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Início Desenvolvimento Pessoal

Helena Otterspeer: Da Física Atómica para o sacerdócio

por Sandra Xavier
Junho 4, 2026
em Desenvolvimento Pessoal
Helena Ostterpeer, sacerdotisa da Comunidade de Cristãos/DR

Helena Ostterpeer, sacerdotisa da Comunidade de Cristãos/DR

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Com um doutoramento em Física Atómica pela TU de Garching, em Munique, na Alemanha, a brasileira Helena Otterspeer cedo percebeu que estava a definhar no trabalho em laboratório onde passava noites a fio sem dormir e sem se aperceber do ritmo das estações do ano.

Esse mundo escuro e frio levou-a ao limite: da carreira e da compreensão da vida, a qual veio a encontrar na antroposofia e pedagogia Waldorf e mais tarde, na Comunidade de Cristãos, da qual se tornou sacerdotisa em 2001.

O Integrall esteve à conversar com Helena Otterspeer, após uma palestra em Lisboa.

Integrall: Como é que de um doutoramento em Física Atómica passa para a pedagogia Waldorf?

Helena Ostterpeer: O meu caminho, a par do de muitas pessoas ligadas ao mundo científico e técnico de hoje em dia, chega a uma espécie de limite da compreensão e da vivência do mundo, o que nos leva a procurar uma outra visão do mundo, como se essa visão científica limitasse o alcance da nossa atuação, como se reduzisse o mundo em que nós vivemos e nessa redução se perdessem qualidades de vida humanas. Eu não estava ligada nem à antroposofia nem ao cristianismo, mas a vida em laboratório, onde passávamos as noites, muitas vezes sem dormir e onde não dávamos pelo ritmo das estações do ano, trouxe-me a vivência de um processo de morte, de uma maneira bem extremada, levando-me – e a muitos outros físicos que conheço – a procurar uma outra abordagem do que é o conhecimento do mundo.

“O meu caminho como Física Atómica chegou uma espécie de limite da compreensão e da vivência do mundo (….) como se reduzisse o mundo em que vivemos e nessa redução se perdessem qualidades de vida humanas”

Integtall: Que trabalho desenvolvia em laboratório?

Helena Otterspeer: Eu trabalhei num acelerador de partículas perto de Munique, na Alemanha, onde fazíamos experiências que duravam, às vezes, três dias e tínhamos de preparar intensamente todos os aparelhos, calibrá-los, preparar os programas de avaliação de computador e todo o ambiente do laboratório era fechado, sem janelas por causa da radioatividade, a luz era fria e o barulho dos computadores era bem forte. Nós estávamos imersos num mundo da técnica, da frieza e da falta da vida.

“Todo o ambiente do laboratório era fechado por causa da radioatividade, a luz era fria e o barulho dos computadores era bem forte;  estávamos imersos num mundo da técnica, da frieza da falta da vida”

Integrall: Sem luz natural, começou a sentir-se limitada?

Helena Otterspeer: Sim, mas a questão central era de estar separada dos processos de vida, do mundo num sentido bem amplo e de ter um foco muito reduzido de ação.

Integrall: Quando é que a Antroposofia surge na sua vida?

Helena Otterspeer: Quando nós temos de abdicar da luz, dos ritmos da vida, das estações do ano entramos num processo de morte. Eu senti que a minha saúde estava a definhar, comecei a questionar-me e foi então que comecei a minha procura. Nesse processo, comecei a duvidar se eu ia fazer aquilo para o resto da minha vida, se havia um sentido: surgiram as dúvidas e depois, veio, realmente, uma vivência de que existe uma força maior – uma vivência que eu poderia dizer que hoje muitas pessoas têm mas que não se divulga muito – uma vivência de Cristo, embora eu não estivesse ligada ao cristianismo. Um dia acordei e tive essa visão de Cristo na cruz, irradiando força, luz, vida e foi tão profunda e real que eu me senti forte para fazer uma mudança na vida. Comuniquei a minha decisão a um colega e como eu tinha interesse em temas espirituais, ele sugeriu-me o ensino e a pedagogia Waldorf.

Integrall: Quando descobriu a Antroposofia abandonou a sua carreira de Física Atómica?

