Presente em cerca de 25 países mundiais, Um Curso em Milagres (UCEM) está finalmente, disponível em Português europeu. Foi traduzido por António Cordeiro e é vendido pela editora Desperto de Luís Peres e Christina Loureiro. Provenientes das mais diversas carreiras, os três deixaram-se percorrer por este caminho, tornando-se facilitadores deste sistema de pensamento espiritual, cuja primeira edição foi escrita há 50 anos por Helen Schucman e William Thetford e que tem como seguidoras personalidades como Oprah Winfrey, Richard Gere, Denzel Washington, Deepack Chopra ou Eckhart Tolle.
Integrall: Por que é que só agora este livro foi traduzido para em Português da Europa?
António Cordeiro: O livro já tinha sido traduzido, há uma série de anos, por uma senhora brasileira e era esse que usávamos em Portugal. Quando eu entrei em contato com “Um Curso em Milagres” – desde 2009 que estudava o livro em Português do Brasil, achei uma pena não poder lê-lo em Português de Portugal, porque era denso e o Português do Brasil tornava ainda mais difícil o alinhamento com os seus conceitos, por isso, coloquei-me à disposição para o traduzir.

Integrall: O António Cordeiro já conhecia a Christina Loureiro e o Luís Peres da editora Desperto?
António Cordeiro: Eles eram os importadores do livro na edição brasileira e mostraram-se muito interessados, desde o primeiro momento, em editar e distribuir a edição em Português europeu.
Integrall: Quando surgiu essa ideia?
António Cordeiro: Em 2017, comecei os primeiros passos para a adaptação, mas foram precisos sete anos para o traduzir para Português europeu. Os últimos cinco/seis anos foram os mais intensos, porque eu pensava que íamos ter o livro pronto, em 2026, mas, ao contrário do que, normalmente, acontece em projetos desta natureza, este antecipou-se para 2025, quando passam 50 anos da primeira edição. Achámos que era engraçado lançar o livro numa data tão significativa.
“UCEM é um estudo trabalha ao nível do inconsciente (…) o leitor tem de se preparar para algo muito profundo”
Integrall: O livro UCEM foi lançado em Português da Europa em setembro e já é um dos livros mais procurados na editora Desperto. Qual é o feedback que vocês têm dos leitores?
Christina Loureiro: Há pessoas que compram o livro e ele fica na estante a aguardar uma motivação, uma inspiração para o ler, porque a linguagem dele é profunda, não é um tipo de leitura que se faça para descomprimir um bocadinho. É um estudo que vai trabalhar ao nível da mente, do inconsciente – o leitor tem de se preparar para algo muito profundo. Então, há pessoas que o usam como oráculo: de vez em abrem-no, leem uma página e sentem-se inspiradas. Há outras que começam pelo livro de exercícios porque tem uma linguagem um pouco mais fácil e prático. Há outras, como nós, para quem este é um livro de referência, é a nossa bóia de salvação.

Integrall: São 1470 páginas que ensinam a paz interior?
Luís Peres: Há, apenas, três fases curtas que dizem o que UCEM é: nada irreal existe, nada real pode ser ameaçado e aí está a paz de Deus, só que, para explicá-las, são precisas 1470 páginas, pois o livro tem ideias muito radicais que nós, pessoas comuns, não estamos habituadas a ouvir – explica porque é que revolucionários espirituais, como Jesus ou Gandhi, foram mortos. Foi porque trouxeram ideias que as pessoas não queriam aceitar.
Este livro defende, também, por exemplo, que o ataque não existe.
Integrall: Quando o livro refere que o ataque não existe é no sentido em que não é o outro que o ataca, é o Luís que se sentes atacado?
Luís Peres: É mais do que isso. O ataque existe pela física, mas se pensarmos na mente ou no pensamento, eles não têm forma, são como o vento – é impossível alguém poder alcançar a minha mente. Ainda assim, quando alguém me diz algo, eu posso sentir-me atacado porque é essa a minha perceção – e o livro vai explicando isso ao longo de 1470 páginas.
Integrall: Este livro é um livro de inspiração cristã?
Luís Peres: É mais do que isso, é como se o próprio Jesus estivesse a falar com o leitor.
Integrall: São ensinamentos espirituais?
Christina Loureiro: Sim, este é o único livro que explica o que é que eu sou e o que é que estamos cá a fazer. Não há nenhum ensinamento que o explique – nascemos, somos crianças inocentes, queremos que o mundo funcione e queremos salvá-lo, mas ninguém nos explica como são as regras. Este é o livro a que, nós facilitadores, chamamos livro das soluções, porque ele explica como é que tudo funciona e quem quer, vai saber porquê.
