Rita Correa e Joana Roquette são o exemplo de quem transformou a crise em oportunidade. Em plena pandemia, lançaram um negócio de comida biológica e saudável, mas o restaurante O FRASCO fechou as portas ainda antes de abrir. Ao invés de desistirem, arregaçaram as mangas e numa ação solidária, ofereceram refeições de qualidade aos médicos e enfermeiros que, nos hospitais, estavam a braços com a Covid-19.
Hoje, quase seis anos depois, o conceito “Grab ‘n’ Go” de comida biológica, fresca, plant-based, sem conservantes, nem aditivos está bem e recomenda-se e as duas sócias prosseguem a sua missão de sensibilização para a importância de as pessoas se alimentarem com qualidade… e sabor.
Integrall: Como é que surgiu a ideia de criar O FRASCO?
Rita Correa: O FRASCO surgiu na pandemia já feito e depois de muito trabalho, quer da Joana e da outra sócia que tínhamos à altura e meu, a desenvolver uma ideia que já vinha de trás. A ideia surgiu dois anos antes, quando eu vi no Museu do Louvre, em Abu Dhabi, num restaurante, pratos que eram servidos em frasco, com um ótimo aspeto e com um ar saudável. Quando lá cheguei, não só apeteceu-me provar como achei que era uma ideia, de facto, fantástica. Como tinha este espaço físico, onde está o restaurante agora, pensei em desenvolver um projeto que passava pela venda de comida saudável em frasco e que permitisse às pessoas terem acesso rápido a comida de qualidade e que promovesse a saúde. Entretanto, a Joana desafiou-me a fazer um curso de saúde na “NOS Escola”, que vai muito além de um curso de cozinha vegan, é um projeto que toca todos os pilares da saúde, para além da alimentação. Trata-se de um curso natural orgânico e saudável, que bastante holístico e que aborda todas as vertentes da saúde, seja espiritual, seja alimentar, seja física.
Integrall: Tiraram esse curso foi cá em Portugal?
Rita Correa: Sim, nós fomos a primeira turma. O curso foi feito com a brasileira, a Anna Elisa de Castro, que tem esta escola no Rio de Janeiro, mas que veio a Portugal, falou connosco e entrámos na primeira turma e desde ficámos com uma rede grande de contactos.
Integrall: Já tinham interesse na temática da saúde e da alimentação saudável?
Joana Roquette: Eu enfermeira durante 35 anos e por isso, sempre tive interesse nesta área da saúde. Além disso, sou diabética tipo um e, portanto, sempre tive uma preocupação e uma consciência profunda da importância da alimentação na nossa saúde e ao longo da sua vida fui testando vários tipos de dietas. Durante um período fui macrobiótica e senti as melhorias diretas da minha alimentação na doença. Aprendei muito, pelos cursos de cozinha macrobiótica que fiz, acerca dos alimentos e da forma de os cozinhar. Este conhecimento e experiência da Joana têm sido muito importantes na conceção dos nossos pratos e produção dos nossos produtos.
Integrall: A Rita Correa vem de que área?
Rita Correa: Eu sou advogada, exerci durante anos e depois saí da advocacia e comecei a desenvolver projetos de reabilitação urbana no Porto. Fui fazendo alguns projetos sempre fora de pé e sempre em planos “B” porque a vida encarrega-se de nos levar por caminhos que não imaginamos, à partida. O meu primeiro projeto de reabilitação ficou pronto quando foi a crise em 2011 e, portanto, de repente, fiquei sem vender um único apartamento. Tinha três prédios e de repente fiquei sem vender um único. Não havia crédito, os bancos não davam crédito, foi uma fase muito difícil e eu acabei por converter os apartamentos em alojamento local.
No fundo, enfim, sou advogada, fiz um MBA, em inglês Master’s in Business Administratio, – curso de pós-graduação focado na Gestão -, aos 40 anos e de repente, perto dos 50, estava a mudar a minha vida para zonas desconhecidas.
Integrall: Como foi o caso de O FRASCO?
Rita Correa: Sim, como foi o caso.
Integrall: É uma pioneira?
Rita Correa: Acho que, se calhar, sou um bocadinho louca, mas vou, destemida. Quando acredito nos projetos vou-me atirando para a corrente e acredito tanto que um dia hei-de saber fazer aquilo.
“O FRASCO é um projeto de saúde e de sensibilização para a importância das nossas escolhas alimentares”