Helena Otterspeer: Sim, mas continuo interessada no progresso da Ciência natural sobretudo quando ligada ao goetheanismo, o método cientifico sugerido por Rudolf Steiner. Claro que agora exercendo outra profissão não consigo acompanhá- la tão de perto.

Integrall: Abandonou a carreira com que idade?

Helena Otterspeer: Com 29 anos. A partir daí, o processo foi rápido.

Integrall: Como foi esse processo?

Helena Otterspeer: Após o meu doutoramento, voltei ao Brasil, onde fiz um curso de formação para professores Waldorf e estágio. Entretanto, como eu queria conhecer o ritmo do ano dentro das festas cristãs, fui fazer um curso no seminário de sacerdotes, em Estugarda, na Alemanha, onde conheci o meu marido e juntos, fomos trabalhar num lar antroposófico para crianças e jovens. com deficiência na Suíça, com pedagogia curativa.

“Uma criança com uma incapacidade deve ser educada da mesma maneira e com os mesmos ritmos que qualquer outra criança”

Integrall: Dentro da pedagogia Waldorf dedicou-se à pedagogia curativa. O que é?

Helena Otterspeer: É uma pedagogia que tem os mesmos princípios que a pedagogia Waldorf, com um caráter terapêutico aplicado ao caso concreto dos necessitados, que cuida, sobretudo, de pessoas que têm algum tipo de incapacidade. Na Antroposofia falamos de pessoas que precisam de cuidados especiais.

A pedagogia curativa tem certos princípios básicos, por exemplo: todo o ser humano é integral, independente de qualquer doença ou condição corporal. Uma criança com alguma incapacidade deve ser educada da mesma maneira e com os mesmos ritmos que qualquer outra criança. Então, se integrada na vida, na fase adulta deve ter uma tarefa, um trabalho, porque o “eu” de cada um é íntegro, é um ser espiritual, que não está a conseguir manifestar-se completamente no corpo físico, mas que quer ter uma experiência e uma tarefa na Terra e isso tem um grande sentido para o mundo espiritual e para a humanidade.

Integrall: Depois da experiência nesse lar, como é que foi o seu percurso na Antroposofia?

Helena Otterspeer: Depois disso, tive os meus filhos e para conciliar a vida com crianças pequenas, fui professora de jardim de infância Waldorf durante sete anos. Entretanto, completei o curso de formação de sacerdotes da Comunidade de Cristãos e aos 50 anos, em 2001, fui consagrada como sacerdote da Comunidade de Cristãos.

“A Antroposofia queria renovar todas as áreas onde o ser humano estava inserido e começou a dar formação a professores, médicos, agricultores e teólogos”

Integrall: Essa é uma comunidade Waldorf?

Helena Otterspeer : O nome Waldorf só se aplica ao âmbito da Antroposofia ligado à pedagogia, pois a primeira escola Waldorf foi fundada, em 1919, na fábrica de cigarros Waldorf- Astória em Eatugarda, na Alemanha. Os outros impulsos culturais da Antroposofia são caracterizados como antroposóficos.  Sabemos que a vida cultural abrange várias áreas: a da ciência, a da arte e a da religião. A  Antroposofia, que abrange muitas outras áreas além da pedagogia Waldorf, quer renovar, vitalizar todas essas áreas onde o ser humano se desenvolve. Então, onde era possível, onde havia as pessoas interessadas em receber novos impulsos, começou a formação de professores, médicos, agricultores, artistas e também sacerdotes. Em 1921, alguns estudantes protestantes de teologia, interessados na antroposofia e insatisfeitos com a vida religiosa da época, procuraram Rudolf Steiner para saber se também nessa área poderia ocorrer uma renovação. Rudolf Steiner fez-lhes uma proposta: se conseguissem reunir, pelo menos, 140 pessoas, dar-lhes-ia cursos e a orientação necessária. No espaço de ano e meio, em setembro de 1922, foram consagrados na Suíça, no primeiro Goetheanum – a sede internacional da Sociedade Antroposófica- os primeiros 45 sacerdotes da Comunidade de Cristãos. Então, de certa forma, Rudolf Steiner já sentia a necessidade urgente de uma renovação nesse âmbito cultural da religião. Podemos resumir que a Comunidade de Cristãos é uma filha da Antroposofia, assim como a pedagogia Waldorf, a agricultura biodinâmica, a euritmia, a medicina antroposófica, entre outros.

