Com origem madeirense, o cirurgião gástrico brasileiro Fernando Freitas voltou às origens, em 2023, trazendo consigo para Portugal, a metodologia terapêutica “Consciência Sistémica”, que desenvolveu no seu país, depois de ter percebido que a medicina não podia existir desligada da psicossomática e que ambas não podiam existir desligadas dos antepassados de cada família.
Atualmente a viver em Paredes de Coura, o médico dá cursos online aos alunos que tem em 46 países, com quem partilha a sua visão integrada da saúde, juntamente com a esposa, a também médica, Carla Queiroz.
Integrall: Há quantos anos se formou em gastrocirurgia?
Fernando Freitas: Eu formei-me na Escola Paulista de Medicina, em São Paulo, em 1980, onde fiz três anos de especialização em gastrocirurgia.
Integrall: Durante quantos anos exerceu gastrocirurgia?
Fernando Freitas: Como médico cirurgião parei por volta do ano 2000. O último emprego que tive na área, que eu adorava embora já trabalhasse com constelações e psicoterapia corporal, foi a fazer plantões num hospital regional de Sorocaba, uma vez por semana.
Integrall: Em que momento da sua carreira é que começou a interessar-se pela psicossomática?
Fernando Freitas: Eu interesso-me pelas doenças desde criança. A minha família está cheia de gente doente, eu próprio tive uma série de coisas, como febre reumática e glomerulonefrite. Eu vivia doente, o meu pai também, a minha avó morreu de cancro, a minha mãe tinha um problema pulmonar. Eu vivia numa família cheia de doenças e questionava-me porque é que as pessoas adoeciam de coisas diferentes. Quando entrei na faculdade, fui estudar as doenças, mas quando cheguei ao estágio, onde fiz a especialização, tornou-se muito evidente a importância do mundo emocional e de como estava o ser humano em relação à sua própria doença, à sua vida; comecei a olhar com mais atenção para o ser humano.
Integrall: Foi a observação, em criança, das doenças da sua família que o fez ir para medicina?
Fernando Freitas: Eu estava cercado de gente doente, eu próprio estava doente, a minha família era um antro de pessoas doentes. Em criança, estava sempre a questionar-me: “será que vou morrer, será que não vou morrer, será que o meu pai e a minha mãe vão morrer disto?”. Estes questionamentos viviam dentro de mim.
Integrall: Mas foi durante o estágio que o tema “doença” se tornou mais forte?
Fernando Freitas: O tema ficou mais forte quando tive um contacto mais profundo com os doentes: acompanhava-os desde o começo até ao final do internamento e depois, no ambulatório. Esse contacto mais próximo fez-me aprofundar essa perceção.
Integrall: Foi a observação dos seus doentes e dos conflitos internos que o levaram a procurar as verdadeiras raízes emocionais, psíquicas e sistémicas que se tornam terreno fértil para o desenvolvimento das doenças?
Fernando Freitas: Exato. A partir daí começou tudo.
“Descobri que a medicina que estudamos nas faculdades não é hipocrática”
Integrall: Onde é que foi aprender psicossomática?
Fernando Freitas: Eu sou um autodidata: comecei a estudar, fiz uma série de formações – gosto sempre de fazer formações -, e também, um curso de psicossomática, no Brasil, onde conheci a teoria de Galeno, que começou a seguir a linha hipocrática e abriu a minha mente. A partir daí, fui estudar Hipócrates, o pai da medicina e descobri que a medicina que estudamos nas faculdades não é hipocrática, mas, sim, galénica. Entretanto, comecei a estudar filosofia médica, as várias linhas de medicina e como é que essas linhas compreendem o que é adoecer, as causas das doenças e o caminho de cura.
