Com uma vida estruturada no Brasil, Fátima Ponte não resistiu ao apelo de vir disseminar o trabalho de Carl Gustav Jung para Portugal. Uma viagem a Lisboa, que era para ser de três meses, tornou-se no seu destino.
Atualmente, a psicoterapeuta junguiana vive na capital portuguesa, onde faz atendimentos, dá formações em psicologia junguiana e acaba de lançar o livro “Tempo de Travessia”, das edições Mahatma. Uma obra sobre a sua a própria travessia e a de todos aqueles que se “dispõem a procurar o sentido da vida”. A apresentação esteve a cargo de um grupo de amigos e estudiosos de Jung, entre eles, o conselheiro astrológico, Nuno Michaels e o terapeuta transpessoal e constelador, Joaquim Parra Marujo, o arauto da mudança da autora para terras lusas.
Integrall: Qual é a sua formação de base?
Fátima Ponte: A minha primeira formação de base é em Educação Física e Desporto, só depois é que fui para Psicologia, na Universidade de São Paulo e na Pontifícia Universidade Católica, onde fiz um mestrado em Psicopedagogia e onde estudei a Psicologia Analítica.
Integrall: Carl Jung é estudado nas universidades brasileiras?
Fátima Ponte: Muito mais do que aqui, em Portugal. Apesar de não termos nenhuma formação, no Brasil, em psicologia analítica – a base é sempre freudiana -, temos muitas disciplinas, muitos semestres que envolvem o estudo de Carl Gustav Jung, inclusive em faculdades fora da Psicologia.
Integrall: Em que faculdades, por exemplo?
Fátima Ponte: Por exemplo, a minha filha estudou Design e teve um semestre inteiro sobre Jung.
Integrall: Porque é que no curso de Design se ensina Jung?
Fátima Ponte: Porque o Jung trabalha muito com a questão das imagens da criação e a parte criativa está totalmente ligada ao inconsciente. Então, as artes estão muito envolvidas.
“Quanto mais se entrar na Psicologia Analítica, mais as pessoas começam a ter um olhar diferente em relação ao Jung”
Integrall: Em Portugal, Jung não é muito estudado nas universidades…
Fátima Ponte: Não é muito estudado e às vezes, não é sequer bem visto. Não entendo porquê. Aliás, não entendo o porquê, de aqui, a visão da psicologia ser ainda muito voltada para o comportamental ou para um lado espiritual, mais cor-de-rosa. Essa visão anda muito pelas polaridades tanto no social como no comportamental ou, então, foge para uma espiritualidade, que não é enraizada, que não tem os pés no chão. Então, em Portugal, as pessoas podem ver ainda o Jung como um desconhecido ou místico – quando não conhecemos algo, temos medo. O Jung é, de facto, pouco conhecido, mas eu acredito que quanto mais se entrar na Psicologia Analítica, mais as pessoas começam a ter um olhar diferente em relação ao Jung. Foi assim que funcionou, por exemplo, no Brasil.
Integrall: Quando a Fátima terminou o mestrado, começou logo a dedicar-se ao ensino da psicologia junguiana?
Fátima Ponte: Na verdade quando eu estava na faculdade, já trabalhava com a parte de terapia corporal, já fazia alguns atendimentos em terapia. Então, quando terminei o mestrado, eu já trabalhava em clínica e tinha pequenos grupos com quem trabalhava os contos. Paralelamente, trabalhava com constelações e as pessoas começaram a pedir-me um pouco mais do Jung. Como em São Paulo há muita abertura, comecei a dar cursos, palestras, pequenos seminários e grupos de sonhos, o que também funcionou muito bem.

Integrall: Há 30 anos que se dedica ao estudo, atendimentos individuais e ao aprofundamento simbólico com o Jung.
Fátima Ponte: Sim.
“O Jung é um divisor de águas na minha vida porque ele entrou através da minha psicoterapia pessoal”
Integral: O que o que é que os ensinamentos de Jung lhe trouxeram de diferente para a sua prática clínica?
Fátima Ponte: O Jung é um divisor de águas na minha vida porque ele entrou através da minha psicoterapia pessoal. Numa altura em que precisava fazer uma transição na minha vida, fui para a psicoterapia junguiana e aí surgiu a ideia de ir para Psicologia Analítica. A Psicologia Analítica faz uma modificação na minha vida e quando vou para a prática clínica, o meu trabalho acaba por ser com Jung. Ele permeia aquele lugar aonde conseguimos ir além da superfície, aonde conseguimos ir à causa e não ficar pelo sintoma: acho que essa é a grande diferença da psicologia profunda na clínica.
