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Início Desenvolvimento Pessoal

“Nunca (me) questionei porque é que nasci assim”

por Sandra Xavier
Junho 18, 2026
em Desenvolvimento Pessoal
Paulo Azevedo protagoniza um naufrago na peça "O Tamanho das Coisas"/ Créditos Estelle Valente, EGEAC – Teatro Variedades & Capitólio

O ator Paulo Azevedo em cena na peça "O Tamanho das Coisas"/ Créditos: Estelle Valente, EGEAC – Teatro Variedades & Capitólio

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O que era para ser um fim, foi apenas um intervalo. Depois de dois anos e meio de digressão nacional e internacional, “O Tamanho das Coisas” terminou no Teatro Variedades, em Lisboa, para, agora, continuar por mais cidades portuguesas, de modo a atender às solicitações.
Da autoria de Marco Paiva com texto de Alex Cassal e produzida pela Terra Amarela, a peça é protagonizada por Paulo Azevedo, mentor e autor do livro “Não Há Impossíveis”. Em entrevista ao Integrall, o ator fez o balanço do espetáculo e antecipou o que se segue. No próximo dia 20, vai estar em cena, na Moita.

Integrall: Este monólogo foi criado à tua medida?

Paulo Azevedo: Não sei se foi criado à minha medida ou não, é um monólogo cheio de desafios que eu tenho que que superar em palco. Parece um bocadinho a minha vida cheia de altos e baixos, mas não foi um espetáculo criado especificamente para mim. Eu fui escolhido para este espetáculo, que poderia ser feito por outro ator, sem qualquer tipo de condição.

“Também nós andamos um bocadinho à deriva sem saber para que lado vamos”

Integrall: O papel assenta-te que nem uma luva porque tu és a prova viva de que as dificuldades da vida são para ultrapassar e não para bloquear…

Paulo Azevedo: Sem dúvida e o náufrago da peça passa por dificuldades que, às vezes, nós também passamos na vida, porque também nós andamos um bocadinho à deriva sem saber para que lado vamos, por isso, sim, assenta-me que nem uma luva porque durante uma hora e 10 minutos eu estou a superar obstáculos e conquistar vitórias e desafios.

“É uma travessia mental como tantas outras”

Integrall: Como por exemplo?

Paulo Azevedo: Como por exemplo, o facto dele perder um dos remos e saber que, se não for buscar o remo, não chega ao destino. Então, há toda uma procura de soluções. Ao longo do espetáculo, o público percebe que não se trata da questão física de perder um remo, mas, sim, da dimensão que nós damos aos problemas da vida, aos sentimentos, aos amores – esta travessia que ele faz é uma travessia mental, como tantas outras.

Integrall: No momento em que o náufrago perde um dos remos, ele oscila entre recuperar o barco arriscando-se a perdê-lo ou continuar sem ele num momento de questionamento pessoal. Olhando para a tua vida, questionaste-te muitas vezes?

“Tantas vezes me questionei se devia esperar que a sorte me caísse no colo”

 Paulo Azevedo: Claro que sim. Tantas vezes que eu “perdi os remos” ao longo da minha vida, tantas vezes me questionei se valia a pena ir à procura deles ou se mais valia deixá-los à deriva e esperar que a sorte me caísse no colo ou desistir – pensei nas três possibilidades.

Integrall: Alguma vez te questionaste sobre o facto de teres nascido sem membros?

Paulo Azevedo: Não, por acaso nunca me questionei e é engraçado que há um capítulo do meu primeiro livro, que se chama “Eu sonho como sou” – no meu subconsciente, eu podia sonhar que tinha pernas ou braços, mas eu nunca me sonhei de outra forma, nunca. Num sonho eu posso ser quem eu quiser, mas eu nunca me sonhei de outra forma, é engraçado e nunca me questionei porque é que nasci assim. Aliás, eu só soube, cientificamente, porque é que eu tinha nascido assim na altura que eu tive o meu primeiro filho, quando me fui informar se seria possível ele nascer como eu. Só nessa altura  é que fui buscar o meu dossier e me explicaram porque é que eu tinha nascido assim.

 “Só quando tive o meu primeiro filho é que soube cientificamente porque nasci sem braços e sem pernas”

Integrall: Foi porquê?

Paulo Azevedo: Foi devido a uma má alimentação do feto – as teias amnióticas cortaram o impedimento do crescimento dos membros.

Integrall: Esta peça questiona se a importância das coisas pode ser medida pelo seu tamanho. O que é que te parece?

