A azáfama do dia a dia, aliada à preocupação com uma alimentação nutritiva e equilibrada levaram o casal de controladores aéreos, Leonor Casanova e Hugo Ângelo, a lançarem-se na aventura de abrir duas lojas de comida ultracongelada saudável, em Lisboa. Ambos já recorriam a comida congelada, mas o que havia no mercado não os satisfazia e o nascimento do terceiro filho impulsionou a decisão de criar o conceito da “Quase Quase”, que vai muito além da venda de refeições. O foco da marca é cuidar da pessoa como um todo. O Integrall esteve à conversa com o casal.
Integrall: O que é que leva um casal de controladores de tráfego aéreo a abrir duas lojas de comida saudável ultracongelada?
Quase Quase: O nosso terceiro filho tinha nascido há relativamente pouco tempo e estávamos naquela fase dura em que não há tempo para nada e por isso, recorríamos algumas vezes a refeições congeladas que havia no mercado, mas não nos satisfaziam, achávamos que não tinham grande qualidade nutricional e as doses eram pequenas. Além disso, as refeições vinham sempre naquelas cuvetes de alumínio horríveis que se colocam diretamente no forno. Apesar de ser controlador de tráfego aéreo há 20 e tal anos, eu sempre tive vontade de ter um negócio próprio e a Leonor, mesmo não tendo qualquer formação técnica na área, sabe imenso de nutrição. Então, no meu aniversário, em 2020, estávamos a almoçar os dois e surgiu a ideia de lançar um negócio que, muito honestamente, por total desconhecimento, achámos que era muito mais fácil do que foi na realidade. Pensámos que comprávamos um forno e, com mais umas coisinhas como aquelas que temos em casa, conseguíamos fazer umas refeições. O negócio foi crescendo, passámos de um investimento inicial de 30 mil/40 mil euros para 200 mil/300 mil euros e entretanto, já estava em andamento, mas nós éramos totalmente amadores, nunca tínhamos trabalhado num restaurante e desconhecíamos sequer o que era ter uma empresa em Portugal. Portanto, foi através do sonho que criámos a Quase Quase.
A vida agitada do casal de controladores aéreos levou-os a abrir duas lojas de comida ultracongelada saudável/ Créditos foto: Guillermo Vidal
“Queríamos transmitir a ideia de que é só mesmo aquecer uma coisa boa, não precisa de demorar muito”
Integrall: Porquê Quase Quase?
Quase Quase: Andámos muito tempo à procura do nome e a Leonor lembrou-se que “quase quase” é uma expressão que usamos muito, em Portugal, para qualquer coisa que está quase – estou quase quase aí, o jantar está quase quase – e ficou. O nome tem a repetição e é rápido porque, no fundo, queríamos transmitir a ideia de que é só mesmo aquecer uma coisa boa, não precisa de demorar muito tempo – já cozinhámos, já fizemos tudo, é só pôr a aquecer e está mesmo quase. Era uma expressão nossa muito carinhosa.
Integrall: Foi o facto de terem uma atividade profissional que vos consome muito tempo, juntamente com a vida familiar e também, a preocupação com a nutrição vos levou a lançarem-se nesta aventura?
Quase Quase: Sim e porque não encontrávamos aquilo de que gostávamos na oferta que havia na altura. Às vezes, cozinhávamos muito e congelávamos ou, então, comprávamos e congelávamos – a ideia era não estarmos muito tempo na cozinha. Apesar de gostarmos imenso de cozinhar, há dias em que, com três filhos de idades muito próximas, não dá. Por outro lado, entre as ofertas no mercado, em termos de comida pronta, nenhuma tinha caldo de ossos – nós usamo-lo em tudo – e muitas tinham ingredientes que não nos agradavam, ou porque tinham margarina ou porque tinham óleo de girassol, em vez de azeite, ou porque tinham uma série de conservantes ou corantes ou porque tinham farinha de trigo. Então, pensámos que dava para fazer isto, mas com qualidade.
“A nossa cultura é a de ser cuidadoso com o outro”
Integrall: É caso para dizer que já não vos chegava à profissão que têm…
Quase Quase: É verdade. Há dias que nos arrependemos, há dias que achamos que estamos no caminho certo, há dias que queremos fechar tudo e emigrar, há altos e baixos. Os primeiros dois anos foram muito duros, estivemos a preparar durante quase um ano até abrirmos, depois houve uma altura em que estabilizámos e conseguimos criar uma equipa muito boa, com a mesma cultura que nós queremos, que é a cultura de ser cuidadoso com o outro.
