornaste-te vegetariano de um dia para o outro por uma questão de saúde. Fazias ioga, mas tinhas excesso de peso?
Julio Arroyo:És jovem, dizem-te que és muito saudável e sentes-te o máximo.
“Não sei se encontrei um sentido espiritual, mas sei que a alimentação, sim, pode ajudar à ligação ao mundo espiritual”
Integrall: Encontraste um sentido espiritual na alimentação?
Julio Arroyo: Não sei se encontrei um sentido espiritual, mas sei que a alimentação, sim, pode ajudar à ligação ao mundo espiritual.

Conselhos sobre alguns alimentos:
Carne: Houve um tempo em que fui vegetariano, agora não sou, mas escolho o tipo de carne que como. Ao ser ganadeiro, eu sei que pode ser um problema consumir algum tipo de carne. Não quero dizer que as pessoas tenham de se tornar vegetarianas, mas há que procurar carne de animais que não tenham estado em sofrimento, que não tenham sido medicados, que não tenham estado a viver em condições que não são nada boas.
Peixe: Se não são de piscicultura, se não são muito grandes, não creio que seja problemático.
Ovos: Creio que é o melhor que se pode comer para estar alimentado mais equilibradamente, sobretudo, de aminoácidos, mas têm de ser ovos de galinhas que não estejam em capoeiras, que não comam alimentos transgénicos nem estejam medicadas. Se tens galinhas em casa, na tua horta, creio que esses ovos são um dos alimentos mais valiosos que há.
Fruta: Deveríamos alimentar-nos com uma percentagem muito grande de alimentos crus. Fruta biológica ou biodinâmica e consumi-la crua. Devíamos comer fruta todos os dias.
Verduras: Se não são cultivadas com agro químicos sintéticos devem ser consumidas cruas, de preferência. Se forem cozinhas, é melhor que seja ao vapor, a baixas temperaturas.
Pão: Se for pão de trigos antigos, como kamut, espelta ou de trigo de sementes antigas, não é mau. A questão é que muita gente tem problemas com o glúten do trigo, problemas de intolerância, porque, nós seres humanos, refinámos os cereais de tal maneira que já nos causam dano. Por isso, devemos escolher cereais que não tenham sido muito refinados nem muito misturados.
Limão: Muito bom. A única coisa que não fazemos é colocá-lo na salada ou no arroz porque altera o PH da boca, o que inibe a possibilidade de assimilar os polissacarídeos ou os hidratos de carbono.
Vinagre: Igual ao limão.
Sal: O sal é necessário para o corpo, o problema é o excessivo consumo de sódio, que pode causar problemas de saúde.
Mel: É muito bom, melhor do que o açúcar ou que qualquer açúcar.
Alimentos crus: Temos de consumir alimentos crus, porque, ao não estarem transformados nem cozinhados, conservam todo o seu potencial nutritivo. As vitaminas e os antioxidantes costumam ser termolábeis – a temperatura destrói-os. Sem vitaminas e antioxidantes, vamos ter um corpo acidificado e envelhecer mais rapidamente. Também é verdade que há muitas pessoas que não toleram muito os alimentos crus. Quando há uma patologia, claramente, não se pode forçar a pessoa a comer alimentos crus, mas se está bem, há que consumir alimentos crus.
















