Leonor Malik, licenciada em Filologia Germânica e doutorada em Ciências de Educação, conheceu a Antroposofia e a Pedagogia Waldorf nos anos 80.
Cansada do ensino regular onde era professora, fez uma sabática e mais tarde, decidiu trazer para Portugal este método de ensino, nascido na Europa durante a Revolução Industrial.
Há quase 30 anos, fundou a HARPA, no concelho de Vila Franca de Xira, onde construiu a Escola do Jardim do Monte e onde tem cultivado, ano após ano, a relação entre os princípios da Biodinâmica e os fundamentos da Pedagogia Waldorf.
Integrall: O que é a pedagogia Waldorf?
Leonor Malik: A pedagogia Waldorf, para já, fez 100 anos em 2019, não é nada de novo. As pessoas pensam que é uma coisa muito inovadora: é realmente uma pedagogia de futuro, mas que nasceu há 100 anos. Na altura, o que acontecia na Europa era a euforia da Revolução Industrial e pensava-se que, com a imagem da máquina a vapor em fundo – um espaço vazio onde quanto mais se metia carvão, mais andava – a criança, também, nascia com um espaço vazio. Nesse sentido, um dos grandes pedagogos do século XIX, John Locke, dizia que a criança era uma tábua rasa e tinha de se meter lá para dentro tudo e mais alguma coisa para ela ser feliz.
Mais tarde, todos os pedagogos do início do século XX, nomeadamente, Rudolf Steiner, Pestalozzi, Montesori, que nasceram mais ou menos ao mesmo tempo, na Europa central, tentaram resgatar as pedagogias humanísticas, ou seja, o que é o ser humano e ele não é uma tábua rasa. O ser humano – começo já a fazer uma relação com a parte agrícola -, quando nasce, é pequenino, frágil, amoroso, dá vontade de lhe dar beijinhos, mas, na verdade, ele é uma semente que pode transformar-se num grande carvalho. Está tudo dentro dessa semente, por mais pequenina que seja. Portanto, não temos de meter absolutamente nada lá dentro. Temos é, essencialmente, que respeitar o que está à nossa frente, que é um ser humano em potência e temos de tentar aprender a ler – e somos extremamente analfabetos nisso -, quem são as pessoas verdadeiramente, não na sua exterioridade, mas na sua interioridade. Esse é o grande desafio dos professores e dos educadores Waldorf: desenvolver, através das formações e do trabalho interior, a capacidade de perceber o que está dentro daquela semente para poder dar-lhe as condições exteriores – as mais importantes são a física e as humanas -, para que, realmente, o terreno venha a dar o carvalho, se for esse o caso. Este é o grande fundamento da pedagogia Waldorf: compreender que o ser humano nasce completo, menos a exterioridade e fisicalidade – porque ele tem tudo o que precisa dentro de si. É preciso olhar-se para o ser humano como alguém que, fisicamente, ainda vai desenvolver-se, vai modificar-se completamente, mas que, interiormente, traz as suas capacidades anímicas para poder relacionar-se com o mundo e traz a sua essência espiritual. Se começarmos a fazer perguntas sobre tudo o que existe, começamos a perceber que a sua origem não é física, material, sensorial. Só uma pessoa sem a mínima sensibilidade, é que, se olhar o mundo, pode chegar à conclusão de que ele é o que vê e nada mais. Não. Então, chegamos à conclusão de que a base do ser humano, a base de tudo o que existe na terra, o fundamento é de origem espiritual. Não é sensorial. Torna-se sensorial para que eu possa aprender e trabalhar com ele.
“O grande desafio dos educadores Waldorf é perceber o que está dentro daquela semente (ser humano) para lhe dar as condições exteriores para que o terreno da semente venha a dar o carvalho, se for preciso.”
Integrall: Antes de tomar conhecimento da pedagogia Waldorf, a Leonor Malik era professora do ensino secundário?
Leonor Malik: Sim.
Integrall: Quando fez a transição?
Leonor Malik: Nos anos 80.
