Desde a pandemia que a fisioterapeuta Mariana Veiga a combina com a terapia sistémica, usando o corpo como aliado nos processos de cura. A viver em Portugal desde o início do ano, explicou, em entrevista ao Integrall, que “o corpo sabe tudo o que lhe aconteceu”.

Integrall: Em que momento da tua carreira é que começaste a aliar a fisioterapia à terapia sistémica e ao modelo sistémico generativo da Virgínia Satir?
Mariana Veiga: Eu formei-me, em 2000 e até 2018, trabalhei só em hospitais, no Rio de Janeiro, mas sempre estudei espiritualidade, sempre estudei além do corpo. Até que comecei a trabalhar só com pacientes particulares, ia ao domicílio, via como era a família deles e havia doentes que não melhoravam com nada; eu aplicava todas as técnicas, usava todas as manobras, manipulações e não melhoravam. A certa altura, o meu marido começou a estudar as leis biológicas e a entender que as doenças e os sintomas não tinham só a ver com romper um tendão, por exemplo, mas, sim, com um trauma. Então, eu comecei a abrir para estes temas, a estudar Programação Neurolinguística (PNL) e os processos de transformação, de mudança na vida, nomeadamente, o que se passava antes do sintoma físico aparecer. Comecei, também, a conversar com meus pacientes particulares – até porque passava mais tempo com eles-, e na pandemia, uma vez que não podia ia a casa dos doentes, comecei a fazer atendimentos online, com base na PNL e nesse momento, a fisioterapia, da forma como eu a fazia, deixou de fazer sentido. A doença não está só no corpo e por isso, eu decidi que não queria mais trabalhar com a fisioterapia só do corpo.
“A doença não está só no corpo”
Integrall: A par da PNL, foste estudar o modelo generativo da Virginia Satir. Que modelo é este?
Mariana Veiga: O modelo da Virgínia Sati é uma terapia sistémica, que engloba todo um sistema: corporal, de pessoas, a família e cada um de nós tem um papel em cada um desses sistemas.
Integrall: Foi, então, depois da pandemia, que decidiu juntar a terapia sistêmica à fisioterapia?
Mariana Veiga: Eu comecei a juntar tudo quando comecei a estudar a psicoterapia corporal, porque através de manejos do corpo é possível elaborar conflitos. Quando somos impactados por alguma coisa através dos nossos sentidos, não sabemos como é que o nosso nosso cérebro vai processá-lo nem aonde é que aquilo se vai alojar no nosso corpo. Então, se vir uma criança a levar um ralhete do pai na rua e se aquilo tiver alguma ligação à sua história, mesmo que não se lembre, vai ser impactada por aquilo – normalmente, é pelos olhos ou pelos ouvidos –, mas depende do seu sistema de crenças, de como foi criada, das suas fraquezas, de onde é que “guarda” os seus dramas e que é dividido no corpo. Dependendo do nível de impacto que sofreu, pode criar uma tensão nos olhos ou noutra parte do corpo – essa é a parte da da história que eu vou investigando na terapia para saber qual é a fragilidade do corpo daquela pessoa.