Paulo Azevedo: Eu passo por isso, fisicamente, ao longo do meu dia-a-dia. Quando acordo de manhã e chego à minha cozinha vou sem próteses – tenho que puxar um banco para chegar ao microondas ou ao fogão. Quando vou com as próteses, tenho as coisas mais baixas, porque estive lá de manhã sem próteses, então a dimensão já é outra, ou seja, ao longo do meu dia-a-dia a escala aumenta muitas e muitas vezes.

Foto do ator Paulo Azevedo publicada no site do Teatro Variedades/DR
Foto de Paulo Azevedo publicada no site do Teatro Variedades/DR

Integrall: Recordas-te do momento em que tiveste consciência de seres uma pessoa diferente?

Paulo Azevedo: Eu acho que sempre tive consciência de ser uma pessoa diferente e a minha família sempre me incutiu isso: que eu era uma pessoa diferente, não inferior, que é o mais importante. Mas sempre tive a consciência, desde muito pequenino, que era uma pessoa diferente.

 Integrall: Tens noção de que idade tinhas quando te apercebeste que, a nível físico, não eras igual às outras crianças?

Paulo Azevedo: Não tenho noção, mas tive muitas dores na adaptação às primeiras próteses.

“Não há ninguém, a nível europeu, com um grau de prótese total e com uma adaptação a 100% como eu”

Integrall: Como é que te sentiste quando colocaste as próteses?

Paulo Azevedo: Assim que me pus em cima das próteses, pensei logo: “é aqui que eu quero estar”, porque via o mundo numa perspectiva diferente, mais alta, apesar do calejar do corpo ser muito doloroso.

Um estudo recente refere que não há ninguém, a nível europeu, com um grau de prótese tão grande e com a liberdade que eu tenho. Aliás, usam o meu caso como exemplo em colóquios de fisiatria, porque, de facto, não há ninguém com um grau de prótese total e com uma adaptação a 100% como eu;  há pessoas que põem próteses, mas não conseguem caminhar nelas, estão ali só esteticamente, mas não usufruem. Ainda hoje tenho as marcas negras nas virilhas das dores que elas me provocavam.

“A minha dimensão e o meu tamanho nunca me impediram de chegar aonde quis”

Integrall: A tua condição alguma vez te impediu de realizar algum dos teus sonhos?

Paulo Azevedo: Quando era miúdo sonhava que queria ser piloto de aviões – se calhar agora até conseguia – lembro-me de, numa viagem longa, ter ido ao cockpit e o piloto me ter escrito um papel a dizer: “pode ser que um dia os aviões se conduzam com a mente”.  Mas, a minha dimensão e o meu tamanho nunca me impediram de chegar onde quis.

Integrall: Nem nunca dificultaram o sonho que o teu pai tinha para ti de te tornares jogador de futebol profissional?

Paulo Azevedo: Entrei nesse sonho de outra forma: ensinei a jogar futebol.

“A maior parte dos clubes portugueses não queriam que eu estagiasse lá”

Integrall: Estagiaste no Real Madrid de José Mourinho. Como é que foi o teu percurso até receberes aquele email do “Special One”?

Paulo Azevedo: Foi um percurso de muitos “nãos”, porque a maior parte dos clubes portugueses não queriam que eu estagiasse lá.

“Entrei no Real Madrid (de José Mourinho) e aí percebi que não é a dimensão de um clube, é a dimensão do coração da pessoa que está à frente (dele)”

 Integrall: Porquê?

Paulo Azevedo: Não sei. Ou não estavam preparados para receber alguém diferente ou então, não havia essa vontade, mas, depois, eu entrei no Real Madrid e aí percebi que não é a dimensão de um clube, é a dimensão do coração da pessoa que está à frente.

Integrall: Neste caso, referes-te ao José Mourinho…

Paulo Azevedo: Claro. Imagina: um clube do meio da tabela portuguesa disse-me que “não” e o Real Madrid, que é “só” um dos melhores clubes do mundo, disse-me que “sim” porque tinha uma pessoa com uma mente aberta para isso e com um coração do tamanho do mundo.

Integrall: Como é que foi nesse momento?

Paulo Azevedo: Foi assustador. Quando vi o email eu nem queria acreditar e depois, quando encontrei o (José) Mourinho –  aquela figura imponente  -assustei-me um bocadinho. Ele está sempre a testar, com ele não podes ser um “yes man”, mas é um ser humano incrível.

“Comecei a ir assistir aos jogos do filho dele e comecei a ver um José  Mourinho diferente do ‘mister’”

Integrall: Como é que ele te testou?

