A sua formação de base é em fisioterapia e osteopatia, mas, hoje, assume-se como terapeuta somática integral e facilitadora de desenvolvimento humano.
Profissional de saúde há mais de 20 anos, Joana Cruz percebeu que a área precisava de uma abordagem integrativa.
Cofundadora da equipa “Wisdom of Change”, que procura criar um novo centro de saúde, atualmente, Joana Cruz facilita os programas “Empower Your Life”, integrando ferramentas de desenvolvimento humano, consciência e prática expandidas, destinados a todos, mas, sobretudo, àqueles que, diariamente, se dedicam a cuidar dos outros em unidades de saúde. Com o mesmo objetivo, há quase seis meses, criou as “Nativa Health Sessions”.
Integrall: O que são as Nativa Health Sessions?
Joana Cruz: As Nativas Health Sessions são um projeto, uma tentativa do que seria, a meu ver, um novo centro de saúde, em que, durante um fim de semana por mês, integramos várias práticas. As sessões começam à sexta-feira com um ciclo de canto para a pessoa se expressar, libertar a voz, as tensões. Ao sábado de manhã, há sempre um terapeuta que tirou alguma terapia complementar ou algo diferente do convencional, que traz uma ferramenta para abordar os sintomas de uma forma diferente e da parte da tarde, abrimos espaço para um profissional de saúde – um médico, um enfermeiro, um fisioterapeuta-, que seguiu um rumo convencional e que integrou na sua prática, uma medicina complementar. Nesse espaço, ele fala sobre a sua própria jornada, como é que foi essa integração, como é que é estar numa medicina cada vez mais integrativa, onde aprendem outras coisas e as integram no seu percurso. No sábado à noite, fazemos o visionamento de um filme ou documentário sobre saúde e falamos sobre ele. Os domingos são dedicados a workshops com um profissional que vem partilhar uma sabedoria sua.
Integrall: Porque é que surgiu a necessidade de criar estas sessões?
Joana Cruz: Surgiu muito daquilo que eu tenho vindo a viver na minha vida privada. Nos últimos 10 anos, eu integrei muitas ferramentas na minha prática clínica, como fisioterapeuta, osteopata, gyrotonic trainer, facilitadora de desenvolvimento pessoal e notava que, quando as pessoas vinham para mim, não estavam abertas a toda essa panóplia de ferramentas. Então, esta foi uma necessidade de trazer, para perto de mim, um espaço onde se faz uma integração, de abrir as portas a outro tipo de cultura na saúde, que já é integrativa.
Integrall: O que é que começaste a sentir nos teus pacientes de fisioterapia?
Joana Cruz: Comecei a ver que a prescrição médica, muitas vezes, não se enquadrava naquilo que eu, enquanto terapeuta, estava a seguir no momento – nós temos que seguir uma prescrição – e depois, há o modelo biopsicossocial, que implica ver a pessoa no seu todo – só que não há práticas para lidar com o todo, ou seja, em consulta, temos pouco tempo, é só encher chouriços. Eu tive a sorte de ler um artigo de um fisioterapeuta colega que dizia isso mesmo, não é um exagero da realidade, é o que está a acontecer. De facto, as pessoas acham que é aquele tipo de tratamento que as vai curar, mas, depois, há toda uma dimensão pessoal, social, familiar que não é vista.
Integrall: Onde é que tu foste beber esse conhecimento?
Joana Cruz: Esse conhecimento surgiu do meu percurso natural como profissional de saúde convencional, mas, também, da minha inquietação, das minhas dúvidas e muito através do meu trabalho pessoal, onde conheci ferramentas, que, por si, trazem uma abordagem completamente diferente para a saúde e para o tratamento de sintomas.
“Um processo de cura emocional traz muita coisa que normalmente não é vista numa consulta normal”
Integrall: Uma abordagem integrativa?
Joana Cruz: Sim, integrativa. Eu trabalho muito com a parte emocional, com o ir às causas, não tanto no sentido de ser uma terapia, mas de dar possibilidades à pessoa de se responsabilizar pela sua vida e só isso já é uma mudança total de paradigma, que a ajuda a descobrir-se, a descobrir o porquê de ter certos comportamentos, que são de sabotagem ou que provêm do lado sombra. Muitas vezes, a abordagem é por esse lado de descoberta – não é negar o que está a acontecer-, de ver a pessoa em toda a sua dimensão, física, intelectual, emocional, energética, familiar, geracional. Um processo de cura emocional traz muita coisa que normalmente não é vista numa consulta normal.
Integrall: Começaste a integrar outras práticas na fisioterapia?
Joana Cruz: Não, fisioterapia não. Eu fiz fisioterapia clássica, mas, depois, tirei o curso de osteopatia e aí, já há uma abordagem diferente, já há técnicas diferentes. Os órgãos já se ligam com as emoções. As minhas sessões, neste momento, são metade corpo emocional e metade físico.
