As feridas intrauterinas e as consequências que (podem) ficar para o resto da vida foram o tema da palestra que abriu o simpósio “Bebés Felizes, Encarnações Plenas”, organizado pela AlmaSoma para a EUROTAS, que decorreu em S. Domingos de Rana.
O impacto das feridas precoces na formação da identidade foi o tema da primeira palestra do Simpósio, trazido por Franz Ruppert, professor de Psicologia na Universidade de Ciências Aplicadas de Munique, na Alemanha e psicoterapeuta, com um trabalho pioneiro desenvolvido na compreensão das dinâmicas do trauma.
“O útero é a nossa primeira casa” começou por dizer: “sabemos que o que causa stress à mãe, causa stress ao bebé”, citando estudos, com bebés no útero, que revelam que “eles começam a sentir muito cedo, assim como, começam cedo, os processos cognitivos”, Por isso, “os bebés não são apenas um corpo, são um ser humano, no início de vida e começam a ter trauma nessa altura”, esclareceu.

Além do trauma poder começar logo na barriga da mãe, Franz Ruppert explicou que o próprio “processo de nascimento pode ser traumatizante, sobretudo, se não for um parto natural. Por vezes, os bebés ficam presos no canal de parto e têm de ser puxados a ferros. A pessoa fica com imenso medo de morrer”. Esta é, apenas, uma das consequências que podem advir de um parto não natural. Mas os exemplos não ficaram por aqui.
“As cesarianas só são necessárias em três a cinco por cento dos partos, mas há médicos que o fazem de uma forma quase rotineira”
O professor de Psicologia adiantou que “os partos por cesariana são, também, bastante traumatizantes, resultando, muitas vezes, no hábito de a pessoa começar alguma coisa e esperar que alguém a termine por si”. De acordo com o especialista, “as cesarianas só são necessárias em três a cinco por cento dos partos, mas há médicos que o fazem de uma forma quase rotineira”, defendendo que “só devem ser feitas se for estritamente necessário, quando há uma urgência, porque não são uma forma natural de dar à luz um bebé”.
Franz Ruppert salientou, também, que “o primeiro contacto epidérmico do bebé com a mãe, sentir o seu cheiro, o seu hálito é uma fase muito importante entre ambos”. Um vínculo que, “se for saudável, dá ao bebé, por exemplo, capacidade de tolerância, mas se não for, pode ter consequências negativas para o resto da vida”, frisou, acrescentando que “logo após o nascimento, é muito importante dar peito para estreitar a ligação com a mãe; mas para o bebé perceber que a sua sobrevivência está garantida”.
Consequências de um parto prematuro
Franz Ruppert, que é também o criador da Teoria e Terapia de Psicotrauma Orientada para a Identidade, partilhou ainda, com a audiência, as consequências de um parto prematuro: “se o bebé ficar na incubadora, sente-se sozinho, abandonado e há muita dor no seu corpo. Para muitos dos meus clientes, foi muito duro tolerar essa dor, essa separação e uma das estratégias de sobrevivência é não sentirem nada, evitarem os sentimentos”, alertou.
Já quando há um aborto espontâneo, o professor universitário afirmou que “deixa a mãe traumatizada na gravidez seguinte, o que dificulta o vínculo entre ela o bebé. A própria mãe já sofre, ela mesma, um “psicotrauma” sublinhando que o facto de os bebés poderem entrar em contacto com os sentimentos do trauma da mãe faz com que “mais adiante na vida, possam ter sentimentos de culpa e de vergonha, os quais sabemos que não são originais, mas, sim, efetivamente, resultantes do trauma materno”.

