Foram precisos seis anos de medicina na universidade do País Basco para concluir que não sabia nada sobre saúde e tudo sobre doença. Acabado de sair da faculdade, na primeira substituição de um colega, o médico espanhol, Karmelo Bizkarra, recebeu um livro sobre medicina higienista, que viria a conduzi-lo ao tema “jejum”.
Desde 1980 que o prescreve aos pacientes e com ele já ajudou a curar doenças como artrites, artroses, esclerose múltipla ou os mais variados tipos de cancro. Diz que o jejum “não cura tudo, mas cura tudo o que é curável”. Aos cépticos, responde com os resultados de mais de 40 anos de experiência, observados no seu centro de saúde vital “Zuhaizpe”, em Navarra, onde acompanha milhares de pessoas de todo o mundo.

“A cura não é um ato médico, é um processo biológico.”
“A saúde é demasiado importante para deixar nas mãos de um médico”. A frase é de Karmelo Bizkarra, clínico espanhol, que há mais de quatro décadas, utiliza o jejum para ajudar a curar os seus pacientes. E tem, pelo menos, dois argumentos para o justificar. Por um lado, “a cura não é um ato médico, é um processo biológico” e por outro, “os médicos acabam o curso especialistas em doença, já que as faculdades estão centradas na patologia, nos sintomas, no tratamento e na medicação.” Por isso, decidiu desbravar caminho e acabou por pôr em prática aquela que é sua paixão: “educar para a saúde” e dar as ferramentas necessárias, a quem o procura, para se curarem a si próprios.
Os conhecimentos, esses, foi bebê-los à medicina higienista, antroposófica e espagírica, os quais aliou à bagagem que trazia da universidade e que fizeram dele um dos pioneiros, em Espanha, nesta matéria. Quando lhe perguntam se é “médico alternativo”, limita-se a dizer que pratica a “medicina integrativa”, que mais não é do que utilizar “o melhor de cada medicina. Não há melhores nem piores. Não há doenças, há doentes.”
“Anestesiar a dor com medicamentos não serve de muito, se não se for à causa do problema.”
Crianças e animais jejuam por instinto
Para Karmelo Bizkarra,” anestesiar a dor com medicamentos não serve de muito, se não se for à causa do problema”. Por isso, desde que teve o primeiro contacto com o jejum nunca mais o largou, tal é a sua eficácia. “O jejum é a terapia magna. Não é nada de novo. É o que fazem, por instinto, os animais e as crianças, quando estão doentes.”
Assim, para promover uma medicina pedagógica, em 1988, abriu o centro de saúde vital “Zuhaizpe”, em Casetas de Ciriza, Navarra. A ele recorrem centenas de todo o mundo: Argentina, Venezuela, Chile, México, Brasil, França, Portugal e claro, de toda a Espanha. Nos últimos 34 anos, passaram por ali entre 12 mil a 14 mil pessoas. Algumas para descansar, outras para uma alimentação saudável, mas a maioria vai para o jejum. O centro funciona em ciclos semanais, de domingo a domingo e costuma abrir de abril a outubro, embora devido à pandemia, este ano, comece a funcionar apenas a 13 de junho.