Quando comecei a estudar Hipócrates, apanhei um susto, porque Hipócrates, como pai da medicina – e as observações dele -, faziam muito sentido em relação à psicossomática, muito mesmo. Ele defende que não devemos olhar para a doença, mas, sim, para o doente. O problema não é a doença, é o doente e o poder de cura está dentro dele – o médico tem a função de ajudá-lo a curar-se, mas não aprendi nada disso na faculdade. Na faculdade, aprendemos que a doença é um inimigo que temos que identificar e debelar. Debelando a doença, a pessoa fica saudável. Foi Galeno que defendeu que se devia arrancar a doença para que a pessoa ficasse saudável, como se a doença fosse uma coisa estranha à pessoa. Não, a doença faz parte da pessoa. A doença é um sistema de alarme, é uma mensageira.
“A doença é uma mensageira”
Integrall: O curso de medicina não ensina nada disso?
Fernando Freitas: Não, nem no Brasil, nem no mundo ocidental. Eu amo a medicina, é uma coisa maravilhosa, mas, para mim, está manca, porque trabalha só de fora para dentro, vê o ser humano como uma máquina, que está partida e que é preciso consertar.
Integrall: O que é que o sistema de saúde tinha a ganhar em integrar a psicossomática nos cursos de medicina?
Fernando Freitas: Compreender o ser humano por dentro. De acordo com a base hipocrática, o poder de cura está dentro do ser humano.
Se tiver em conta que um ser humano que resolveu, de repente, morrer, desistir da vida, pode fazer o que quiser, usar todos os recursos da medicina, que não vai resolver nada. Quando parar de olhar para o ser humano como uma máquina, aí vai entender porque é que há pessoas que morrem por causa de tontarias. O que é que levou aquela pessoa à morte? A maioria vai dizer que foi um erro médico, mas quando se vai a ver, aquela pessoa tinha um destino estranho e se ela decidir desistir da vida, ela vai morrer.
Na outra polaridade, estão aqueles casos de curas milagrosas – que para a medicina são milagrosos – e em que nos questionamos como é que aquela pessoa se curou de um dia para o outro, mas, se olharmos através da psicossomática, é simples: a pessoa resolveu viver e acabar com a vida doentia que tinha. Portanto, o poder está sempre dentro dela.
Integral: O Fernando deixou a medicina no ano 2000 e passou a exercer psicossomática?
Fernando Freitas: Eu conciliava as duas. Eu terminei a minha especialização, em janeiro de 1984 e em 1985, comecei a estudar e a pesquisar estes temas e perto dos anos 90, comecei cursos, uns atrás dos outros, uma maluquice.
Integrall: Também estudou com Bert Hellinger?
Fernando Freitas: O Bert Hellinger surgiu na minha vida em 1997.
“O problema não é infância em si: a infância tem uma camada mais profunda, que é a família”
Integrall: A psicossomática surgiu antes de estudar com Bert Hellinger?
Fernando Freitas: A linha que me chamou à atenção foi a psicoterapia corporal de William Reich. Eu sou médico cirurgião e por isso já observava o corpo, mas, naquele momento, comecei a colocar o corpo dentro da psicoterapia – o Reich colocava o corpo dentro da psicanálise e desenvolveu uma linha de análise do caráter. Ele também era médico e começou a observar uma série de coisas, como o mundo vegetativo, o sistema nervoso autónomo, uma linguagem que eu conhecia e que me fazia sentido. Não era algo estratosférico, era algo muito concreto. Então, comecei a entender as emoções infantis e como que é que os traumas infantis afetam o nosso corpo. A psicossomática mostra que as doenças, a somatização, têm por trás um conflito emocional infantil. Para entender esse conflito, fui estudar as três grandes linhas de psicoterapia corporal reichiana, em três formações internacionais: análise bioenergética, biossíntese e biodinâmica. A partir daí, comecei uma jornada maluca de questionamentos – eu sou movido a questionamentos-, sobre a origem dos traumas infantis e sobre como é que os pais criam esses traumas. Estes questionamentos levaram-me a investigar a abordagem sistémica – comecei a pesquisar o que existia dentro da família e a ver que o problema não era a infância em si, ela tem uma outra camada mais profunda: a família.