Integrall: O FRASCO surgiu em 2020?
Rita Correa: Surgiu, em 2019, quando estávamos no curso e quando a Joana aceitou o desafio de arregaçar as mangas e levar este projeto para a frente. A Joana e eu encaramos O FRASCO como um projeto de saúde. De sensibilização para a importância das nossas escolhas alimentares e o impacto que têm na nossa saúde. Somos o que comemos, aliado às outras boas decisões de vida que tomemos como o exercício, o sono, etc.
As pessoas alimentam-se mal e tudo o que nós gostaríamos de dar-lhes uma solução rápida para se alimentarem com qualidade. Se, pelo menos, uma vez por semana as pessoas optarem por um frasco cheio de bons nutrientes, em vez de comida ultra-processada, já estaremos a impactar na sua saúde.
Quando tínhamos o projeto já praticamente fechado, optámos por convertê-lo num conceito biológico, que tornou ainda muito mais difícil toda a operação, mas foi porque é uma convicção nossa que, efetivamente, os produtos biológicos são mais saudáveis do que os não biológicos e, portanto, promovem a saúde.
“As pessoas alimentam-se mal e tudo o que nós gostaríamos era de dar-lhes uma solução rápida para se alimentarem com qualidade”
Integrall: Além do curso que fizeram, com quem é que aprenderam?
Rita Correa: Aprendemos com a Julianaa Satie, da School of Natural Cookery, que é uma guru na cozinha natural e que tivemos a sorte de a ter como consultora no arranque do nosso projeto, semanas antes do COVID. Com ela, aprendemos não só as melhores técnicas de cozinhar alimentos como a forma de gerir uma cozinha. Foi uma sorte tê-la tido no arranque do projeto.

Integrall: A comida de O FRASCO é fresca e feita todos os dias?
Joana Roquete: Sim. É tudo feito todos os dias e nenhum produto tem qualquer tipo de conservantes, que lhe prolongue a vida. Há frascos que têm prazos de 48 horas, portanto, com um prazo de prateleira muito curto, o que torna a operação ainda mais difícil, porque temos de ter as coisas frescas e as coisas têm de ser consumidas praticamente de imediato.
Integrall: É tudo biológico?
Joana Roquette: 90% dos nossos produtos são biológicos.
Integrall: É tudo vegetariano?
Joana Roquette: Os pratos são todos vegetarianos, mas não são veganos, porque alguns pratos levam ovos e queijo.

Integrall: Tendo em conta a vossa preocupação com a sustentabilidade, porque é que os frascos não são de vidro?
Rita Correa: Nós tivemos frascos de vidro, mas quando começámos a fazer entregas, por questões de segurança alimentar – o frasco de vidro pode lascar, pode partir -tivemos de recuar para o PET – polietileno tereftalato -, tipo de plástico que é utilizado, principalmente, em recipientes de bebidas e têxteis.
“O nosso propósito é espalhar saúde pela cidade (de Lisboa)”
Integrall: O FRASCO é um conceito de grab and go, tem loja online, um restaurante em Lisboa e parcerias.
Rita Correa: Sim, temos parceria com o Chefs à Mesa e a última que fizemos foi com a loja da Gleba, no Saldanha, em Lisboa – uma pop-up- que, esperemos, venha a crescer, porque isso significa que nós estamos a cumprir aquilo que é o nosso propósito, que é espalhar saúde pela cidade, portanto.
Integrall: Quem é que vos procura?
Rita Correa: Uma coisa que nos surpreendeu, logo desde o princípio, foi a questão do sexo, porque achávamos que era uma coisa mais feminina, mas não. Às vezes, temos a mesa cheia de homens – é muito engraçado – e voltam porque gostam e trazem os amigos.
Além disso, temos muitos estrangeiros, que vêm diretamente do aeroporto, ainda de mala e há muitas pessoas que nos procuram para fazer caterings. O maior que fizemos foi o da Católica Medical School, quando abriu, foi um projeto grande. Faz todo o sentido, no fundo, é alimentar saúde, através da comida de uma escola de medicina.