Integrall: As tuas sessões de osteopatia?
Joana Cruz: Exatamente. Neste momento, eu nomeio-me como terapeuta somática integral. Tenho a fisioterapia e a osteopatia de base e sou terapeuta somática integral, porque trago estas práticas emocionais para o que for necessário.
“A pessoa é ouvida, é vista, aprende a lidar com o seu corpo emocional porque leva ferramentas para o fazer”
Integrall: A que mudanças já assististe nos teus pacientes depois de adotares a abordagem integrativa?
Joana Cruz: São momentos completamente diferentes. A pessoa é ouvida, é vista, aprende a lidar com o seu corpo emocional e a lidar com os próprios sentimentos, mas isso não é conhecido, nem é dado nas escolas de fisioterapia, de enfermagem, ou de saúde.
Há pouco tempo, fui falar à minha universidade, a Atlântica, num congresso de Saúde Mental, precisamente, com o objetivo de que estas práticas sejam inseridas nos cursos de saúde.
Integrall: Há abertura para isso?
Joana Cruz: Na apresentação ficou toda a gente muito mexida e comovida. Eu senti vontade de colaborarem connosco.
Neste momento, estou, também, a falar com a faculdade de Farmácia, em Lisboa, onde fui fazer uma intervenção sobre Saúde Mental e adoraram. Já no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) existem módulos de empoderamento emocional, obrigatórios para todos os alunos, dentro da licenciatura em Gestão. Isso capacita as pessoas, não só a serem adultos saudáveis, responsáveis por si mesmos, pela a sua própria história, como, também, a lidarem com as pessoas de forma humana e com mais ferramentas.
Integrall: As Nativa Health Sessions são dias de aprendizagem, de autocuidado?
Joana Cruz: Exatamente.
Integrall: São só para profissionais de saúde ou qualquer pessoa pode frequentá-las?
Joana Cruz: Qualquer pessoa pode frequentá-las, mas são muito importantes para profissionais de saúde, porque vão poder inspirar-se noutros profissionais, que estão a fazer este caminho. São sessões perfeitas para estarem, ouvirem, perguntarem.
Integrall: Tu dizes que o caminho das pessoas que trabalham na área da saúde, em hospitais e ou clínicas, é um caminho muito solitário.
Joana Cruz: É bastante. Recentemente, tive uma conversa com uma psiquiatra do hospital de Beja e ela quer levar isto para as equipas de lá. De um luto que a equipa vivenciou – uma colega suicidou-se -, surgiu a necessidade de partilha uns com os outros. Nós somos os últimos a pedir ajuda. Não podemos continuar assim. Somos uma equipa, mas não somos equipa, pois, cada um está por si. Não há um espaço comum de integração daquilo que é o trabalho, do que se faz. Nós fomos chamados para fazermos este trabalho com eles.
Integrall: Quando dizes nós, estás a referir-te a quem?
Joana Cruz: A mim e ao Marco Abreu, com quem estou a criar uma equipa da saúde, ainda em formação. Somos profissionais de saúde que criaram o “Empower Your Life” – um programa vivencial de quatro dias para quem está na linha da frente do cuidado e onde as ferramentas que aprendemos estão todas condensadas.
Integrall: O “Empower Your Life” é só para profissionais de saúde?
Joana Cruz: Não só. Há um formato para todos e há um formato só para profissionais de saúde, que é algo que vai para além das Nativa Health Sessions – é o meu trabalho como facilitadora de desenvolvimento humano.
“Desumanizar. Onde é que já chegámos? É preciso humanizar uma coisa que já é humana?”
Integrall: Se não estivermos bem connosco, não podemos estar bem com os outros, nem servir os outros, como é o caso dos profissionais de saúde?
Joana Cruz: É muito difícil estar íntegro quando nós não estamos bem connosco próprios. É muito mais fácil, se calhar, não cuidar do outro, não responder bem ao outro, desumanizar. Desumanizar. Onde é que já chegámos? É preciso humanizar uma coisa que já é humana? São conceitos completamente assustadores.
Integrall: Consideras que houve um retrocesso?
Joana Cruz: Não sei se houve um retrocesso, mas acho que, antes de uma evolução, há sempre um lado sombra muito grande. Acho que integramos algumas coisas, depois voltamos à sombra, porque é pela sombra que há uma grande oportunidade de transformação.
Integrall: Que conselho darias aos profissionais de saúde, que, neste momento, se debatem com questões consigo próprios?
Joana Cruz: Sejam curiosos e peçam ajuda, porque ninguém nasce com todas as capacidades nem com todas as ferramentas.
