Intregrall: Porque é que os pais fazem isso?
Fernando Freitas: Provavelmente porque também eles passaram por isso e nem se apercebem, mas inconscientemente acabam por passar as mesmas coisas às próximas gerações. É aí que se começa a ver que aquela camada mais profunda, onde estão as raízes desses traumas.
Quando encontrei o trabalho do Bert Hellinger, percebi que a constelação sistémica é uma ferramenta de trabalho impressionante. Se se souber usá-la com boas bases, consegue-se compreender e sobretudo, ajudar o cliente a ver o seu próprio problema, porque ele vai olhá-lo a partir de fora. Na sistémica, tiramos o observador de dentro do problema e ao olhar de fora, ele consegue entender melhor as dinâmicas sistémicas, os emaranhamentos. O trabalho do Bert Hellinger agregou tudo o que eu já conhecia antes e por isso, acabei por criar uma nova abordagem.
Integrall: Como é que se chama essa abordagem?
Fernando Freitas: A abordagem, que eu criei em 2013, chama-se Consciência Sistémica.
“Ao invés de fazer uma cirurgia no corpo, é como se eu fizesse uma cirurgia na mente, na alma”
Integrall: Foi nessa altura que deixou a medicina?
Fernando Freitas: Eu nunca deixei a medicina. É muito interessante quando as pessoas me perguntam se deixei de ser médico. Não, agora é que eu me tornei médico, porque, no fundo, integro tudo o que aprendi, incluindo a medicina, numa visão hipocrática. Exercer medicina com foco em psicossomática, é uma linha da medicina. Aliás, nem a cirurgia eu cheguei a deixar, porque a sua essência continua dentro de mim. Eu continuo a abrir as pessoas, embora com outras ferramentas. Eu vou abrindo e vendo o que está lá dentro, só que, ao invés de fazer uma cirurgia no corpo, é como se eu fizesse uma cirurgia na mente, na alma. Na essência, continuo a ser cirurgião, só que o meu bisturi agora é outro.
“A pessoa só muda quando a dor de não estar a viver a própria vida for maior do que a dor da mudança”
Integrall: Qual é a função de uma doença?
Fernando Freitas: A função da doença é ajudar o indivíduo a ir para a vida, evitar que vá para a loucura ou para a morte. Por incrível que pareça, a doença vem para impedi-lo da sua autodestruição, porque é ele que faz mal a si mesmo.
Eu posso até dizer ao mundo que a culpa dos meus problemas é do meu pai, da minha mãe, do sistema, do governo, do país. Eu posso dizer o que quiser, mas, no fundo, sou eu comigo mesmo. Quando me ponho à procura de culpados fora, é para me dizer a mim próprio que sou inocente.
O médico alemão Georg Groddeck dizia que a doença é a nossa melhor amiga porque ela diz o que precisamos de ouvir. Ela não nos bajula, vai direta ao assunto. A doença, como mensageira, faz-nos entrar em contacto com as nossas dores, limitações e necessidades mais profundas, faz-nos entrar em contacto com a decisão de querermos continuar a viver ou não, porque só mudamos, sinceramente, quando estamos num processo de dor.
Freud tinha uma frase interessante:” a pessoa só muda quando a dor de não estar a viver a própria vida for maior do que a dor da mudança”, porque mudar dói, exige sacrifício, mudar implica matar um pedaço dentro de si. Que pedaço? O modo de viver que a pessoa desenvolveu durante anos e que rebentou com ela.
“A doença é a nossa melhor amiga porque ela diz o que precisamos ouvir”
Integrall: A doença mostra que o caminho de vida não é por ali?
Fernando Freitas: Sempre. A doença tenta agarrar a pessoa à vida.
Integrall: Mas há pessoas que desistem?