Eu fui professora do ensino secundário durante bastantes anos, mas comecei a desgostar de muita coisa que se passava – os sistemas de ensino continuaram todos o caminho da Revolução Industrial – isto é, a encher de informação, até mais não, as crianças e jovens. Isso começou a não ter o mínimo sentido para mim. Um belo dia, resolvi tirar uma licença sem vencimento para me afastar um pouco da escola e reflectir sobre a minha vida relativamente à profissão e aí, veio parar-me às mãos um número da revista alemã Der Spiegel e que tinha o seguinte título: “Pedagogia Waldorf: onde a música é tão importante como a matemática”. Foi aí que eu disse: “a música é tão importante como a matemática? Esta escola deve ser interessante”. Nunca na vida tinha ouvido falar em Waldorf. Passados seis meses, eu estava na Alemanha a fazer um seminário de formação para ver o que era e aquilo foi a abertura para algo que não era a escola onde eu estava; eu não concordava com o que se passava. A partir daí, percebi que aquela é que era a forma de trabalhar com as crianças e com os jovens e comprometi-me, nessa altura, já com 42 anos, com esse método de ensino. Não me comprometi a ser professora Waldorf porque um professor Waldorf deve começar com as crianças pequeninas e acompanhá-las, segui-las, mas, comprometi-me a abrir uma escola dessas em Portugal e foi o que aconteceu: juntamente com outras pessoas, introduzi o ensino Waldorf, em Portugal.
“Os sistemas de ensino continuaram todos o caminho da Revolução Industrial: encher até mais não as crianças e jovens de informação. Isso começou a não ter o mínimo sentido para mim.”
Integrall: Foi pioneira em Portugal?
Leonor Malik: Sem dúvida alguma. Não sozinha, porque ninguém faz nada sozinho, mas fui, sem dúvida, pioneira da pedagogia Waldorf em Portugal.
Integrall: Em que ano é que abriu essa escola em Portugal?
Leonor Malik: Nós começámos por dar formação a professores nas escolas do Estado, há muito tempo e fizemo-lo durante 15 anos, com um projecto de formação que estava inserido na formação contínua de professores em Portugal, ou seja, era acreditado. Trabalhámos com a pedagogia Waldorf nas escolas oficiais, desde o 1º ciclo até ao ensino secundário. Foi sempre aceite e autorizado, não só pelo ministério da Educação como pelo Conselho Científico da Formação Contínua de Professores. Só quando isso se tornou extremamente difícil, no primeiro governo de (José) Sócrates, com a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues –, é que pensámos em fundar a Harpa, em 1999, para continuarmos a formação. Ao fim de três anos, as pessoas que vinham fazer formação connosco, pediram-nos para arranjarmos um jardim de infância Waldorf para os filhos delas, porque não lhes fazia sentido as mães trabalharem numa área que lhes abria outros horizontes para a educação e terem os filhos em jardins de infância oficiais. Foi assim que, em 2004, abrimos também um jardim de infância Waldorf e quando as crianças desse jardim chegaram à idade escolar, continuámos com a escola e por aí fomos. No entanto, a escola só foi autorizada e inaugurada oficialmente, em 2011, já com o edifício pronto, de acordo com as regras do ministério.
Integrall: Foi um longo caminho até aqui?
Leonor Malik: Foi o caminho de uma vida.
“Se o ser humano não conseguir crescer em condições que lhe permitam poder escolher o seu caminho, tomar as suas decisões, poder intervir como pensa que deve ser, é uma vida falhada.”
Integrall: Que visão é esta? É uma visão integradora do ser humano?
Leonor Malik: A visão do ser humano na pedagogia Waldorf tem uma grande finalidade: prepará-lo e oferecer-lhe as condições de que precisa no seu crescimento, até à idade adulta, para ele, efectivamente, possa vir a realizar, ao longo da sua vida, os desígnios que o fizeram nascer. Esses desígnios são sempre a união do ser humano com a terra que o acolhe, porque a terra está aqui para nós podermos fazer o nosso trabalho de desenvolvimento da consciência e consequentemente, espiritual. Portanto, se o ser humano não conseguir crescer em condições tais que lhe permitam alcançar a plena liberdade interior de poder escolher o seu caminho, tomar as suas decisões, de poder intervir como pensa que deve ser o caminho para o bem, para o belo e para a verdade, em termos de futuro, é uma vida falhada. Se a prática da pedagogia Waldorf conseguir oferecer à criança e ao jovem as condições de que necessitam, eles próprios se vão auto descobrindo e vão adquirindo essa competência incrível. Não é terem de andar perguntar a alguém o que tem de fazer, é saberem interiormente o que tem de fazer.