Poucas misturas para facilitar a digestão
“Cuidar-se para curar-se” é a proposta de “Zuhaizpe”. Ao fim de uma semana, quem dali sai, leva consigo as cinco chaves para a saúde: contacto com a natureza, respiração consciente, gestão emocional, equilíbrio entre descanso e repouso e, claro, uma alimentação saudável. Na medicina higienista, “quanto menos misturas, mais fácil é a digestão. Cada vez que introduzimos um alimento diferente, entra um novo estímulo no aparelho digestivo e temos mais vontade de comer. O importante não é encher o abdómen de comida. Devemos comer da forma o mais saudável possível, aproveitando a energia da fruta e dos legumes. Há que comer forma e cor. Um dia em que comamos alimentos sem cor é um dia perdido a nível da nutrição. Fazer uma alimentação simples permite que se gaste menos energia na digestão e assim, direccioná-la para a cura, tal como acontece no jejum”, explica.
O médico já assistiu à cura, com jejum, das mais variadas doenças: “desde a gripe até ao cancro, passando por esclerose múltipla, Parkinson, artrites, artroses, doenças respiratórias, renais, digestivas.
Jejum: aliado da quimioterapia
O médico defende que as pessoas “devem encher-se de vida para não se encherem de comida”. Esse, diz, é um dos “grandes problemas actuais. As pessoas comem em excesso, não por fome, mas para tapar as emoções: os medos, as angústias, as tristezas, a raiva, as frustrações”. E acrescenta: “há a ideia de que se deixo de comer, adoeço, mas é precisamente o contrário. Se como apenas o necessário, isso permite-me curar-me.”
Apesar das “muitas evidências sobre jejum publicadas em revistas científicas”, Karmelo afirma que “não fazem falta (mais) estudos. Há mais de 40 anos que acompanho jejuantes e vi grandes curas. Para mim, o importante é a minha experiência”, refere. O médico já assistiu à cura, com jejum, das mais variadas doenças: “desde a gripe até ao cancro, passando por esclerose múltipla, Parkinson, artrites, artroses, doenças respiratórias, renais, digestivas. O corpo tem uma grande capacidade de regeneração.” Acrescenta ainda que: “há médicos que já estão a complementar a quimioterapia com o jejum e concluíram que os seus efeitos são maiores. O jejum protege as células saudáveis dos efeitos colaterais da quimioterapia”, salienta.
“Não se passa fome durante o jejum. No primeiro dia, às vezes, sim. Se a pessoa não está acostumada, pode haver a sensação psicológica de fome, mas a fisiológica desaparece ao segundo ou terceiro dias.”
Dias sem comer
Mas, afinal, o que acontece ao corpo em jejum? “Consumimos 30 por cento das calorias na mastigação, salivação, digestão, absorção e assimilação. Quando não comemos, esses 30 por cento são usados pelo corpo para a sua auto cura, guiado pelo seu próprio médico interno”, explica.
Dentro da escola de medicina higienista, fala-se de jejum hídrico ou dieta zero, o que significa que as pessoas só bebem água. Na prática, “não estão sem comer. Têm um prato posto: as suas próprias reservas. Não nos alimentamos apenas do que ingerimos, mas também da água – somos 70 por cento de água -, do ar, da luz e do calor do sol.”
Os jejuns podem ser curtos, de três a quatro dias, ou longos. O maior que Karmelo Bizkarra já acompanhou foi de 49 dias. “Era uma mulher que pesava 150 quilogramas e que tinha muitas reservas no corpo e muito peso a perder.
Ao contrário do que possa pensar-se, o médico diz que “não se passa fome durante o jejum”, embora admita que “no primeiro dia, às vezes, sim. Se a pessoa não está acostumada, pode haver a sensação psicológica de fome, mas a fisiológica desaparece ao segundo ou terceiro dias, já o corpo começa a consumir as reservas, especialmente, as de gordura, que se transformam em corpos cetónicos”, avança.
“Não há nenhuma carência durante o jejum (…) Através do jejum, o corpo melhora a autofagia – vai degradar as células que estão doentes e reciclá-las, voltando a construir novas células, novos tecidos, no fundo, regenerando-se.”
Não há carências durante o jejum
Karmelo Bizkarra garante que “não há nenhuma carência durante o jejum, inclusive, em jejuns largos de 15, 20, 30 ou mais dias” e há vários estudos que o comprovam. Através do jejum, o corpo melhora a autofagia – vai degradar as células que estão doentes e reciclá-las, voltando a construir novas células, novos tecidos, no fundo, regenerando-se. “E isto o corpo sabe fazer melhor do que ninguém porque tem esse instinto de conservação interna”, salienta.
Benefícios do jejum
O benefício principal é o repouso fisiológico do corpo, que faz uma revisão a todas as suas doenças. Há uma grande capacidade de autoregeneração a nível físico, mas, também, uma espécie de quietude a nível mental. Tudo isto é possível encontrar, em “Zuhaizpe”. Além de um acompanhamento médico especializado, as pessoas relaxam. Ali, há “um descanso activo”, em que, a par do regime alimentar escolhido, existem actividades psicocorporais, que proporcionam a vivências das emoções básicas – medo, raiva, tristeza e alegria -, e ainda um jejum de notícias e de todo o tipo de preocupações. “Toda a energia é dirigida para a cura, regeneração, desintoxicação.”

O jejum é recomendável a qualquer pessoa, sendo poucos os casos em que é contra indicado – insuficiência renal ou cardíaca, hemorragia digestiva ou do duodeno e cancros em fases avançadas”, adverte.
“Entramos na doença por uma porta e com determinados sintomas e com o jejum, saímos pela mesma porta, mas pagando a viagem, através dos mesmos sintomas.”
Os sintomas no jejum
Quanto aos sintomas de abstinência, Karmelo não nega: “Eles existem, tal como num alcoólico quando deixa de beber”. No entanto, “as pessoas saudáveis podem fazer um jejum sem sintomas e tendo energia”, refere.
Os mais frequentes são dores de cabeça, náuseas, vómitos. “São a forma de o fígado eliminar as substâncias tóxicas, mas, permanecem apenas nas primeiras 24 a 48 horas. A partir do terceiro dia, é raro haver sintomas, que mais não são do que crises curativas.”
Karmelo costuma dizer: “entramos na doença por uma porta e com determinados sintomas e com o jejum, saímos pela mesma porta, mas pagando a viagem, através dos mesmos sintomas”. Mas para o especialista, vale a pena pagar o preço: “o jejum ajuda muito, incluindo em casos de drogas, pois permite eliminar substâncias tóxicas acumuladas no corpo durante anos”. Um tema que conhece “muito bem”, uma vez que trabalhou com toxicodependentes de heroína durante anos.
“O jejum deve ser sempre acompanhado por um médico, mas se não for possível, aconselha um jejum intermitente, de entre 16 a 18 horas. Esse é mais fácil de fazer sozinho.”
A preparação do jejum
Quem vai a “Zuhazipe”, começa a ser acompanhado antes de lá chegar. Karmelo e a equipa analisam todo o historial clínico da pessoa para ver se pode ou não jejuar. Se sim, a preparação começa ainda em casa. O desmame de comida é feito progressivamente. Primeiro, retiram-se os fritos, as conservas, os embutidos, carne, peixe e pouco a pouco, começa-se uma alimentação à base de frutas e vegetais, até se passar ao jejum hídrico. A saída do jejum, faz-se da mesma forma.
Karmelo Bizkarra defende que “o jejum deve ser sempre acompanhado por um médico, mas se não for possível, aconselha um jejum intermitente, de entre 16 a 18 horas. Esse é mais fácil de fazer sozinho”.
Nos últimos anos, Karmelo tem partilhado a sua experiência em conferências, cursos e obras e actualmente, o seu livro “O poder curativo do jejum”, das edições Mahatma, está traduzido em Português. Ao mesmo tempo, dá cursos online sobre o tema.

