Fernando Freitas: Sim. Cada pessoa tem de ter uma motivação. Se, de repente, para ela, o mais importante é ficar presa num emaranhamento e numa fidelidade oculta de família, segue o destino dos outros. Por isso é que cada ser humano é único, mas a medicina tradicional olha para cada um como uma máquina. A medicina é a arte da cura, embora as pessoas achem que é uma ciência exata. Não é, ela lida com o ser humano. Uma coisa que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra, mas na medicina tradicional ensina-se uma técnica que resolve tudo, usa-se a pílula mágica que resolve tudo. Isso é anestesia, é aliviar o sintoma e não a causa.
Integrall: Todas as doenças têm causas emocionais?
Fernando Freitas: Sim. A questão é: quanta consciência a pessoa consegue abrir? Cada um vê de acordo com o seu nível de consciência. Esse nível pode iluminar o que a sombra não vê, mas não é por não se ver algo que não existe. Os cientistas estão sempre a pesquisar coisas que ninguém está a ver. Ampliar a consciência é como estar debaixo de um poste de luz numa noite escura: vemos o que a luz mostra, mas não quer dizer que a vida seja isto. A vida é tudo o que eu não vejo. É como o inconsciente: ele está escondido, não o vemos, mas ele existe.
“Antes de tratar alguém, pergunte-lhe se está disposto a abrir mão daquilo que o fez adoecer”
Integrall: Como é que se pode curar esses traumas, mesmo quando não há memória deles?
Fernando Freitas: Existe uma memória consciente e outra inconsciente. Temos contacto com tudo o que aconteceu na nossa vida, mas de forma inconsciente. Dentro da neurociência, existe o hipocampo, que é a memória que evoco: por exemplo, lembro-me quando ia passear com o meu pai ou com a minha mãe num parque. Por outro lado, existe a memória de todos os traumas que eu carrego, que fica na amígdala cerebral e a que não temos acesso. Como é que a descobrimos? É parecido com que se passa com os astrónomos. Eles já viram um buraco negro? Mas, sabem que aquele buraco é negro porque atrai. Como é que eu vejo os traumas? É muito simples. Se eu olho para o corpo de uma pessoa, para aquele molde, existe um genótipo. A pessoa começa a ser moldada e algumas das características que vão ter seus órgãos e estruturas funcionam em défice ou em excesso e aí surgem as doenças. Há estímulos, na vida, que vão fazer a pessoa mudar o seu modo de sentir, pensar e agir. Quando eu vejo o comportamento, os medos, os conflitos, os problemas que a pessoa repete, o que a fez tomar determinado tipo de decisão, a programação que tem na vida, é possível mudá-lo. Mas quem é que tem de mudar? A própria pessoa. Hipócrates dizia: “antes de tratar alguém, pergunte-lhe se está disposto a abrir mão daquilo que o fez adoecer.”
A medicina tornou-se num jogo absurdo sobre o poder de cura. Se eu digo que o poder de cura está dentro do doente, acaba-se o sistema. No meu trabalho, eu ajudo a pessoa destravar o seu poder de cura, porque foi ela que o travou. Porquê? Porque quando surgem os traumas, a pessoa começa a fragmentar-se, perde a unidade. O objetivo é ajudá-la a ir identificando e tratando esses traumas, embora eles nunca desapareçam completamente. Há uma fantasia que acha que sim, que se apagam, mas não. Tudo que passou na sua vida está dentro de si. A questão não é o que lhe aconteceu, é como é que olha para as coisas que lhe aconteceram e o que vai fazer com isso, a partir do momento em que ganha consciência. Como dizia Sartre: “não importa o que aconteceu comigo, o que fizeram comigo até hoje, e sim, o que eu vou fazer com tudo isto, a partir de hoje”. Há, aqui, um ponto de mutação. Eu mudo o meu modo de viver.
“Não é o que lhe aconteceu, é a forma como olha para o que lhe aconteceu e o que vai fazer com isso, a partir do momento em que ganha consciência”
Integrall: Não é a doença, é a forma como o doente olha para ela e se relaciona com ela?