“O plano básico das intenções da Unesco diz: “a única pedagogia que prepara cidadãos para o século XXI é a pedagogia Waldorf. Desenvolve nos seus alunos criatividade, autonomia e capacidade de trabalhar com os outros.”
Integrall: Que competências adquirem os vossos alunos que não adquiririam numa escola de ensino regular?
Leonor Malik: A Unesco, nos anos 80, teve um presidente, que tinha feito toda a sua escolaridade no ensino Waldorf e enquanto foi presidente da Unesco expandiu, naturalmente, tudo o que estava relacionado com esta pedagogia. Aliás, se ainda hoje for as declarações da Unesco, o plano básico das suas intenções diz que “a única pedagogia, que prepara cidadãos para o século XXI, é a pedagogia Waldorf muito simplesmente por desenvolver nos seus alunos três competências sem as quais o século XXI vai conseguir resolver os seus problemas: criatividade, autonomia e capacidade de trabalhar com os outros.
A escola oficial continua a fomentar competitividade – eu tenho de chegar primeiro que todos os outros -, e a desenvolver, nas pessoas, o sentimento de “eu é que tenho que e se eu não tiver que, fico perdido, fico para trás”. A escola actualmente – e eu não estou a falar de Portugal, estou a falar do mundo inteiro – fomenta todas as competências anti vida, anti futuro. A pessoa tem de ser, realmente, muito criativa e para isso, tem de ter uma grande sensibilidade para poder olhar para o futuro e não para o passado, tem de ter uma grande confiança em si própria para poder actuar – muitas vezes é preciso actuar logo, naquele momento, senão acontecem coisas terríveis-, e finalmente, tem de saber integrar-se num grupo de pessoas em que há harmonia. Somos todos diferentes, mas a harmonia entre nós é que faz com que a diferença consiga fazer chegar a uma nova qualidade social. Não é a soma das pessoas, é uma nova qualidade social: a capacidade de trabalhar com os outros.
“As pessoas são competitivas porque sabem que há poucas vagas na universidade, há poucas vagas na profissão e lutam para isso. É o suicídio colectivo.”
Integrall: São essas as competências que os vossos alunos levam, mais além, para o mercado de trabalho?
Leonor Malik: (risos) O mercado de trabalho, como se fala por aí, é uma coisa reduzidíssima só para alimentar a economia. Não há mercado de trabalho, no sentido desta pedagogia. Em Waldorf, penso: tendo em conta o meu lugar de cidadão no mundo, que vive na sociedade/no país, como é que eu posso contribuir para que, aqui, as coisas se passem de uma forma em que os seres humanos sintam que valeu a pena estar aqui? Não é propriamente o mercado de trabalho, isso é o que acontece na escola (convencional): as pessoas são competitivas porque sabem que há poucas vagas na universidade, sabem que há poucas vagas na profissão e lutam para isso. Não tem qualquer sentido. Isso é o suicídio colectivo a acontecer.
Uma coisa lhe digo, em relação à Alemanha, que foi onde tudo começou: havia estatísticas, há alguns anos, que diziam que, no Habitur, que é o exame de admissão à universidade, em cada três anos que saíam das escolas Waldorf, dois conseguiam fazê-lo à primeira e um tinha que repetir, enquanto que, em cada três jovens que tinham estudado em escolas oficiais, era ao contrário: dois tinham repetir o exame e apenas um conseguia fazê-lo à primeira.