Paulo Azevedo: Primeiro, quando o cumprimentei, eu estava todo a tremer, estava muito nervoso. Depois, ele mandou-me contar a minha história – e eu conto isto nas minhas palestras –  e a primeira coisa que eu lhe disse foi que nasci assim, deficiente, ao que ele me respondeu: “deficientes são aqueles 26 que eu tenho dentro do balneário. Não digas isso porque eles têm tudo e estão sempre a queixar-se de tudo”.
Às vezes, ele pedia-me opiniões acerca de futebol e eu nem sempre concordava com ele  – às vezes, concordamos para agradarmos aos outros – mas, avisaram-me logo que eu não podia concordar sempre com ele e que se o contrapusesse, teria que dizer porquê e ele compreendia. Entretanto, comecei a ir assistir aos jogos do filho dele e comecei a ver um José  Mourinho diferente do “mister”.

Integrall: À semelhança do protagonista desta peça, tu também tiveste momentos em que quiseste desistir?

Paulo Azevedo: Claro, muitos. Quase todos os dias. Não desistir das minhas barreiras arquitetónicas, porque, nesse caso, se não conseguir sozinho, peço ajuda, mas desistir de alguns sonhos, desistir de algumas relações, desistir das circunstâncias da vida, não desistir da vida –  é diferente -, mas desistir de alguns caminhos e entrar por outros.

“Pedir ajuda é sinal de grandeza”

Integrall: Não tens problemas em pedir ajuda?

Paulo Azevedo: Nada, é um sinal de grandeza.

“Quando eu nasci, a minha mãe, com 16 anos, disse: ‘podia ser pior’ (…) Nada pode ser pior do que uma mãe ver que um filho nasce sem mãos e sem pernas e destrói os sonhos”

 Integrall: De onde é que vem a tua força interior?

Paulo Azevedo: Quem me construiu: os meus heróis, a minha família, a minha mãe que, com 16 anos, quando eu nasci disse: podia ser pior. Nada pode ser pior do que uma mãe ver que um filho nasce sem mãos e sem pernas e destrói os sonhos. A partir do momento em que ela diz, com 16 anos, que podia ser pior, eu não me posso queixar de nada, não posso porque está tudo na minha mente.

 Integrall: “O tamanho das coisas” pergunta até onde é que vai a utopia de que os heróis resistem infinitamente ao próprio cansaço. Resistem mesmo?

Paulo Azevedo: Resistem. Ainda ontem arranquei às 5h30 da manhã de Lisboa para fazer uma palestra em Bragança e voltei de Bragança para Lisboa para vir fazer um espetáculo, de rastos, mas transformei-me e tive força contra o cansaço para que as pessoas me vissem em palco.

Integrall: Além de ator, tu és autor do livro: “Não Impossíveis”. Esta obra fala do exemplo de superação que tu és?

Paulo Azevedo: Fala, mas não só do meu. Fala do exemplo de superação da minha mãe, dos meus avós, dos meus amigos, de quem me construiu, é muito mais abrangente do que só o meu exemplo de superação.

“Se eu hoje consigo andar em cima das minhas próteses é graças ao meu avô (…) os médicos diziam que eu nunca me conseguiria sentar e o meu avô, todos os dias, me obrigava a sentar-me em cima de uma tábua com um cinto igual ao das próteses”

Integrall: Apesar de acreditares que não há limites aos sonhos de cada um defendes que é necessário que alguém nos ajude a perceber qual o caminho certo.Tu encontraste essa pessoa na tua família e no teu avô em particular?

Paulo Azevedo: Sem dúvida, o meu avô foi das pessoas mais importantes da minha vida. Se eu hoje consigo andar em cima das minhas próteses é graças ao meu avô, porque os médicos diziam que eu nunca me conseguiria sentar e o meu avô, todos os dias, me obrigava a sentar-me em cima de uma tábua com um cinto igual ao das próteses. Os médicos diziam que eu ia sempre cair para frente, que nunca conseguia, mas o meu insistiu tantas vezes que, um dia, eu fiquei sentado breves segundos e foi a partir daí que dependeu de mim.

Integrall: Tu acumulas a carreira de ator com palestras e mentorias. A quem se dirigem?

Paulo Azevedo: A todo o tipo de público, porque o que eu faço não é uma mentoria, é um storytelling, eu conto uma história, que podia ser a tua história. Eu não sou nenhum coach, não digo aquilo que as pessoas têm de fazer, embora haja ferramentas implícitas no meu discurso para não desistirem daquilo que querem.

Eu vou a empresas, a escolas, instituições – conto uma história real e verdadeira.

“Difícil não significa impossível e desistir só depende de cada um”

Integrall: Que lições é que as pessoas levam depois do teu storytelling?

Paulo Azevedo: Acima de tudo que o difícil não significa impossível e que o desistir depende só de cada um.