Fernando Freitas: A doença faz parte de mim. Segundo Groddeck, só os saudáveis adoecem, porque têm a capacidade de ouvir seu o corpo. Quem está desconectado do corpo, não o escuta. Se pegar num indivíduo que nunca adoece, frequentemente, ele morre, porque ele não está atento. Por outro lado, há imensa gente que está sempre doente e não morre. Existe a fantasia de acreditar que ser saudável é não adoecer, quando ser saudável é ter a capacidade de adoecer. A doença mostra que alguma coisa precisa de mudar dentro de si. É uma comunicação com o corpo, com o inconsciente, com alguma coisa que está dentro de nós. Se bloquearmos a doença, ela não nos alerta. Desligamo-nos do corpo com a vida ou da mente com a vida. A doença faz-nos ficar presentes, entrar em contacto com a dor, olhar para ela e tomar atitudes adequadas.
“Não é a doença que nos está a matar, o que nos está a matar é a nossa forma doentia de viver”
Integrall: As doenças são processos de cura?
Fernando Freitas: A doença acorda para realidade. Aparentemente, está tudo bem na sua vida e de repente, aparece uma doença, que quebra a sua realidade? E agora? Agora, não consegue trabalhar, fazer aquilo que queria, não pode sair, pronto. O que fez a doença? A doença fê-la entrar em contacto com algo que não queria ver, mas que existia dentro de si. A doença não cria nada novo, ela avisa-a do que está dentro de si e para que não quer olhar, mas que precisa de ver. A doença é uma mensageira, mas, muitas vezes, não gostamos da mensagem. É o chamado princípio da alternância somática, de que falava Hipócrates: “se o médico tirar uma doença, o doente inventa outra, porque precisa disso”. A doença vai aparecer noutro lado até a pessoa escutar a mensagem. Se não a escutar, vai entrar num destino final: a morte.
Não é a doença que nos está a matar, o que nos está a matar é a nossa forma doentia de viver, a nossa cabeça louca, que toma as decisões completamente desligadas da realidade, mas que achamos normais. De onde trouxemos esses conceitos loucos de viver?
“A personalidade cancerígena é a de pessoas que não sabem dizer ‘não’ aos outros e passam a vida a cuidar deles”
Integrall: O Fernando diz que existe uma personalidade cancerígena. Que personalidade é essa?
Fernando Freitas: Quando estudamos as doenças, percebemos que há um terreno certo para algumas delas. Neste caso, falamos do famoso co-dependente e do salvador, que é aquele que que não sabe dizer “não” aos outros e que, por isso, diz “não” a si mesmo e cuja vida é cuidar dos outros. Este é o tipo de personalidade cancerígena. São pessoas que não olham para si mesmas, que têm dificuldade de olhar para dentro, procurando e tratando o problema dos outros para não olhar para os seus. Todos os indivíduos com cancro precisam de aprender a dizer “não”, a colocar limites. Passa-se o mesmo com o sistema imunitário. Ele olha para uma célula minha, que é doente e que vai destruir-me, identifica-a e bloqueia-a. Todos temos células cancerígenas dentro de nós, que o sistema imunitário caça. O que é que acontece a partir do momento em que não consegue identificá-la, não consegue impor-lhe limites? O cancro é uma doença invasiva e invade, precisamente, porque não lhe foi colocado um limite.
No caso dos indivíduos, eles têm relacionamentos invasivos, as pessoas invadem-nos, rebentam com eles e eles ainda cuidam dessas pessoas. Ao fazer tudo isto, o que está a acontecer? Estão também a bloquear o seu sistema imunitário, porque quando não se consegue olhar e pôr limites fora, não se consegue olhar e pôr limites dentro. Então, essas células que se passeiam pelo corpo e que, de vez em quando, sofrem uma mutação, podem acabar por originar um cancro. O cancro é uma célula que resolveu desrespeitar as regras do corpo, se multiplica e vai para onde quiser.