“O seu corpo sabe tudo o que aconteceu consigo”
Integrall: Essa abordagem tem-na ajudado no acompanhamento dos seus pacientes?
Mariana Veiga: Sim. O corpo sabe tudo o que lhe aconteceu consigo, por isso, eu digo que o corpo contém toda a verdade. Nós vamos dando justificações e mais justificações e seria muito trabalhoso e doloroso para a nossa mente se nos lembrássemos de tudo – paralisaríamos – mas o corpo lembra-se.
Integrall: Passou a fazer fisioterapia de outra maneira?
Mariana Veiga: Sim, mas só assim. Eu sempre tive pacientes de longa data, cheguei a atender a família inteira, mas quando voltei a fazer fisioterapia procurei trazer outra linguagem – que não a da fisioterapia clássica – para os meus tratamentos e os pacientes melhoravam bastante. Aliás, eles, às vezes, eles nem entendiam muito bem como, mas eu sabia o que estava a fazer.
“Está tudo ligado: o seu pé está ligado ao seu joelho, à sua cervical; o seu corpo está ligado com a sua família. Há uma ligação – não é consciente – mas há uma ligação”
Integrall: Percebeu que a fisioterapia não era suficiente para tratar os seus pacientes?
Mariana Veiga: Não era a questão de ser suficiente ou não mas não para mim, porque, por exemplo, eu só curava o quadril, mas não curava a pessoa como um todo – está tudo ligado: o pé está ligado ao joelho, à cervical; o seu corpo está ligado com a sua família. Há uma ligação – não é consciente -mas há uma ligação. Qualquer movimento que faça na sua família, impacta toda a família.
“Damos o nosso corpo como garantido”
Integrall: Quais os benefícios de juntar a terapia sistémica à fisioterapia?
Mariana Veiga: Um dos maiores benefícios é a responsabilidade do paciente, não só fisicamente, mas mentalmente – como é que o comportamento e as crenças dele vão interferir em todos os seus sistemas: pode ser a sua casa, a sua família ou o seu trabalho. O efeito deste tipo de tratamento é que o paciente vai ter responsabilidade da forma que se comporta, quais as batalhas que vai “comprar”, qual o seu olhar sobre as outras pessoas e principalmente, sobre o seu corpo. Fui percebendo que damos o nosso corpo como garantido, não cuidamos dele como devemos. Eu achava que cuidar do corpo era só fazer ginástica, comer bem, beber água e dormir bem. Cuidar do corpo é estar ligado a ele, perceber se existe alguma tensão e entender que o corpo está a conversar connosco. Se o corpo está com alguma dor, com algum sintoma, qual é a mensagem que ele nos está a dar? O maior benefício é entender que o corpo é nosso aliado, é a nossa casa, ele trabalha para nós.

Integrall: Mas e se as pessoas não sabem interpretar a mensagem?
Mariana Veiga: Não precisam, basta tirarem um minuto por dia para perceberem se estão a respirar bem- é algo muito básico -, e se houver alguma coisa a incomodar, mesmo que não tenham a resposta, que não saibam interpretar, é só parar e dar atenção e perceber que parte sua está pedindo ajuda, há uma falta a acontecer. Esse para mim foi o grande o grande resultado de entender o corpo como aliado, de entender o seu papel no sistema: é para que nos responsabilizemos e nos mantenhamos saudáveis.
“Cuidar do corpo não é só ginástica, comer bem, beber água e dormir bem, é estar ligado a ele, perceber se existe alguma tensão e entender que o corpo está a conversar connosco”
Integrall: Mudou-se para Portugal no início do ano. A que se deve essa mudança?
Mariana Veiga: Ao início, eu achei que era porque o meu marido queria muito – uma parte minha ainda acredita nisso, que eu vim porque ele quis -mas, hoje, eu entendo que foi para, de alguma maneira, expandir o meu olhar, expandir esta mensagem e principalmente, para provar a mim mesma que tenho coragem de fazer mudanças independentemente da idade. Era algo que talvez estivesse dentro de mim, porque ouvi muitos pacientes a quererem fazer mudanças na vida, a quererem separar-se, a quererem mudar de trabalho, mudar de bairro e a dizerem: “já não tenho idade para isto”. Então, havia alguma coisa dentro de mim que também devia pensar nisso, senão eu não ficava a escutá-los. Assim, mudei porque nunca é tarde para mudar ou experimentar algo novo e também, para movimentar o meu sistema: corporal, de crenças, familiar.
Integrall: Com a mudança para Portugal, continua a fazer sessões à distância para os seus pacientes no Brasil?
Mariana Veiga: Eu sempre tive muitos pacientes na Europa, mas em Portugal não. Eu continuo a atender online – esse foi o grande benefício da pandemia, portanto, agora, foi só mudar de país, porque os teus pacientes continuam. continuam.
A mudança de país serviu, também, para eu perceber que posso adaptar-me e fazer mudanças no meu tipo de atendimento.
“O corpo é a linguagem do inconsciente”
Integrall: Quem é que procura o seu trabalho?
Mariana Veiga: De um modo geral, muitas mulheres que querem fazer mudanças.
Integrall: Que tipo de mudanças?
Mariana Veiga: Todo tipo de mudanças, mas há algo que me chama muito à atenção: procuram-me mulheres, na perimenopausa, que estão cansadas de fazer sempre a mesma coisa, devido ao status quo, que querem mudar de emprego, pois, agora, sentem-se no direito de fazer o que gostam, o que as apaixona, só que têm travas, por vezes, familiares, que estão no corpo. Então, há exercícios que se pode fazer para dar informações ao corpo e não só, porque essas travas estão, também, guardadas no inconsciente – o corpo é a linguagem do inconsciente.

