Integrall: Foi o trabalho com o simbólico que mudou a sua prática?
Fátima Ponte: A prática clínica é simbólica e faz parte do tipo de terapia com que trabalho o tempo todo.
“O que muda (com Jung) é que vamos à causa, não ficamos no sintoma”
Integrall: Em que que é que o trabalho com o simbólico mudou a vida dos seus pacientes?
Fátima Ponte: Quando comecei com os atendimentos, comecei logo com linha junguiana, porque eu já tinha feito terapia e foi ela que que me chamou a atenção.
O que muda é que vamos à causa, não ficamos pelo sintoma. Então, quando as pessoas começam a ir às causas, começam a perceber que tudo faz parte delas e que a culpa não é do outro, a vida está o tempo todo a trazer-nos mensagens, pelos símbolos, pelos sonhos, pelas sincronicidades. No início, estranham mas quando entram e percebem que o símbolo fala, começam a ter uma visão completamente diferente daquele lugar mais infantil, percebem que a vida está aqui para nos ensinar alguma coisa e os desafios estão aí – não é só para culpar Deus – para ver que têm para nós. Então, quando começa essa virada, dentro da clínica, é muito bonito porque a pessoa amadurece – dizemos que entrou em processo terapêutico.

Integrall: Na apresentação do seu livro, a Fátima disse que o Joaquim Parra Marujo foi o arauto da sua vinda para Portugal. Quando é que decidiu cruzar o Atlântico e mudar-se para Portugal?
Fátima Ponte: Eu comecei por vir fazer uma viagem e como eu constelava, uma amiga minha disse-me que eu tinha de conhecer o melhor em constelações, que era o Parra Marujo. Fui constelar e nessa constelação, ele perguntou-me o que é que eu fazia. Eu respondi que era junguiana e foi quando ele me disse que eu tinha de trazer o Jung para cá. Entretanto, voltei para o Brasil, continuei a trabalhar na clínica, a dar formações, mas fiquei com aquelas palavras do Joaquim na cabeça e decidi tentar. Foi nesse momento que decidi vir por três meses para dar um curso.
Integrall: Isso foi há quanto tempo?
Fátima Ponte: Foi em 2018.
Integrall: Mas não ficou só três meses…
Fátima Ponte: Assim que cheguei percebi que o caminho era este. Ainda fiz algumas viagens para o Brasil porque tinha coisas lá, mas após a pandemia já tinha praticamente tudo cá.

Integrall: Na apresentação do seu livro disse que: “a travessia às vezes não é fácil mas quando damos por ela, ela já lá está”. Foi o que lhe aconteceu quando decidiu largar a sua vida estruturada no Brasil e começar uma nova em Portugal?
Fátima Ponte: O caminho é como se pegássemos uma onda e vamos: somos levados, carregados. Quando vamos a ver, aconteceu. Quando entramos no nosso caminho temos essa sensação. Somos levados.
Integrall: Esta travessia traz um encontro com a alma?
Fátima Ponte: No meu caso, esta travessia mostrou o sentido da minha vida. O Jung já era, mas faltava o lugar onde, pelo menos, naquele momento, eu deveria estar.
Integrall: Faltava fazer a ponte do Jung para Portugal?
Fátima Ponte: Aqui, em Portugal as coisas fluíram de uma forma tão bonita, de uma forma tão fácil que eu percebi que, de facto, o caminho era por aqui.
Integrall: Atualmente a Fátima dá uma formação introdutória em psicologia junguiana, em Lisboa, aberta a profissionais de saúde, de educação e ao público, em geral e acaba de lançar o livro “Tempo de Travessia” cuja ideia surgiu num desses cursos…
Fátima Ponte: Além do curso introdutório, eu vou fazendo aprofundamentos, onde trabalho a parte clínica. Nesse trabalho, há um grupo de supervisão – psicólogos e terapeutas -, que se reúne para discutir casos. Numa dessas formações, fizemos um trabalho sobre emoções e cada vez que eu fazia os relatórios, dizia: “que interessante, isto aqui dava um belo livro e foi aí que surgiu a ideia”.
Integrall: Este é um livro de amor, de processos pessoais e que envolve uma travessia: a sua.