Integrall: Como é que se ajuda um doente com cancro a olhar para a doença e tratá-la?
Fernando Freitas: Não é olhar para a doença, é olhar para a vida. A doença vem para o acordar para a realidade. Eu digo uma frase que é: “ou acorda para a realidade da vida, ou a vida acorda-o para a realidade”. Se não quiser acordar, não acorde, mas alguém vai tocar o despertador. O quê? A doença. Quando a pessoa acorda e há algo que não está bem, ela precisa de tomar consciência e perguntar-se o que está a acontecer consigo e perceber se continuando assim, vai viver ou morrer. Esta é tomada de consciência – e ela é progressiva e infinita. A partir do momento em que a pessoa ganha consciência, surge dentro dela uma motivação para continuar assim ou para mudar, porque quando se ganha consciência, ela vai ver uma quantidade de dores e de traumas que não queria ver, mas que estão dentro de si. No momento em que vê, não o pode ignorar mais. Como dizia Einstein: “uma mente que se abre nunca mais volta ao tamanho original” porque a pessoa ampliou a consciência. Não dá mais para não ver. O meu trabalho é ajudar a pessoa a ganhar consciência de coisas dolorosas, as verdadeiras.
A última etapa é quando a pessoa se questiona e procura sair daquela situação. Esta é a chave. A chave são ferramentas que pode utilizar para fazer essa transição. O meu trabalho é ajudar a despertar para ganhar consciência e encontrar ferramentas para levar as pessoas a sair desse lugar.
Integrall: Muitas doenças também têm origem na família?
Fernando Freitas: Não são muitas, são todas. As causas são familiares e emocionais. Tudo está ligado.
Integrall: Qual é a mensagem que uma doença num bebé ou numa criança transporta?
Fernando Freitas: Sempre que há uma dinâmica familiar doentia, em que os pais estão cheios de mecanismos de defesa e não o veem, quem é que é o elemento que entra em contacto? A criança. Quando surge uma doença numa criança, é porque é preciso avaliar o sistema. Essa doença vem despertar o sistema familiar, revelar os seus problemas. Quando se entende o sistema, percebe-se que a doença nunca é um elemento isolado de tudo, é o sistema inteiro que está doente.

Integrall: Olhando para todo o seu caminho, o que é que aprendeu e descobriu sobre si, a sua família e as doenças do seu sistema?
Fernando Freitas: Eu faço parte de uma família que fez o melhor que pôde diante de todas as confusões que lhe aconteceram e essa família não são só os meus pais: são os meus avós, os meus bisavós. Quando eu olho para trás, vejo uma multidão de pessoas. Milhares e milhares e cada decisão que tomaram, mudou o destino da minha família. Eu sou fruto de tudo isso. Faço parte de um sistema enorme, absurdo e nesse sistema, algum familiar seu está lá também. No fundo, somos uma mesma família. Então, eu olho para tudo isso e faço uma reverência profunda a todos eles, porque, cada decisão que tomaram na vida, fez com que eu existisse hoje. Se eles mudassem uma qualquer decisão, eu não existiria. Eu sou a consequência dessa força de vida: eles sempre acreditaram na vida e sempre colocaram os descendentes a ir para a vida, passando-lhes o melhor que puderam. Eu costumo dizer: eu amo os meus pais profundamente, mas odeio os problemas que eles carregam, porque atrapalharam a vida deles, a família. Então, eu amo a minha vida e odeio os meus problemas, mas se não fossem esses problemas, eu não tinha chegado aonde cheguei. A questão é que odiar os problemas não significa fazê-los desaparecer, mas, sim, aprender com eles para não os repetir. Quando eu olho para um problema e o observo, ele torna-se num desafio. Os meus pais aprenderam uma série de coisas e passaram-me tudo o que aprenderam. Agradeço-lhes profundamente porque eles fizeram o melhor que podiam e eu passo, também, o meu melhor aos meus filhos.

















