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Início Desenvolvimento Pessoal

“Podemos libertar-nos dos traumas que sofremos no nascimento”

por Sandra Xavier
Maio 28, 2026
em Desenvolvimento Pessoal
As feridas intrauterinas e as marcas deixadas no nascimento estiveram em destaque no simpósio “Bebés Felizes, Encarnações Plenas”/DR

“Bebés Felizes, Encarnações Plenas” é o nome do simpósio organizado pela AlmaSoma/DR

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Durante três dias, vários especialistas e participantes de todos os cantos do mundo mergulharam, a fundo, nas feridas intrauterinas e nas marcas de nascimento, no simpósio “Bebés Felizes, Encarnações Plenas”, organizado pela AlmaSoma para a EUROTAS, que decorreu em S. Domingos de Rana.
Na abertura, o presidente, Mário Resende, afirmou que o objetivo do evento era “trazer cura à vida e estar ao serviço de um bem maior”.
Em entrevista ao Integrall, o também psicólogo, inscrito na Ordem dos Psicólogos, psicoterapeuta transpessoal e co-diretor da AlmaSoma, lembrou a importância de olhar para as primeiras feridas: “é olhar para a nossa humanidade”.

Integrall: Este é o primeiro simpósio sobre este tema?

Mário Resende: Em Portugal, seguramente e na Europa, penso que não terá havido muitos encontros do género a focar-se num dos temas principais deste simpósio, que é a terapia para bebés e como podemos ajudá-los a ultrapassar ou, até a curar, o seu trauma de nascimento.
Nos Estados Unidos, existe uma grande organização, a “The Association for Prenatal & Perinatal Psychology & Health” (APPPAH), que ela, sim, tem protagonizado, já há muitos anos, inúmeros eventos relacionados com esta temática, depois de ter sido fundada pelo pioneiro nesta área, o professor William Emerson.

Mário Resende é co-diretor da AlmaSoma, que organizou o simpósio “Bebés Felizes, Encarnações Plenas” para a EUROTAS/DR

Integrall: Qual é a importância de olharmos para as nossas primeiras feridas?

Mário Resende: A importância tem vários níveis, quer olhemos para um adulto, quer olhamos para um bebé. Para um adulto, a ignorância do impacto da sua conceção, a sua gestação e o seu parto, pode levá-lo a identificar-se com certos padrões de funcionamento, que não são necessariamente aquilo que é na sua essência, podendo ser, antes, o resultado de traumas, que, quando trabalhados, perdem o poder que têm. Ao nível dos bebés e mesmo das crianças pequenas, esta consciência pode ser extremamente importante porque pode permitir-lhes uma vida sem condicionamentos. Um bebé que passa por processos muito difíceis  e se essas feridas não forem tratadas, pode começar a desenvolver-se de forma defensiva, em relação aos traumas sofridos e terá toda uma construção da personalidade com base nestes pilares.
Ao libertarmos os bebés e as suas famílias das consequências traumáticas da conceção, gestação e parto, damos a oportunidade a que a construção do “eu” e da personalidade, que o desenvolvimento das competências, aconteçam de uma forma não maculada por um evento traumático no início da existência, mas só é possível, se, de facto, olharmos para isso desde o momento da conceção.

“Precisamos de pais conscientes que tenham a capacidade de olhar para a sua dor e suportar a dor do seu bebé e, em conjunto, poderem crescer”

Integrall: Quanto mais cedo, melhor?

Mário Resende: Sim, quanto mais cedo, melhor, desde que os pais tenham esse entendimento e estejam dispostos a acompanhar o bebé num processo de cura que é, também ele, ativador das suas próprias feridas. Portanto, precisamos de terapeutas que façam esse trabalho e precisamos de pais conscientes que tenham a capacidade, igualmente, de olhar para a sua dor e suportar a dor do seu bebé e, em conjunto, poderem crescer.

Integrall: Porque um bebé, tendo em conta a sua idade, não tem essa consciência, precisa da ajuda de terceiros.

 “Os bebés são conscientes do que lhes aconteceu (…) e quando se sentem seguros podem manifestar a sua dor e libertar-se, pelo menos, em parte, dela”

Mário Resende: O bebé não fala e não entende certos conceitos, portanto, temos que trabalhar com ele de outra forma: temos que tornar os pais conscientes para que eles percebam que podem ajudar os seus filhos, a este nível, e depois, temos que usar aquilo que pensamos ser a consciência extra cerebral do próprio bebé para comunicar com ele. Este trabalho tem sempre como ponto de partida o facto de estes bebés não terem um cérebro ainda desenvolvido como o de um adulto. Eles são seres conscientes do que lhes aconteceu e que procuram uma oportunidade de cura, quando se sentem seguros, quando se sentem suportados, quando sentem que o ambiente pode tolerar a sua dor e então, nesse momento, podem manifestar a sua dor e em parte, libertar-se dela e isso é cura.