“Recebi uma mensagem de um jovem que dizia: ‘saí de casa com o intuito me suicidar na linha de comboio. Eu estava parado, à beira da linha, à espera e peguei no telefone para mandar uma mensagem de despedida à minha mãe e sem querer abri um vídeo teu: vi o primeiro, vi o segundo, vi o terceiro e o comboio passou’”

 Integrall: Já assististe a muitas mudanças na vida das pessoas que acompanhas?

Paulo Azevedo: Vou dar-te o exemplo mais concreto sobre a responsabilidade que sinto cada vez que dou uma palestra. Eu dou muitas palestras em África e no Brasil e um dia, estava a embarcar para Angola e recebi uma mensagem no Facebook, que tinha ido para spam (lixo), por isso, eu não a tinha visto e não era amigo dessa pessoa. Um jovem com cerca de 23 anos mandou-me uma mensagem longa, que dizia: “há três semanas, saí de casa com o intuito me suicidar na linha de comboio. Eu estava parado, à beira da linha, à espera e peguei no telefone para mandar uma mensagem de despedida à minha mãe e sem querer, numa das redes sociais, abri um vídeo teu: vi o primeiro, vi o segundo, vi o terceiro e o comboio passou”. Esta história marcou-me de uma maneira que não imaginava.

Integrall: Quem é que te procura para as mentorias?

Paulo Azevedo: Toda a gente. Já passei por todo o tipo de empresas, em Portugal, escolas, universidades. Não há um público específico. Eu consigo adequar o meu discurso, seja a crianças, seja a adultos, por isso é que sou tão abrangente e vou a tantos lados.

“Já cheguei a estar duas a horas a responder às perguntas das crianças”

 Integrall: Como é que as crianças reagem quando te veem?

Paulo Azevedo: É engraçado que os adolescentes fazem muito poucas perguntas, porque têm vergonha e mandam-mas pelas redes sociais, mas as crianças, não. Quando eu dou uma palestra, abro-a a perguntas e já cheguei a estar duas horas só a responder às perguntas dos mais pequenos.

Integrall: Que perguntas é que as crianças te fazem?

Paulo Azevedo: Elas fazem-me todo o tipo de perguntas, querem mexer-me nos braços, querem saber de tudo um pouco: como é que eu tomo banho, como é que eu me penteio. Houve um miúdo com cinco anos que me perguntou: “como é que os seus filhos olham para si?” – e foi muito bonito.

 “O meu filho disse-me: ‘pai, se entrasses agora em casa de mãos, eras um verdadeiro deficiente’”

Integrall: O que é que lhe respondeste?

Paulo Azevedo: Eu disse-lhe que os meus filhos olham para mim como para qualquer outro pai. Aliás, há uns anos, o meu filho disse-me: “pai, se entrasses agora em casa de mãos, eras um verdadeiro deficiente”. Por isso, eles olham para mim de uma forma natural.

“O Tamanho das Coisas” foi o meu maior desafio como ator (…) Estar sozinho em palco é assustador e gratificante ao mesmo tempo”

Integrall: A tua condição não te impediu de singrar e de construir uma carreira no teatro e na televisão. Que balanço fazes da digressão, de quase três anos, da peça “O tamanho das coisas?”

Paulo Azevedo: “O Tamanho das Coisas” foi um desafio tremendo, aliás, foi o meu maior desafio como ator, porque é um monólogo de uma hora e 10 minutos. Estar sozinho em palco é assustador e gratificante ao mesmo tempo. Tem sido uma jornada muito bonita, nós já viajamos por mais de 40 ou 50 cidades e vilas. Fomos ao Uruguai, a São Tomé e Príncipe a Cabo Verde, tem sido uma jornada muito bonita, que termina em beleza, mas só na teoria, porque, na prática, já temos mais espetáculos marcados. Assim, em teoria terminávamos no “Teatro Variedades”, em Lisboa, mas vamos continuar com outros espetáculos e até eu ter forças, vou continuar com este náufrago – esta peça vai andar em cena ainda este ano e em 2027.
Esta peça tem uma particularidade: em todos os locais a que vamos, há um workshop de escrita pelo autor, Alex Cassal, uma semana antes do espetáculo, onde as pessoas daquela vila ou cidade escrevem o final da peça, que eu não sei. Então, no fim, eu recebo uma mensagem, como um náufrago, com a solução para o meu problema.

Integrall: O que se segue?

 Paulo Azevedo Em 2028, vamos fazer “O Fim das Coisas”, que é um espetáculo encenado sobre as cartas finais, que me escrevem sobre “O Tamanho das Coisas” – vai ser muito bonito.

Tags: "O Tamanho das Coisas"Paulo AzevedoTeatro Variedades

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