Há um ponto muito importante em UCEM que é: nós tomamos uma decisão, quando queremos e quando a tomamos, é ela que faz acontecer tudo, ou seja, o poder de Deus, do universo ou do amor, vem através das nossas decisões.
“Se queremos relacionar-nos bem, o perdão é a chave”
Integrall: Segundo o livro, o que que é que estamos cá a fazer?
Luís Peres: Tudo na vida são relacionamentos e por isso, estamos cá para perdoar. Parece que não é nada muito especial, mas quando começamos a pensar que tudo são relacionamentos, o perdão assume um papel fundamental, porque se queremos relacionar-nos bem, o perdão é a chave.
Integrall: É difícil perdoar?
Luís Peres: O perdão ou o amor de que fala curso não são os do mundo normal. UCEM fala do perdão de nós próprios e esse processo não é rápido – temos de desaprender muita coisa para conseguir aprender e aplicar o perdão.
Integrall: O que é que é preciso desaprender para aprender a perdoar?
Christina Loureiro: É preciso mudarmos a nossa perceção, são precisos milagres, portanto, o perdão e o milagre andam juntos.
“Se o nosso estado interno através do perdão for de paz completa, não precisamos que mais nada mude”

Integrall: O perdão está ligado à paz?
Luís Peres: Exatamente. Ficamos em paz quando conseguimos perdoar e isso não tem a ver com mudar as circunstâncias externas – elas podem continuar exatamente iguais-, só que, se o nosso estado interno através do perdão for de paz completa, então, não precisamos que mais nada mude.
Integrall: O livro fala apenas em perdoar-nos a nós próprios ou também em perdoar os outros?
Christina Loureiro: As duas coisas, mas vai mais além. UCEM diz que não existe ninguém lá fora. Não existe uma Sandra, existe uma projeção minha de um pensamento equivocado e se eu tiver alguma coisa contra si, ela é-me devolvida através de si. Então, o perdão é sempre o perdão a nós mesmos – começamos com o perdão ao que está fora de nós e depois, perdoamo-nos a nós e é nessa altura que percebemos que, afinal, não havia nada para ser perdoado e quando chegamos a esse ponto, é a paz total O curso está sempre uma oitava acima de todos os conceitos que temos.
“Onde está o amor não pode estar o medo”
Integrall: Como é que uma pessoa sabe se está a tomar a decisão correta, à luz de Um Curso em Milagres?
Luís Peres: De uma forma prática. Quando uma pessoa toma uma decisão, ela vai trazer consequências ou efeitos. Se estiver calma e em paz no coração, quer dizer que essa foi a decisão certa – uma boa decisão serve para unir; é uma decisão em que todos ganham. Se for uma decisão que traga separação, é uma decisão em que entra o medo e nesse caso, não é a correta.
Integrall: Quando entra o medo não entra o amor?
Christina Loureiro: É isso mesmo. O curso é muito específico a esse respeito; onde está o amor, não pode estar o medo.
“Este é um curso para nos recordar quem somos”
Integrall: UCEM tem um ensinamento prático para cada dia do ano?
Luís Peres: Exatamente, são 365 lições. Para além da paz, este é um livro para ajudar a remover os bloqueios à consciência plena da presença do amor – fala da questão dos relacionamentos do processo de cura, do ego, ou seja, é um ensinamento espiritual que diz que já somos completos, perfeitos, puro amor. Este é um curso para nos recordar quem somos.
Integrall: UCEM é composto por três volumes distintos. Em que é que consiste cada um deles?
Luís Peres: Há um livro de texto, que ensina a teoria, há um manual de professores que explica como deve ser um professor exemplar, quais as características dos professores de Deus e que traz, também, as perguntas mais frequentes dos alunos em relação ao curso e depois, existem as tais 365 lições, uma por cada dia do ano. No entanto, uma lição pode demorar mais do que um dia, porque o objetivo do livro é que curemos a mente, que a vamos treinando e perdendo certas crenças – as lições vão desfazendo todas as crenças equivocadas que nos trazem sofrimento, permitindo-nos uma mente disciplinada e em paz a todo o momento. Foi exatamente isso que Jesus fez quando, naquela altura, foi capturado, espancado, e crucificado – passou por tudo sem perder a paz. Como foi possível? Como é possível? O livro explica isso e o que é impressionante é termos celebridades a dizerem que foram tocadas por e ele e essa é também, a nossa própria experiência. Mas, para mim, o mais importante, é que quanto mais tenho e mais nutrido estou, mais posso oferecer aos outros – nós damos o que somos.
