Durante três dias, caminhadas, palestras, workshops, oficinas, artesanato, massagens, terapias, concertos e produtos biológicos fizeram da Quinta da Ribafria, em Sintra, o palco de mais um Encontro de Alternativas.
Fundado por Tila Barracosa e produzido pela filha, Maria Barracosa, da associação “Voando em Cynthia“, as responsáveis explicaram, ao Integrall, porque é que, ao fim de 21 anos, continuam a fazer deste um evento gratuito: “é o contributo que temos para dar à sociedade e a raiz que podemos deixar a germinar para gerações futuras”.
Integrall: Este foi o 21º encontro de alternativas. Qual o objetivo?
Maria Barracosa: O trabalho desenvolvido, nestas duas décadas, tem sido sempre no sentido de contribuir para a comunidade, para lhe oferecer uma variedade de programação e de contacto com projetos alternativos, que não são recorrentes, que não se encontram em todo o lado, mas que, na maioria, quando acontecem é de uma forma não acessível para o grande público. Portanto, o objetivo é oferecer a hipótese de todos os públicos conseguirem conhecer e ter contato com aquilo que é a nossa programação dentro do mundo das alternativas.
A Quinta da Ribafria, em Sintra, recebeu o 21º Encontro de Alternativas/DR
“O Encontro de Alternativas não é uma feira, é um encontro de pessoas e sabedorias (…) é uma mostra de projetos alternativos”
Integrall: Como é que surgiu a ideia?
Tila Barracosa: Há 26 anos, eu projetei este evento para um curso de animadora cultural para a câmara de Sintra e um dos projetos que apresentei foi precisamente o Encontro de Alternativas em Sintra, pois tinha essa experiência e quis trazer isso para Sintra. Depois, o projeto andou metido na gaveta durante cinco anos, até que, teve a oportunidade, a convite da autarquia de vir à luz do dia. A partir daí, o primeiro correu bem, viram que era, realmente, um bom projeto e aqui estamos há 21 anos. Temos evoluído sempre e atualmente já é um grande evento, é uma mostra de projetos alternativos. O Encontro de Alternativas não é uma feira, é um encontro de pessoas e sabedorias.
“Não queremos marcas, queremos que as pessoas acedam a isto gratuitamente”
Integrall: O evento é gratuito…
Tila Barracosa: Durante estes 21 anos, continuamos a cumprir: não queremos marcas, queremos que as pessoas acedam a isto gratuitamente – fazemo-lo com uma verba muito reduzida de apoio da câmara de Sintra e queremos continuar a lutar para seja aberto a todos. Os projetos são todos escolhidos a dedo e de extrema qualidade, por isso, somos considerados com um trabalho de excelência.
“Nós nascemos com uma missão e esta é a minha”
Integrall: Sendo artista plástica, donde surgiu a vontade de organizar um evento como este?
Tila Barracosa: Essa vontade esteve sempre comigo, desde pequena sempre gostei de organizar coisas e de pôr as pessoas a fazer coisas – nós nascemos com uma missão e esta é a minha.
“É o contributo que temos para dar à sociedade e a raiz que podemos deixar a germinar para gerações futuras”
Integrall: Há pouca gente a fazer esse trabalho pro bono. Porque continuam a fazê-lo?
Maria Barracosa: Somos loucas e as pessoas que oferecem o seu trabalho à comunidade estão na mesma sintonia que nós, porque, é como a minha mãe dizia: é uma missão, é o contributo que temos para dar à sociedade e a raiz que podemos deixar a germinar para gerações futuras. A minha filha tem cinco anos e já anda aqui. Este projeto não faz sentido se não for assim, se não for todo gratuito, porque senão as pessoas não vêm. O que acontece todos os dias é que há workshops, há oficinas, há palestras, mas são circunscritas a um número limitado de pessoas, portanto esta acessibilidade, esta gratuitidade tem que se manter.
Tila Barracosa: Podíamos ter entrada paga, mas eu projetei-o assim. Acho que, em Portugal, é o único evento gratuito dentro deste leque de projetos, que também se oferecem nesse sentido.
Quando as propostas nos chegam são automaticamente informadas de que a troca aqui é a projeção, o espaço e a rede que se cria entre as pessoas. Integrall: Quantas pessoas têm passado por aqui nos últimos anos?
Tila Barracosa: Muitas. Não podemos calcular porque sendo de entrada gratuita, não fazemos a contagem das pessoas, mas já passou por aqui muita gente e inúmeros projetos nas mais variadas artes: música, teatro, atividades para crianças, práticas de Tai Chi, meditações, caminhadas, palestras, workshops, oficinas.