O que posso dizer-lhe em relação a nós, que somos extremamente jovens neste caminho, é que os estudantes que saem daqui – e já temos alguns na universidade – foram/são excelentes alunos lá fora, o que é um espanto, porque nós não trabalhamos para eles serem excelentes alunos, mas, o que é um facto, é que chegam lá fora e são. Até à altura do Covid, fazíamos levantamentos anuais sobre resultados escolares dos nossos alunos para enviarmos para o ministério da Educação e eu ficava espantada, porque não fazemos os testes que se faz lá fora, trabalhamos no desenvolvimento do ser humano e quando os nossos estudantes chegavam lá fora e eram alunos de quatros e cinco. Eu dizia para mim: “como é possível?”. É extraordinário, são outras competências.
Integrall: Que dificuldades têm sentido para implementar o ensino Waldorf em Portugal?
Leonor Mallik: A grande dificuldade, em Portugal, é que desde que a escola não seja do ensino oficial, é considerada particular e o ensino particular subsiste, essencialmente, se os pais pagarem uma mensalidade. É muito simples. Se não houver pagamento de mensalidades, a escola não pode funcionar
Integrall: Não há financiamento?
Leonor Malik: Absolutamente nenhum. Qual é o problema? Para já, as exigências do ministério são muito grandes a nível físico e eu não discordo, evidentemente. Por isso, pôr de pé uma escola até ao secundário, exige um investimento financeiro enorme e depois, porque esta pedagogia é algo diferente, é preciso que os que procuram uma escola diferente para os seus filhos, procurem uma escola diferente para os seus filhos, ou seja, não a procurem com aquela ansiedade que todos os pais têm e que é que os seus filhos cheguem depressa à universidade e que tenham um bom emprego. Em Portugal, essa procura ainda não se espraiou nos casais jovens, porque são esses os tipos de pais destas crianças e jovens, portanto, não há clientes suficientes que possam compensar.
“As crianças são extraordinariamente felizes aqui. Todo o ser humano devia passar pelo contacto intenso com a natureza durante a infância.”
Integrall: Quem é que vos procura atualmente?
Leonor Malik: No nosso caso, que estamos num ambiente natural absolutamente maravilhoso e tendo em conta a situação ecológica dramática que se vive neste momento, começa a haver cada vez mais gente jovem que se começa a aproximar, de uma maneira muito intensa, da natureza e são essas pessoas que nos procuram – pelo nosso envolvimento natural. As crianças são extraordinariamente felizes aqui, isso eu posso garantir-lhe porque estão onde todo ser humano devia estar durante a infância, em contacto intenso com a natureza. Os meios urbanos não têm nada a ver com o desenvolvimento da infância. Os pais começam a perceber isso e ficam encantados porque este é, de facto, um sítio onde as crianças são felizes, onde desenvolvem todas as suas capacidades, incluindo físicas. Por outro lado, com a globalização, cada vez mais nos procuram pais estrangeiros e esses, normalmente, vêm já à procura de uma escola Waldorf, porque vêm de países onde esta pedagogia está bem consolidada.
Existe, também, uma camada de pais que nos procuram em desespero de causa porque os filhos não estão a ter resposta para o seu desenvolvimento nas outras escolas. Não sabem bem o que é a pedagogia Waldorf, mas disseram-lhes que nestas escolas os meninos são capazes de ser mais ajudados do que nas outras e de facto, aqui encontram resposta – temos uma equipa multidisciplinar, desde os primeiros anos, para atender as necessidades educativas especiais. Essa é outra questão essencial da vida. As plantas, as culturas intensivas estão erradas, devia estar tudo misturado – a chamada biodiversidade. Com o ser humano é mesma coisa: temos de viver uns com os outros, cada um com as suas fragilidades próprias e aqui, na Escola Jardim do Monte, temos sempre cultivado isso. Somos a única escola de ensino Waldorf em Portugal, com uma equipa multidisciplinar e terapias ligadas à pedagogia Waldorf, que trabalha com crianças com necessidades educativas especiais. Os pais procuram-nos por isso, mas, claro que depois acabam por descobrir outras coisas maravilhosas.
No entanto, apesar desta procura, as escolas não são rentáveis, de modo nenhum, por enquanto.
Integrall: Quanto custa, em média, uma mensalidade na vossa escola?
Leonor Malik: Entre 400 e 500 euros por mês.
Integrall: Os vossos alunos aprendem fazendo?