Como prevenir o trauma precoce?
Foram muitos os exemplos, ao longo da palestra e que podem resultar “numa perda do sentido da vida”, nomeadamente, quando há “separação da mãe no início da vida, por exemplo, se tiver que ser operada logo após o parto”, ou quando o bebé tem de ir muito cedo – com seis meses – para o jardim de infância ou ainda quando “é negligenciado depois do nascimento”. Não obstante, Franz Ruppert garante que “é possível prevenir o psicotrauma precoce”. Desde logo, afirmou: “tem de haver uma decisão clara sobre se a pessoa quer realmente ser mãe”. Se sim, durante a gravidez, “tem de haver um contacto entre a mãe, o pai e o bebé”. Além disso, “é importante que haja apoio às grávidas, que elas saibam que podem confiar nos seus corpos e dar à luz de uma forma natural”, porque, afinal, o parto deve ser uma experiência de sucesso”.
“O parto deve ser uma experiência de sucesso”
Bernardette Blin, psicóloga clínica e psicoterapeuta transpessoal, “mergulhou” no período antes do nascimento, nomeadamente, nas matrizes perinatais, que descrevem a viagem do feto, desde a conceção até ao nascimento. Uma dessas matrizes, explicou, é o facto de “a vida intrauterina ser um oceano simbiótico com a mãe. Quando tudo corre bem, o bebé sente calma e apoio, mas, por vezes, tal não acontece, podendo haver perturbações/complicações, que irão afetar o feto – tudo o que afeta a mãe, afeta o feto e quando ela age ‘contra’ ele, isso dificulta a integração e cria um sentimento de ansiedade e de não ser desejado no sentido de uma encarnação plena”.
O início do parto é outra das matrizes, “quando começam as contrações e o saco amniótico poderá ter-se rompido”. Nesse momento, “o feto sente uma pressão, comparada a 50 quilos e cada contração causa um choque – é uma experiência de impotência total, de desespero, de aniquilação. O feto sente que antes estava tudo bem e que agora está num ‘inferno’. A nível psíquico, sente-se preso numa armadilha, sente perda de confiança nos outros e na vida”, descreveu.

“A luta pela vida: quando a dor atinge o máximo”
A terceira matriz é a luta pela vida. Nesta fase, segundo a especialista, “a dor atinge o máximo, mas, depois, o colo do útero abre-se e começa a empurrar. É um evento poderoso e o feto não sabe como lidar com ele. Sente uma integração insuficiente, pelo que, tende a experiências intensas na vida. Concluída a passagem, dá-se a primeira respiração. A nível psíquico, “o feto sente expansão e sente que conseguiu, mas pode também ter sido traumático o fim do perinatal e o início biográfico. As primeiras horas de vida podem deixar marcas duradouras”, adverte.
Caminhos somáticos para feridas mais precoces
Dana Fernandes, psicoterapeuta somática, teve uma abordagem somática sobre as feridas mais precoces e começou a palestra convidando a audiência a pôr-se de pé e a movimentar o corpo. Quando o público se sentou, explicou que “o mais importante na vida é a nossa atenção”, pelo que, de seguida convidou as pessoas a sentirem a cadeira onde estavam sentadas. Com o exercício, quis mostrar que o” movimento existe no corpo constantemente”, recordando que “nós próprios éramos uma célula, que se tornou em duas, em quatro, em oito e assim sucessivamente, até formarem o corpo”, partilhando que, na sua lente somática, “este movimento de expansão e contração continua durante toda a vida, na união, na junção e na individualidade”.
“No segundo trimestre de gravidez não há memória: o corpo da mãe é o corpo do feto”
A psicoterapeuta somática adiantou que, na linha temporal, “há portais e fases importantes, que se cruzam ente si” e que ajudam “a perceber em que estádio de trauma precoce o bebé se encontra”. O primeiro portal, disse, “corresponde ao segundo trimestre de gravidez, em que não há memória: o corpo da mãe é o corpo do feto. A experiência é conjunta, não há separação”. Não há memória, enfatizou, “mas há uma hipersensibilidade do sistema e há impacto no sistema nervoso, músculos, tecidos moles. O que importa, nesta fase, é que tudo acontece perto das células cerebrais”.
O segundo portal é o do nascimento e o terceiro, a que chamou “’a janela do apego’, acontece logo após o nascimento. Trata-se da necessidade “de nos apegarmos como um macaco à sua mãe macaca. É uma fase em que impulsos começam a criar ligações para o resto da vida”, avançou.
De acordo com Dana Fernandes, o quarto portal vai desde o primeiro mês até ao ano e meio e é “justamente a altura em que o bebé começa a aprender as suas necessidades e a ligar-se aos seus ritmos”.
Apesar de todo o conhecimento sobre esta caminhada do ser humano, a psicoterapeuta partilhou a sua experiência, em consultório, reconhecendo que “os pais estão tão assoberbados que não conseguem perceber a fase em que se encontra o seu bebé e por isso, às vezes, é difícil ver para lá das defesas construídas”. No final, deixou um conselho aos terapeutas presentes: “não é uma história, é uma experiência corporal vivida”.


