Integrall: Como é que foi abrir um negócio e, de repente, haver um confinamento?
Rita Correa: Foi difícil. Fechámos antes de abrir.
Integrall: Como é que foi ter esse obstáculo logo no arranque?
Rita Correa: Foi muito complicado, até porque tínhamos as equipas contratadas, um negócio pronto para começa e de repente, o mundo parou.
“(Durante a pandemia), achámos que podíamos distribuir refeições, de forma solidária, junto dos hospitais”
Integrall: Como é que se reinventaram nessa altura?
Rita Correa: Pensámos: “o que é que nós podemos fazer com este negócio que temos em mãos? “Achámos que poderíamos ajudar os enfermeiros e os médicos, que tinham de estar fora de casa – era muito complicado. Então, achámos que podíamos distribuir refeições, de forma solidária, junto dos hospitais, que estivessem a tratar doentes com vírus.
Integrall: Estavam a começar um negócio e ofereceram o vosso trabalho.
Rita Correa: Arranjámos patrocínios e na altura, foram muito importantes. Houve empresas que sabiam do nosso propósito de tentar ajudar as equipas médicas dos hospitais e ajudaram-nos e nós ajudávamos com as nossas pessoas, com os nossos frascos. Acabámos por servir duas mil refeições ao longo do confinamento. Eram 100 frascos por dia.
O confinamento, também, nos permitiu ter o meu filho, José Maria Cardoso, com o curso de cozinha do Le Cordon Blue, a ajudar-nos no arranque da operação solidária, formando a equipa e trazendo profissionalismo – que nós não tínhamos- para a gestão da cozinha.

Integrall: Foi um bom teste?
Rita Correa: Serviu para testar a cozinha, fornecedores, métodos.
Integrall: Encararam a crise como uma oportunidade?
Rita Correa: Uma oportunidade de ver como é que nós podíamos ajudar. Efetivamente, era essa a nossa preocupação, mas, para dentro, foi ótima porque a cozinha passou a ter consistência e começou a ganhar ritmo e mão. Os fornecedores foram sendo escolhidos, nessa altura e, portanto, o confinamento, permitiu-nos fazer toda a seleção de fornecedores e dar formação a toda a equipa. Foi, obviamente, uma escola fantástica para nós.
Integrall: Nunca pensaram baixar os braços quando, de repente, vos fecham as portas ainda antes de abrir?
Rita Correa: Não, nós não pensámos nisso. Aliás, o atual chef de cozinha é dessa altura ainda.
“Nós chegávamos aos hospitais e as pessoas adoravam (…) sabia-lhes bem, de repente, ter uma sopa ou frascos cheios de sabor e saudáveis”
Integrall: Que balanço é que fazem destes quase seis anos de existência?
Rita Correa: Foi um desafio que eu não imaginei como é que ia correr. Nunca se sabe, no princípio, como é que vai correr, mas foi um momento de muita aprendizagem. Numa altura em que estava toda a gente um bocadinho insegura e desconsolada em casa, nós não parávamos. Nós chegávamos aos hospitais e as pessoas adoravam porque o que levávamos era solução alternativa às pizzas. Sabia-lhes bem, de repente, ter uma sopa que sabia a tudo aquilo que o ingrediente era, ter uns frascos cheios de sabor e saudáveis. Portanto, valeu a pena.

Integrall: O balanço é positivo?
Rita Correa: O balanço é positivo, sobretudo, porque continuamos a crescer. Cada vez que compro frasco e – compro muitas vezes -, continuo a achar que é um produto ótimo, que adoro aquilo que estou a comer com imensa vontade. Sei que me faz bem e sei que, de facto, nós podemos levar outras pessoas, que são menos sensíveis ou que são mais críticas dos vegetarianos, dos veganos, a perceber que se pode comer bem desta forma e que é uma forma menos agressiva e melhor para nós.
Integrall: E saborosa.
Rita Correa: Sim, saborosa. Eu acho que o nosso slogan é mesmo: “tem de ter sabor”.
Integrall: Qual é a perspetiva para os próximos cinco anos?
Rita Correa: Continuar a crescer, eu acho que é necessário. Eu diria que se os McDonald´s se convertessem em O FRASCO, seríamos uma sociedade menos doente e muito mais feliz e talvez deva ser esse o nosso objetivo: mudar hábitos e tornar O FRASCO numa oferta alimentar tão procurada como as cadeias de fast food, que não fazem bem à saúde. Queremos ser um fast healthy food tão alargado e procurado como os fast food de má qualidade nutritiva, que invadem as nossas cidades.
Integrall: Expandir por esse país fora faz parte dos vossos planos?
Rita Correa: Primeiro, temos de crescer aqui. Do ponto de vista logístico, o nosso conceito é complicado, porque é obrigado a ter muitos frasco, muitas paletes e muito espaço. Teria de haver um crescimento de O FRASCO, de tal forma, que nos justificasse fazer todo este esforço noutra cidade, como fizemos aqui.
Integrall: Quantas pessoas é que trabalham convosco atualmente?
Rita Correa: Onze, contando connosco.
