O Encontro de Alternativas 2026 teve mais de uma centena de participantes/DR
“Gostamos de abrir espaço para novos projetos, que precisem de se mostrar”
Integrall: Quantos expositores estiveram presentes na edição deste ano?
Maria Barracosa: No total, tivemos 121 participantes. Este não é um evento para massas, portanto, nunca escolhemos muitas pessoas. Este ano, estiveram quatro projetos de alimentação vegetariana e vegana, dez de massagens e terapias e 30 projetos de artesanato de autor, de produtos biológicos de cosmética natural, de tambores xamânicos artesanais e tivemos, também, uma empresa de purificação de água do concelho de Sintra, que foi uma novidade em relação ao à edição do ano passado. Raramente repetimos, todos os anos a programação é diferente e mesmo no caso dos artesão, são peças únicas, eles nunca repetem nada. Gostamos de abrir espaço para novos projetos, que precisem de se mostrar. Na edição deste ano, tivemos cá o Rui Martins, que agora tem um projeto de música e que começou connosco no primeiro Encontro de Alternativas, ainda no espaço da Biblioteca Municipal, como terapeuta. Foi nesse ano que ele começou a ser massagista e a fazer os seus cursos, foi-se aperfeiçoando ao longo do tempo e hoje, tem um centro de terapias e isto repete-se – temos a clara noção de que o Encontro de Alternativas mexe com o caminho de muitas pessoas e muda a vida de muita gente.
“O Encontro de Alternativas mexe com o caminho de muitas pessoas e muda a vida de muita gente”
Integrall: O que é que as pessoas procuram no Encontro de Alternativas?
Maria Barracosa: Eu sinto que 80 por cento das pessoas já vêm a saber para o que vêm, vão diretas às atividades. Os outros 20 por cento vêm porque alguém lhes falou e vêm tentar perceber o que é que se passa, mas, maioritariamente, posso dizer já temos um público criado. Conseguimos ter uma bolha direcionada de pessoas que já sabem que este evento tem um determinado tipo de programação, todos os anos, dentro de determinadas áreas. Recebemos pessoas de todo o país e inclusive, do estrangeiro.
Integrall: É um evento para todas as idades?
Tila Barracosa: Sim, desde crianças até pessoas mais velhas, passando por grávidas.
Os momentos musicais foram uma constante no Encontro de Alternartivas/DR
“Normalmente, as pessoas vão de corações cheio”
Integrall: O que é que as pessoas levam daqui?
Tila Barracosa: Normalmente, as pessoas vão de corações cheio e gostam muito. Além disso, a Quinta da Ribafria é muito bonita, é uma quinta quinhentista e tem uma energia muito especial. A Fundação e a câmara municipal de Sintra são os nossos maiores apoiantes, coprodutores, assim como a União das Freguesias e ajudam-nos com o licenciamento, materiais, vários sistema de som e depois cedem-nos o espaço. A junta de freguesia dá-nos, também, um apoio importante,
Integrall: Há cada vez mais pessoas preocupadas com temáticas relacionadas com sustentabilidade e bem-estar?
Maria Barracosa: Sim.
“Tem que haver estes escapes para as pessoas acordarem”
Integrall: Sendo o Encontro de Alternativas conhecido por promover e explorar esses temas, ainda faz sentido dizer que são alternativos?
Tila Barracosa: Faz. Tentamos ir sempre pelas coisas mais orgânicas e pelos projetos mais próximos da comunidade e não uma coisa tão plastificada como é normalmente a vida das pessoas – isto é uma minoria, porque, ao fim e ao cabo, continuamos a trabalhar para minorias se as maiorias não vêm é por opção delas. A maioria das pessoas está dedicada ao que está formatado, está tudo formatado, fazem o que lhes dizem para fazer e nós queremos é que as pessoas voltem à sua essência, à sua raiz como seres pensantes que pensam pela sua própria cabeça, com o poder de ação, com poder de criação; é isso que queremos que não percam. As pessoas só vivem para trabalhar, para pagar as contas, têm vários empregos, andam stressadas, não conseguem estar com os filhos, não conseguem ir para o meio da natureza, isto está uma loucura tão grande tão que é bom que comecem a tomar consciência que não podem viver assim sob pressão. Portanto, tem que haver estes escapes para as pessoas acordarem, daí o tema deste ano ter sido: “Da consciência à ação”. Com o passar das ideias e valores para a prática do dia-a-dia.
Integrall: Uma frase para definir esta missão do Encontro de Alternativas?
Maria Barracosa: Todos juntos chegamos mais além, com amor.