Fátima Ponte: Na verdade, é uma travessia a que chamamos de herói solar. Quando nós, o herói, nos dispomos a procurar o sentido de vida, acabamos por fazer essa travessia também, porque ela é arquetípica, funciona dessa forma. Para mim , funcionou dentro desse molde, mas sempre que alguém faz uma travessia, seja o fim de um relacionamento, seja uma transição profissional, qualquer movimento de mudança, uma transformação, acaba por passar por essa travessia.
“Eu não diria que o livro vai chamar para a travessia, eu diria que quem está em processo de travessia acaba por lê-lo”
Integrall: A quem é que se destina este livro?
Fátima Ponte: A todos que queiram conhecer-se a si mesmos um pouco melhor, mas não é muito consciente. É um chamado inconsciente. Então, como as coisas são síncronas, muitas vezes, pegamos numa leitura e percebemo-lo. Eu não diria que o livro vai chamar para a travessia, eu diria que, quem está em processo de travessia, acaba por lê-lo e por perceber que esse movimento já está a ser feito.
Integrall: A pessoa acaba por se cruzar com o livro de alguma forma…
Fátima Ponte: Acaba com o livro na mão.
“Quando as pessoas começam a aprofundar, a mexer nas sombras, nas dores, algumas não aguentam e saem”
Integrall: É preciso coragem para olhar para dentro?
Fátima Ponte: Muita, muita. Eu vejo isso na clínica: quando as pessoas começam a aprofundar, a mexer nas sombras, nas dores, algumas não aguentam e saem. Outras voltam, mas, efetivamente, não é fácil entrar em contato com as nossas dores, com as nossas emoções.
Integrall: Parra Marujo dizia na apresentação do livro que ele “obriga a uma mudança de perspetiva e que a partir do momento em que as pessoas o lerem, nunca mais vão ter a mesma vida”. Porquê?
Fátima Ponte: Quem for tocado pelo livro, vai perceber que as emoções têm uma função: servem para o nosso crescimento e então, elas mudam a nossa perspetiva. Como eu dizia, as pessoas percebem que a questão não está no outro, está em si mesmas. Muda muito quando se deixa de ter a perspetiva do outro como culpado.
Integrall: O Parra Marujo disse também que, neste livro, as pessoas vão encontrar o resgate da sua criança interior.
Fátima Ponte: Inevitavelmente, porque quando tocamos e suportamos rever as nossas emoções, às vezes, não percebemos que vamos pegar na nossa criança, que está magoada e cuidar dela, porque cuidar, resgatar a criança não é colocá-la no colo, é ir revisitar as emoções juntamente com ela e passar por essas emoções, mas agora com uma visão adulta e madura.
“Quando as pessoas fazem movimentos internos, o mundo externo acaba por fazer-lhes convites diferentes”
Integrall: Nas suas consultas, além da sombra, a Fátima trabalha temas como os traumas complexos, os sonhos, o inconsciente pessoal e coletivo. A que mudanças tem assistido na vida das pessoas que aceitam mergulhar dentro de si mesmas?
Fátima Ponte: Cada um é cada um, mas eu vejo isso de uma forma muito bela. As pessoas, às vezes, vêm cuidar de uma relação afetiva e ou mudam a sua visão dentro da relação ou acabam por se separar. Pode também acontecer uma pessoa não estar numa relação e ao adquirir uma nova visão, acaba por surgir uma nova relação na sua vida.
Quando as pessoas fazem movimentos internos, o mundo externo acaba por fazer-lhes convites diferentes. Então, o que é que eu vejo? Eu vejo as pessoas a autoconhecerem-se, a amadurecem, passando para um novo nível de consciência e o seu mundo externo a favorecer-lhes novos encontros, novos trabalhos, novos caminhos.

Integrall: Quando o aluno está preparado o mestre aparece.
Fátima Ponte: Pois é.
Integrall: Nuno Michaels dizia, na sua apresentação do seu livro, que a Fátima “torna-se numa guardiã de travessias, acompanha-nos quando atravessamos noites intensas e ajuda-nos a distinguir trauma de destino”. Esta distinção não é fácil de fazer?
Fátima Ponte: O processo, em si, requer uma visão externa. O nosso trabalho é ajudar a ampliar essa visão de consciência: a pessoa mergulha em si e nós damos-lhe a mão para que sustente esse processo de busca, de ansiedade, de angústia, mas é ela que, por si, vai descobrir o seu sentido de vida.