“Temos uma sala de descanso (no aeroporto): há quem a aproveite para ver televisão e nós lemos livros de gestão e de recursos humanos”
Integrall: Tiveram que montar um negócio do zero e a vossa profissão impede-vos de estar nas lojas a tempo inteiro…
Quase Quase: O conceito da “Quase Quase” merecia ter dois gestores profissionais a tempo inteiro, porque nós continuamos a fazer turnos, a trabalhar ao fim de semana, no dia de Natal, a fazer noites e portanto, nesse aspeto, houve uma necessidade acrescida, ao início, de contratar mais pessoas do que as que eram necessárias, mas fomos aprendendo. A nossa grande curva de aprendizagem foi, de facto, na gestão de pessoas: uma pessoa faz o melhor que consegue e acha que está a explicar bem, mas a outra tem um entendimento diferente e também está certo. Aprender como é que se motiva alguém levou-nos a ler muitos livros de gestão e de liderança. No aeroporto, os nossos colegas até gozam connosco, porque, no serviço, temos uma sala de descanso: há quem a aproveite para ver televisão e nós lemos livros de gestão e de recursos humanos. É uma aprendizagem muito pessoal, a gestão é um sítio solitário e por vezes, a pessoa tem que conseguir motivar quando só lhe apetece desistir.
A Quase Quase da Avenida de Roma, em Lisboa/ Créditos foto: Guillermo Vidal
Integrall: Quando é que abriram as lojas?
Quase Quase: A primeira foi a 12 de dezembro de 2022 e a segunda, a 21 de março de 2024. Houve um dia que eu saí daqui e fui trabalhar para o aeroporto e disse: “não está a dar, vamos dar em malucos, precisamos de outra pessoa para dividir, eu preciso de conseguir sair da cozinha, fazer outras coisas que têm que ser feitas” e o Hugo perguntou-me: “como é que vamos pagar a essa pessoa? A faturação do negócio que tem margens pequenas. Para faturarmos mais, temos que vender mais. Como é que vamos vender mais?” Para vendermos mais, tínhamos de ter onde colocar stock e por isso, tínhamos duas opções: ou alugávamos um contentor de congelados que custava 500 euros por mês ou víamos uma loja para arrendar. Foi o que aconteceu. Vimos um espaço em Campo de Ourique com uma renda de 700 euros, portanto, era um pouco mais caro, mas sempre era uma loja aberta, que não deixa de ser uma montra. Então, achámos que a segunda loja cumpre a sua função e permitiu-nos aliviar um pouco.
“A ultracongelação mantém as propriedades dos alimentos praticamente intactas (…) É o melhor conservante, sem recorrer a conservantes”
Uma das inúmeras sopas disponíveis na Quase Quase/ Créditos foto: Pedro Sadio
Interall: Com o conceito da Quase Quase pretendem alterar a forma como se encara a comida ultracongelada…
Quase Quase: A ultracongelação consegue o que não conseguimos com o congelador em casa, cuja temperatura está a -20°: nós colocamos lá a comida e ao fim de um dia, o centro interior dessa comida ainda não chegou a -20º porque, assim que congela, o gelo cria um isolante, que não deixa a temperatura negativa penetrar. No caso da ultracongelação, com máquinas própria que forçam o ar frio a entrar, essa congelação consegue-se em apenas duas horas. Tal evita que se formem cristais de gelo grandes, que são aqueles que rebentam com as células – por isso é que, às vezes, a comida descongelada, em casa, está meio aguada e em papa. O senhor que desenvolveu a tecnologia da ultracongelação trabalhou no Alasca ou no Canadá, onde pescou com os inuítes – povos indígenas que habitam as regiões árticas e reparou que eles pegavam no peixe acabadinho de pescar e punham-no na neve para congelar rápido. Achou aquilo um sacrilégio, porque pensava que o peixe congelado ia ficar uma porcaria, mas, qual não foi o seu espanto quando, meses depois, ao comer peixe, constatou que parecia acabado de pescar. Hoje, há imensos restaurantes que recorrem à ultracongelação porque mantém as propriedades dos alimentos praticamente intactas e é o melhor conservante, sem recorrer a conservantes, só precisamos de os manter no congelador. Então, na “Quase Quase“quisemos ter comida ultracongelada, que é a melhor forma de a preservar, como se tivesse sido acabada de fazer, mas, também, torná-la bonita, porque todo o nosso conceito gira à volta de uma experiência bonita: pessoas à mesa, com boa comida e boa apresentação, boa conversa com família e amigos.