Além dos três volumes, existem os suplementos, um dos quais sobre psicoterapia. Chegam até nós muitos terapeutas, muitos facilitadores, psicólogos e para todos, mas especificamente para eles, essa parte é um bom complemento para as suas profissões.
Há um outro suplemento, a canção de oração, que fala muito do processo de cura e de perdão.
Integrall: Muitas personalidades internacionais, como Oprah Winfrey, Richard Gere, Denzel Washington, Deepack Chopra, Eckhart Tolle foram ou são alunas de UCEM?
Luís Peres: Eckhart Tolle é uma das personalidades que mais usam citações de UCEM, aliás, no seu best-seller, “O Poder do Agora”, menciona-o várias vezes e refere-o como um dos livros que o ajudou bastante.
“É inevitável chegarmos à nossa verdadeira essência”
Integrall: Porque é que se chama Um Curso em Milagres?
Christina Loureiro: É como um curso de água, um caminho, é como um rio que vai desaguar ao mar. O curso admite que existem vários caminhos de chegada. É inevitável chegarmos à nossa verdadeira essência, ou seja, ao céu – é inevitável, mas podem existir vários caminhos, vários cursos para lá chegar. O caminho que é ensinado é a praticar o milagre, ou seja, a praticar uma mudança de perceção do medo para amor. O curso fala na divisão da mente, que se identifica com o medo, o ego, da mente que se identifica com o amor e que é o espírito santo, porque é um espírito inocente, perfeito. Temos esta consciência do espírito, mas ainda o vemos como algo individual, apesar dele nunca se ter separado da fonte.
Integrall: Para além do livro, existem vários grupos de estudo em Portugal. São online ou presenciais?
Luís Peres: São maioritariamente online, mas pode haver alguns encontros presenciais.
“É um livro onde se ensina o amor, porque é isso que somos”
Integrall: Tanto o livro como as informações sobre os grupos de estudo estão disponíveis no vosso site?
Christina Loureiro: Sim, em: lojadesperto.pt
Integrall: Quanto custa o livro?
Luís Peres: O livro custa 56 euros.
Integrall: Uma mensagem para quem nunca leu UCEM?
Luís Peres: O que eu gosto mais de dizer é que, para quem quiser ser livre, este livro é poderoso – é um livro onde se ensina o amor, porque é isso que somos.
António Cordeiro garante que são possíveis milagres (quase) todos os dias
Após traduzir “Um Curso em Milagres” (UCEM) para Português de Portugal, António Cordeiro lançou “Milagres (quase) todos os dias”, que é possível comprar em lojadesperto.pt. O UCEM é a base com que trabalha, embora a inspiração lhe tenha vindo de um relacionamento. Na altura, a minha companheira disse-me que nós, como alunos e praticantes de UCEM, estávamos com a relação em looping, que havia qualquer coisa que não funcionava e que era melhor pararmos. Achei que aquilo me fazia sentido, mas não tinha noção da perturbação que me causava e foi isso que originou a obra”. O autor garante, contudo, que o livro “não foi pensado nem planeado”, mas que surgiu de uma “inspiração repentina – ficou desenhado em quatro dias”.
Sobre o facto de o seu relacionamento estar em looping, António Cordeiro explica que a sua companheira “sentia que não estavam a aplicar, na prática, os ensinamentos de UCEM”. Por isso, acrescenta: “o livro é fundamentalmente sobre relacionamentos e relações, por exemplo, sobre a relação com o dinheiro e com o trabalho, sobre relacionamentos de casal, familiares, de amigos, em organizações, em comunidades”.
No fundo, é “um guia prático de apoio à vida do dia a dia, cujo objetivo é curar a mente.”
Mas, afinal, porque é que a obra fala de “milagres”? António Cordeiro explica que os “milagres são uma alteração de perceção, em que se passa do medo para um sistema de pensamento amoroso. Quando o integramos na nossa mente, isso é um milagre. Os milagres são naturais, acontecem normalmente. Se não estão a acontecer, algo estranho se passa, porque a verdade é que é possível ter milagres quase todos os dias. No caso dos relacionamentos, não se trata de as duas pessoas estarem alinhadas, mas de terem outra visão da relação – ambas têm que estar abertas a milagres”, conclui.
