Eu costumo brincar com os meus pacientes, dizendo-lhes que vamos colocar o snorkel -tubo respiratório -, mergulhar um pouco e que depois, eu lhes dou o oxigénio. Depois daquele momento da noite escura da alma, está ali alguém que lhes dá a mão. É como se fosse um fio que leva o ar para que o paciente respire nos momentos mais duros, mais complicados e lhe traga também – o que é muito importante – uma visão da luz que não sabe que tem.
“O mais importante é a conversa entre os inconscientes, que acontece no espaço terapêutico”
Integrall: Catarina Lourenço disse, na apresentação, que a leitura deste livro “foi como revisitar emoções” e aconselhou a fazer os exercícios propostos com entrega. Este é, de facto, um livro muito prático?
Fátima Ponte: Quando trabalhamos na psicologia simbólica junguiana, a dialética é muito importante, mas o mais importante é a conversa entre os inconscientes, que acontece no espaço terapêutico. Para que o inconsciente envie mensagens e para que fale, dentro desse espaço, é muito importante que trabalhemos com imagens. Então, as imagens que o paciente faz, trazem o símbolo que precisamos para perceber a mensagem do inconsciente. Assim, quando trabalhamos com o que chamamos de objeto transacional, quando trabalhamos com algo que intermedia a conversa, o inconsciente tem mais facilidade de ultrapassar as resistências do ego e trazer a mensagem que precisa. Por exemplo, nós dizemos que os sonhos são o carro-chefe porque os sonhos não mentem – trazem as mensagens -, os sonhos são importantes porque se não se compreendeu o sonho, ele acaba por ir ficando cada vez mais claro. É muito bonito de ver. Quando temos um processo na vida e não o percebemos, a vida é mais dura, bate com mais força. Eu gosto desse lugar do sonho, porque ele vai deixando a mensagem cada vez mais clara e a vida vai ficando mais dura para entendermos a mensagem.
Integrall: Este livro tem exercícios variados desde reflexões a arteterapia. É uma espécie de “faça você mesmo”?
Fátima Ponte: Sim, porque é um processo que, na verdade, somos nós mesmos que temos de fazer, orientados por alguém. Quem faz o processo somos nós, ninguém o faz por nós. Então, esses exercícios, quando feitos com consciência, com concentração, com busca, podem trazer insights – entendimento -, a possibilidade de a pessoa entrar em contato com as suas emoções.
Integrall: Uma pessoa que não esteja muito por dentro desta linguagem, consegue perceber a mensagem que resulta dos exercícios?
Fátima Ponte: Depende do grau de consciência que a pessoa tem de si mesma, porque se faz aquele exercício buscando respostas rápidas, que seriam baseadas numa psicologia mais superficial, pode até ser que venha alguma mensagem – o inconsciente não a nega -, mas quanto mais a pessoa está voltada para o seu processo, maior a probabilidade de ter respostas através das emoções, que surgem com os desenhos ou das lembranças que surgem com a arte, mas depende muito da consciência de cada um.
Integrall: De qualquer forma, este livro não substitui uma sessão com profissional para quem queira fazer um processo interior?
Fátima Ponte: Não, não substitui. O profissional pode ser um veículo de recursos para que a pessoa ganhe consciência de determinadas histórias suas que precisam ser trabalhadas. Eu acho, inclusive, que pode ser também um direcionamento para ter o interesse de uma busca interna e de um processo pessoal.
Integrall: Um conselho para quem tem medo de mergulhar no seu interior e revisitar as suas feridas?
Fátima Ponte: A primeira coisa que eu digo é: vontade de encontrar o seu caminho e vontade de encontrar um estado de paz, tranquilidade e alegria de viver, porque se quem quer essa paz e essa alegria, tem de encontrar o seu caminho.
“O caminho está sempre disponível (…) problema é que as nossas escolhas, muitas vezes, não permitem que o encontremos”
Integrall: Acredita que toda a gente encontra o seu caminho?
Fátima Ponte: Não. Não sabemos porquê, mas algumas pessoas têm resiliência de ir em busca do caminho.
Integrall: As pessoas encontram o caminho ou é o caminho que se deixa encontrar?
Fátima Ponte: O caminho está sempre disponível. O problema é que as nossas escolhas, muitas vezes, não permitem que o encontremos. Podemos passar uma vida inteira sem saber se estivemos no caminho certo e muitas vezes, estamos, saímos e voltamos. Acho que, no caminho, nós estamos sempre. O problema é que o bloqueamos, desviamo-nos dele, mas o caminho está sempre a chamar.

