“Temos muito cuidado na seleção dos ingredientes. Aqui não há batotas (…) não usamos ingredientes estranhos, esquisitos, conservantes”
Ao mesmo tempo, temos muito cuidado na seleção dos ingredientes Aqui não há batotas, como costumamos dizer. Não usamos ingredientes estranhos, esquisitos, conservantes. Essencialmente, as refeições são cozinhadas com muito caldo de ossos – que também vendemos nas lojas – e com ingredientes de verdade, como aqueles que as nossas avós e bisavós usavam há muitos anos.
Integrall: Também produtos biológicos e produtos de proximidade?
Quase Quase: Não só, mas também. Por exemplo, temos muitos produtos de pasto, que não são necessariamente biológicos, apenas porque não têm certificação biológica. Às vezes, ser “biológico” pode ser um engano. Por exemplo, os ovos são biológicos, mas a galinha come cereais ou não são biológicos, mas a galinha come couves e passeia ao ar livre, o que é melhor, mas não têm o carimbo biológico. É uma questão de bom senso. O nosso fornecedor de porco, por exemplo, tem um projeto que é o porco malhado de Alcobaça – uma raça portuguesa autóctone e que, por isso, está habituada ao nosso clima, às nossas terras, aos nossos restos de comida: sobram cascas de abóbora e vão para o porco, sobram cascas de ovos e vão para o porco, só que se a casca de ovo não tiver certificação biológica, então, o porco não pode ter certificado biológico. No entanto, nós preferimos 1000 vezes este fornecedor, nota-se uma diferença enorme na carne. Este é, também, um caminho das pedras, que tem de ser desbravado.
Integrall: Têm uma preocupação com a alimentação e também com a sustentabilidade?
Quase Quase: Sim.
“O caldo de ossos é a base das nossas refeições (…) Tem um aporte proteico maior do que a água e parte dessa proteína é na forma de colagénio: é maravilhoso para a pele, para as juntas e para as articulações”
Integrall: Que tipo de refeições é possível de encontrar na “Quase Quase”?
Quase Quase: O caldo de ossos é a base – há muito poucas refeições onde não o coloquemos. Eu até o queria pôr no bacalhau espiritual, mas depois a Inês, que trabalha connosco, lembrou-nos que há pessoas que não querem, de todo, comer carne. Mas, de resto, se um prato leva água, pode levar caldo de ossos. Por exemplo, lá em casa o peixe no forno leva sempre e fica maravilhoso.
Integrall: Porquê a preocupação com o caldo de ossos?
Quase Quase: O caldo de ossos tem duas funções espetaculares: um aporte proteico maior porque a água não tem proteína nenhuma e o caldo tem e grande parte dessa proteína é sob a forma de colagénio e por isso, é maravilhoso para a pele, para as juntas e para as articulações. Há quem ponha vinho branco no peixe assado no forno, mas não tem proteína nenhuma e o caldo de ossos dá-lhe esse extra de nutrição. Para além disso, dá um sabor maravilhoso à comida. Tudo o que leve umas pedrinhas de sal – até o nosso chocolate quente – é feito com caldo de ossos e não se nota.
É só tirar a sopa da embalagem e colocar no tacho/ Créditos da foto: Guillermo Vidal
Integrall: Que pratos se destacam?
Quase Quase: Entre os pratos de carne, a feijoada light com frango, caldo de ossos e um chouriço sem aditivos e o arroz de pato vendem muito bem.
Temos, também, a jardineira de borrego e o strogonoff com cogumelos em borras de café, que iriam para o lixo e que resultam de um projeto conjunto da empresa Nãm e da Delta.
Entre os pratos de peixe, têm muita procura a versão sem gluten do bacalhau espiritual e o empadão de atum fresco dos Açores, de um fornecedor com quem já trabalhávamos a nível pessoal.
“Queremos muito ter um caldo pós-parto porque é uma altura em que a mãe tem que estar quieta, mas, normalmente, nunca está”
Integrall: Têm uma nutricionista a trabalhar convosco?