Integrall: É uma comunidade cristã, mas não católica?

Helena Otterspeer: Não é católica porque nunca conseguiríamos ser incluídos na igreja católica, que exige dos seus membros a aceitação de dogmas. Não temos essa exigência na Comunidade de Cristãos. Mas, tal como na igreja católica baseamo-nos na revelação de Jesus Cristo, o ressuscitado, no Novo e no Antigo Testamento e celebramos os sete sacramentos desde o batismo até à extrema unção. A forma e o texto ritual desses sete sacramentos renovados foram recebidos por Rudolf Steiner, de acordo com palavras suas, diretamente do mundo divino e entregues aos sacerdotes da Comunidade de Cristãos como uma dádiva dos deuses. Claro que a Antroposofia, como Ciência Espiritual, como conhecimento do mundo superior trouxe novas luzes para a interpretação do evangelho de uma maneira adequada à nossa consciência moderna; trouxe também novas formas e rituais para essa renovação religiosa, mas não vai contra nenhuma outra corrente cristã ou religiosa em geral. O caminho religioso deve ser traçado a partir da liberdade individual, um dos principais motivos de todos os impulsos antroposóficos.

“A liberdade de pensamento é muito importante para a Comunidade de Cristãos, para que cada um desenvolva os seus próprios critérios para formar juízos sobre aquilo que experimenta e que pretende realizar.”

Integrall: Pode-se dizer que é uma comunidade espiritual, mas que não está ligada a nenhuma religião em particular?

Helena Ostterpeer: Religião é o âmbito da vida cultural que procura uma ligação do ser humano com o mundo e os seres divinos. Pela vida religiosa meditamos e oramos individualmente e participamos também de cerimónias e serviços religiosos comunitários. Os sete sacramentos são as principais cerimónias para as quais nos reunimos em comunidade, formando assim também comunidades que se ligam ao mundo divino e à sua obra universal do bem. Quando a Comunidade de Cristãos foi fundada, começou a atuar dentro da sociedade, o que significa também encontrar uma identidade jurídica. Nesse sentido, somos uma igreja, uma entidade religiosa, uma religião porque não existe uma outra forma jurídica para celebrarmos sacramentos, para darmos aulas, para exercer assistência pastoral, para recebermos doações, se não formos uma igreja.  No entanto, a Antroposofia revelou, de uma maneira bem clara, que o feito de Cristo aconteceu para toda a humanidade e que é Cristo que deve nos orientar como educadores, médicos, agricultores e sacerdotes antroposóficos. Portanto, a vida religiosa cristã é universal para toda a humanidade. Como igreja, nesse sentido universal, temos as portas abertas para todos que estão à procura de uma vida religiosa. Para nós, não existem dogmas, pois tanto para a Antroposofia como para a Comunidade de Cristãos, a liberdade de pensamento é essencial para que cada um desenvolva os seus próprios critérios na formação de juízo sobre aquilo que experimenta e que pretende realizar. Então, não é necessário que alguém seja batizado para participar numa celebração ou numa missa, que é o nosso ato de consagração do Homem.

Integrall: Qualquer pessoa pode pertencer à vossa comunidade?

Helena Otterspeer: Sim, existe a possibilidade de se tornar membro, mas um não membro tem acesso às mesmas coisas que um membro.

Integrall: Em que países é que a comunidade está presente?

Helena Otterspeer: Estamos em vários países dos seis continentes.

Integrall: A Comunidade é supervisionada por quem?

Helena Otterspeer: Existe um centro do movimento – sete sacerdotes que supervisionam apenas a fundação de novas comunidades em todo o mundo – a formação e consagração de novos sacerdotes e o seu envio para os vários países, porque quando um sacerdote é consagrado, compromete-se a poder ser enviado. O círculo dos sete trabalha com os sacerdotes dirigentes das diversas regiões, que são escolhidos pelo próprio círculo para representar a região em que trabalham. Não é o sacerdote que se candidata e que decide onde quer trabalhar. Se surgir uma necessidade na comunidade da Argentina, alguém pode ser enviado para lá, depois de conversas preparatórias. A base dessa estrutura na comunidade dos sacerdotes é ou deve ser a confiança mútua. Agora a vida de uma comunidade é de inteira responsabilidade do/s sacerdote/s enviados para ela.