Leonor Malik: Toda a gente aprende fazendo. Ninguém aprende nada se não fizer, é um mito da Revolução Industrial. Repare que até mesmo se tentar fazer um bolo em casa, se ficar só com a receita na cabeça, se não experimentar fazer o bolo, garanto-lhe que não vai fazer bolo nenhum. Toda a gente aprende fazendo, agora, pode ser um fazer acompanhado de uma maior ou menor reflexão, de uma maior ou menor base que nos dirige intelectualmente à coisa. Até à idade adulta, o ser humano está a apalpar tudo aquilo que é a realidade do planeta terra, onde vai desenvolver a sua vida, portanto, tem de contactar com ela. Contactar com ela é através dos sentidos, de todas as suas
competências, mexendo, cheirando, tocando, fazendo, experimentando, pondo para ver se cai ou não cai, devido às tais condições da terra, a gravidade. Nós temos de aprender a trabalhar com isso. O nosso corpo, na globalidade, faz isso. Na pedagogia, é a mesma coisa: trabalha-se a Matemática, no 1º Ciclo, indo-se para a horta, porque na horta, as crianças têm montes de problemas para resolver: têm não sei quantas sementes num pedaço de terreno, têm de dividir o terreno em não sei quantas parcelas com determinada superfície, com determinados limites, e quando voltam para a aula, têm uma base para trabalhar a Aritmética depois de terem experimentado com as próprias mãos na terra.
“É um disparate enorme as crianças começarem a escolaridade aos cinco anos”
Integrall: Como é que é o ensino do Português? As vossas crianças só começam a aprender a ler aos sete anos?
Leonor Malik: Quem é que lhe disse isso? (risos). Não. De todas as áreas escolares mundiais, a leitura e a escrita, a aritmética e o conhecimento do mundo – que são as três grandes áreas, rodeadas da arte, evidentemente – a mais convencional, menos verdadeira, mais difícil para as crianças, é a leitura e a escrita. Se se meter no carro e for até Málaga, a senhora é analfabeta e se for preciso ir trabalhar para lá, vai – imaginando que tinha para lá um projecto qualquer. Não ia morrer por ser analfabeta. A Matemática, não, a Matemática está inserida na existência das coisas, das formas a nível universal. Se vivo em Portugal, é uma coisa, se vivo na Grécia é outra, se vivo na Rússia, é outra, se vivo em Marrocos, é outra, ou seja, durante milhares e milhares de anos não foi preciso escrever nem ler, a tradição era oral. Então, os alfabetos foram sendo criados de acordo com condicionalismos locais. O Egito era uma coisa, a Suméria era outra e por aí fora.
Nós não recebemos crianças com cinco anos, recebemo-las a partir dos seis. Quando me fala dos sete anos, é porque há países que estão a voltar à obrigatoriedade de as crianças só entrarem aos sete anos, uma vez que é um disparate enorme as crianças começarem a escolaridade aos cinco anos, principalmente, como ela é feita. É atrofiar completamente o desenvolvimento normal da criança.
Actualmente, entram aos seis anos porque a sociedade assim o obriga. No meu tempo, como sabe, nós nunca entrávamos na escola antes dos sete anos e eu estou aqui inteira. Não passava pela cabeça de ninguém que fosse antes. Hoje em dia, é o mercado de trabalho a trabalhar. As crianças entram e começam imediatamente a trabalhar ao nível da numerologia, da aritmética e da matemática, do conhecimento do meio, da leitura e da escrita. O alfabeto, seja o nosso, seja o alfabeto árabe, seja o grego – se não os conhecer -, são macaquinhos no papel, são garatujas.
Como transmitir à criança garatujas, que não têm relação nenhuma com a vida, de forma a que elas possam ter um significado? Aí é que está a diferença. Na nossa escola, elas começam, imediatamente, a trabalhar nessa área, mas cada garatuja, cada letra, é apresentada como uma personagem de uma história e repare que é fácil: um “g” facilmente se transforma num golfinho, isto é, começa por ser um golfinho, há uma história sobre um golfinho e aquilo evolui de tal maneira que, a determinada altura é um “g” e para a criança o “g” passa a ser um golfinho para o resto da vida. Esta é a forma de aprender uma coisa que é convencional e de torná-la natural e inspiradora para o resto da vida. A única diferença é que leva mais tempo, mas, nós não começamos a ensinar a ler só aos sete anos.