Quase Quase: Sim, trabalhamos muito de perto com a Joana Moura e temos alguns projetos pontuais com outros nutricionistas, alguns que ainda estão na gaveta, como por exemplo, um ramen pós-parto com o doutor André Matias, que também defende muito esta linha. Queremos, também, muito ter um caldo pós-parto porque é uma altura em que a mãe tem que estar quieta, mas, normalmente, nunca está porque acha que é a supermulher e quando é velhinha, tem problemas, porque não esteve quieta naqueles dias. Os chineses têm uma tradição muito gira: nos 40 dias após o parto, a mulher fica sentada ou deitada e a mãe, as tias as avós vão, levam um caldinho e vão tomar conta dela e do bebé. No fundo, vão ajudá-la, porque o pós-parto é uma altura em que a mãe está vazia e aquele vazio tem que ser nutrido e preenchido. Eu fui essa mãe e hoje olho para trás e acho que precisava de colo, acho que devia tê-lo pedido e o caldo pós-parto representa muito esse colo, mas esse é um projeto que ainda está na gaveta.
Integrall: Ainda não deu à luz…
Quase Quase: Ainda não. Já tivemos umas experiências, mas o caldo ainda está na gaveta.
A Quase Quase é rigorosa na seleção de alimentos/ Créditos da foto: Guillermo Vidal
“Queremos ser uma marca com produtos que alimentam o corpo, a alma e a mente”
Integrall: A Quase Quase tem uma preocupação com a saúde, que não se limita à alimentação. Vendem, por exemplo, óculos bloqueadores da luz azul…
Quase Quase: A alimentação é um dos pilares principais, mas não é o único. A pessoa pode comer muito bem, mas se não tem algum respeito pelo seu ciclo circadiano, se não tem algum respeito pelas horas de acordar e de dormir, por exposição à luz solar ou outras fontes, vai levar a uma falência que, eventualmente, pode ser uma doença. Não somos máquinas infalíveis. Então, a parte que complementa a alimentação como estilo de vida é importante. Esse é um caminho que a“Quase Quase” tem feito: ser uma marca com produtos que alimentam o corpo, a alma e a mente. O foco é sempre cuidar da pessoa como um todo.
Integrall: Fazem entregas?
Quase Quase: Sim, na cidade de Lisboa, de segunda a sábado e na Grande Lisboa, desde a Ericeira, passando por Mafra até Setúbal, aos domingos ao final do dia.
Integrall: A Quase Quase prepara-se para um novo espaço na Avenida dos Estados Unidos da América, em Lisboa. Para quando a abertura ao público?
Quase Quase: Dentro de um ano. Esse espaço vai ter, essencialmente, uma zona de produção com condições e com qualidade e depois há de ter, também, um espaço para o público, mas não é, para já, prioritário. Queremos, primeiro, deslocalizar para lá toda a produção para podermos crescer em qualidade e só depois, com calma, abrir um espaço ao público.
A Quase Quase tem uma enorme variedade de pratos de carne, peixe e vegetarianos/ Créditos da foto: Pedro Sadio
Integrall: Nesse espaço, vai ser possível fazer refeições?
Quase Quase: Sim, não vai ser só uma loja “Quase Quase”, até porque vai estar muito próxima da de Alvalade. Ali vamos criar um conceito diferente, que ainda não está completamente fechado, mas que será muito à volta do caldo de ossos da importância do caldo de ossos. – a pessoa vai poder provar caldo de ossos e com isso também, fazer algumas refeições.
Integrall: Quem é que vos procura?
Quase Quase: O nosso principal cliente são mães, que têm uma noção de nutrição e percebem que há ingredientes que não querem dar aos filhos, mas não só. Procuram-nos, também, pessoas que têm uma preocupação acrescida com a nutrição, com aquilo que comem e que, nalguns pontos, não estão de acordo com as correntes mais vigentes da sociedade – veem um pouco mais além – , pessoas que, normalmente, gostam de cozinhar, de comer, de boa comida, mas não têm tempo, todos os dias, para cozinhar ou para ir ao supermercado e, portanto, querem ter um “plano B” no congelador.
Integrall: A vossa comida é só aquecer?
Quase quase: É só aquecer no tacho, no forno, no micro-ondas ou até na air fryer.
“Há doentes que vêm diretamente do oncologista para aqui”
Integrall: Olhando para todo o caminho das pedras que percorreram até agora, qual é o balanço?
Quase Quase: É positivo, senão não estávamos aqui. Houve dias em que nos apeteceu desistir, dias muito duros, mas, globalmente, o balanço é positivo e não é pelo dinheiro que já retirámos da “Quase Quase”, porque tem sido sempre a investir para poder acompanhar o crescimento do negócio, mas ver o regozijo das pessoas que aqui vêm, ver os seguidores do Instagram que nos recomendam e doentes que vêm diretamente do oncologista e nos dizem: “o médico disse-me para vir aqui”, tudo isso aquece-nos muito o coração.