Integrall: Mas a Helena, por exemplo, é casada e tem filhos. Como é que faz se for enviada para um país? Leva a família toda atrás?

Helena Otterspeer: Sim, mas o dirigente pergunta como é a situação familiar e muitas vezes, torna-se evidente que não é possível enviar o candidato para longe por alguma razão e nesse caso, não o faz.

Integrall: A comunidade funciona da mesma forma em todos os países?

Helena Otterspeer: Não, a única coisa a que nos comprometemos cumprir como sacerdotes é a de não modificar os sacramentos, que reconhecemos como dádiva do mundo divino, como sagrados. Isso implica também a construção das igrejas apropriadas e como deve ser o âmbito do altar. Agora, se na Austrália as pessoas têm necessidade de fazer mais festas ou mais encontros espontâneos, mais assistência pastoral ou serviço social e em outras comunidades, mais estudo ou mais palestras, isso é completamente livre. Temos, no entanto, um cuidado especial sobre como utilizar as doações financeiras voluntárias de uma forma adequada e justa.

Integrall: Mas sempre com o estudo da Antroposofia na base?

Helena Otterspeer: No caso dos sacerdotes, sim, mas o sacerdote deve procurar a linguagem apropriada para possibilitar a compreensão de Cristo e do mistério da ressurreição na sua comunidade. Os evangelhos são a base e a Antroposofia traz uma nova luz para poder compreendê-los. Pela minha experiência posso dizer que essa luz da Antroposofia, vista como substância da verdade é acolhida com boa vontade e aprofunda a relação da alma humana com Cristo. Também os conhecimentos da Antroposofia divulgados numa comunidade, seja no campo concreto da alimentação, da agricultura, da medicina, da educação, das terapias vêm apoiar o indivíduo no seu caminho da vida.

“Fortalecer a alma para que ela esteja preparada para poder atuar para o bem, para a evolução de todos”

Integrall: Esta comunidade quer ser fonte de vida…

Helena Otterspeer: É fonte de sentido de vida, de força, de esperança, de consolo e coragem. Ela quer possibilitar o apoio mútuo pela fraternidade.

Integrall: É isso que as pessoas vêm aqui à procura?

Helena Otterspeer: Sim, com certeza: fortalecer a alma, inspira- lá para que, nesta época de grandes desafios, esteja preparada para poder atuar para o bem, para a evolução de todos. Procurar o apoio mútuo.

Integrall: É fácil consegui-lo perante os desafios mundiais que estamos a viver?

Helena Otterspeer: Nós temos a convicção que, mesmo não sendo fácil, com a ajuda de Cristo é possível. Cristo ligou a morte com a vida, as trevas com a luz através da superação. Nesse sentido, tudo o que é difícil pode ser visto como um apelo para conhecer melhor a natureza do ser humano, das forças do bem e do mau e encontrar Cristo. Podemos dizer que, quando celebramos, Cristo, passa a viver dentro da nossa Comunidade e do seu entorno, no destino individual de cada um com sua força transformadora. Assim acreditamos que as pessoas podem tornar-se fortes para encarar os desafios, podem tornar-se criativas e poder ajudar outros como pais, médicos, professores, agricultores, artistas, cientistas e terapeutas.

Integrall: Olhando para trás, passados todos estes anos, percebeu que esta era a sua missão de vida, o seu caminho?

Helena Otterspeer: Sim, sim, tenho-muito claro, não só a minha, mas espero que muitos percebam que está é uma missão de toda a humanidade. No entanto, ainda há muito a fazer neste caminho. Por exemplo, poder formar um sacerdote português e fundar, aqui em Portugal, a Comunidade de Cristãos com a presença de um sacerdote fixo, morando em Portugal, poder celebrar todas as semanas os sacramentos, poder vivenciar uma vida em comunidade com acesso à assistência pastoral a doentes, necessitados e moribundos, criar um espaço para a iniciativa individual, divulgar de uma maneira nova e verdadeira a mensagem de Cristo, a força da ressurreição apoiando as instituições antroposóficas, que caminham com Ele. A vida religiosa pura e verdadeira pode tornar-se fonte de vida e força para toda uma cidade, para todo um país.

Tags: AntroposofiaComunidade de CristãosHelena Ostterpeerpedagogia curativapedagogia Waldorf

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