Rudolf Steiner dizia que bastava começar a aprender a ler depois dos dez anos, que servia perfeitamente. Não fizeram isso na escola –não era permitido -, porque a primeira escola Waldorf estava inserida no sistema alemão, mas Steiner dizia que não havia problema nenhum em começar só aos sete. Hoje em dia, não, começamos imediatamente. Agora, com este percurso, tentamos que a leitura se transforme numa coisa viva e não uma chatice, como hoje acontece na maior parte dos casos. Há tantos livros maravilhosos e quantas crianças é que os leem? Duvido que o façam. Portanto, a forma como é feita a aprendizagem da leitura e da escrita contrapõe-se imediatamente à necessidade de usar livros para o resto da vida.
Integrall: No fundo, o vosso ensino acompanha o desenvolvimento da criança?
Leonor Malik: Claro.
Integrall: A Leonor tem uma frase curiosa: “Educar não é encher um recipiente, é acender uma luz”. É isso que fazem na Escola Jardim do Monte?
Leonor Malik: Em qualquer escola é isso que acontece. Quando eu olho para a minha escola, quando era aluna, eu só me lembro dos bocadinhos de luz que tive pelo caminho. O resto transformou-se numa nuvem cinzenta, não me lembro. Isso é o que acontece na vida de toda a gente, nós só guardamos as luzes que se acendem no nosso caminho e ao fim de 20 anos aquilo ainda está vivo. Marca-nos ilumina-nos.
Hoje, as pessoas vivem cada vez mais afastadas da verdade e coladas a clichés.
Integrall: Na Escola Jardim do Monte há pomar, horta. Privilegiam o contato com a natureza?
Leonor Malik: Estamos no meio dela, não podíamos deixar de a privilegiar. É, efetivamente, o meio ideal onde o ser humano devia crescer ao longo da infância. A terra é a nossa grande casa, não temos outra. Portanto, se esta relação física, sensorial e afetiva não for desenvolvida ao longos os primeiros anos, em que tudo entra, fica e preenche o ser humano para o resto da vida, depois já é capaz de ser tarde.
“Aqui não se fala de passarinhos, sem se ir observar os passarinhos. As imagens são ao vivo e a cores.”
Integrall: Que outras disciplinas têm os alunos, para além do Português e da Matemática?
Leonor Malik: Aqui, fazem o caminho dos vários componentes da vida na terra, diretamente, com a fonte de conhecimento. Não se fala de passarinhos, sem se ir observar os passarinhos, nem de borboletas, sem que se observem as borboletas. Nem no inverno, quando aprendem sobre os cogumelos, não tinha sentido nenhum não irem observar todos e quaisquer cogumelos que existem pela quinta fora, para depois, então, perceberem o que é um cogumelo. É muito lógico. Só quem não tem estas coisas ao pé, é que evidentemente apenas pode aprendê-las com alguém, contando-lhas, ou através de imagens num livro. Aqui, as imagens são ao vivo e a cores.
Integrall: Os vossos alunos também têm Arteterapia?
Leonor Malik: A Arteterapia é, essencialmente, uma das terapias para crianças com necessidades educativas especiais. Na Arteterapia, as crianças extremamente perturbadas emocionalmente, através da arte, relacionam-se de novo. Não é falar sobre as emoções, como agora por aí se diz, porque a criança não pode falar sobre as coisas, ela vive as coisas. É, realmente, levá-la a vivenciar experiências, estados, que lhe permitem acordar coisas nela. Nos autistas em que, por exemplo, há uma dificuldade imensa em se relacionarem com o mundo envolvente, a arte pode ser uma porta de entrada.
Por outro lado, temos, também, a Quirofonética, que é usada em crianças com problemas de desenvolvimento da fala. A Quirofonética vai resgatar essa competência incrível, que o ser humano tem, através de um trabalho com o corpo todo.

