“Estas feridas (intrauterinas) podem tornar-se dominantes e ter impacto a nível dos relacionamentos, hábitos e crenças para o resto da vida”

Integrall: Quando não há esse olhar sobre as feridas intrauterinas, estas podem deixar traumas para o resto da vida ou, de alguma forma, é possível curá-las ao longo da (nossa) existência?

Mário Resende: Tudo na vida é evolutivo, nada permanece estático, portanto, as nossas feridas também não, podendo agravar-se ou tornar-se menos impactantes. Na verdade, o que hoje pensamos – com 50 anos de Psicologia Transpessoal e de outras áreas do conhecimento – é que estas feridas, como qualquer outro trauma, podem tornar-se dominantes na vida de uma pessoa e podem, de facto, impactá-la a nível dos relacionamentos, a nível dos hábitos, a nível das crenças para o resto da vida; a pessoa pode desenvolver uma crença à nascença ou uma atitude interna de defesa ainda na gestação e pode morrer com ela porque o cérebro acaba por criar o hábito de se comportar de uma certa maneira em relação a certos estímulos e por isso, esse hábito, essa estrutura neuronal vai manter-se e perpetuar-se, protegendo a pessoa de um sofrimento que pensa que não pode tolerar, mas, que, na maior parte dos casos, pode.

“Esta reunião juntou pessoas com valores e paradigmas próximos (…) um encontro de alma e coração”

Integrall: Balanço do simpósio?

Mário Resende: O balanço é muito positivo. Reunimos bastantes palestrantes e facilitadores, de alto nível, especialistas neste tipo de feridas, quer no trabalho com adultos, quer no trabalho com bebés ou crianças. Além, disso, tivemos um conjunto de participantes muito interessados no tema e portanto sentimo-nos, profundamente, gratificados por esta reunião, que juntou pessoas com valores e paradigmas próximos, tornando-a num encontro de alma e coração.

Integrall: Quantos palestrantes estiveram no simpósio?

Mário Resende: Cerca de 30 palestrantes e facilitadores de workshops e uma equipa de 20 pessoas na organização.

Integrall: Quantos participantes?

Mário Resende: No pico da afluência, que foi no sábado, tivemos 145 participantes.

Integrall: Que feedback é que teve dos participantes?

Mário Resende: As conversas foram muito positivas, claro que cada pessoa é diferente e por isso, tocada em aspetos diferentes, mas sentimos muito reconhecimento por parte dos participantes do simpósio.

Integrall: O simpósio teve participantes e palestrantes de todas as partes do mundo?

Mário Resende: Sim, tivemos muitos países representados, dos Estados Unidos, à China, passando pela Índia. Dá-nos uma enorme satisfação ver este trabalho expandir-se, em particular, graças à qualidade do que produzimos, mas, também, da participação da mais importante universidade na área da Psicologia Transpessoal, a Sofia University, que, apesar de estar sediada na Califórnia, nos Estados Unidos, dá, atualmente, formação em várias partes do mundo, nomeadamente na China.

“Os bebés são seres cientes, que registam e que se defendem, em fases muito precoces do seu desenvolvimento, mesmo intrauterino”

Integrall: Fazem falta mais eventos como este?

Mário Resende: Fazem falta mais eventos como este, porque a consciência de que os bebés são seres cientes, que registam e que se defendem, em fases muito precoces do seu desenvolvimento – mesmo intrauterino -, ainda é uma consciência muito pouco desenvolvida. Assistimos, no passado, a forma de pensar, que considerava as crianças seres não cientes ou que, pelo menos, se sentissem, depois não se lembrariam disso e portanto, considerava-se que não haveria trauma, daí que, ainda no século passado, se considerava legítimo fazer cirurgias a bebés ou crianças, com menos de dois anos, sem anestesia, porque se considerava que não ficariam traumatizados.

Integrall: Não é verdade?

Mário Resende: É completamente falso, porque o corpo guarda essa memória, a qual vai refletir-se, depois, no futuro.

Integrall: Para ano, há mais?

Mário Resende: Para o ano, haverá formação para psicoterapeutas que queiram especializar-se em terapia para bebés, na AlmaSoma e haverá, eventualmente, atividades de divulgação, que possam levar esta consciência a mais pessoas, nomeadamente, a profissionais de saúde, que trabalham com o nascimento e com os primeiros meses de vida.

Integrall: Uma das frases deste simpósio foi: “Permite-te renascer”. Houve um renascimento nestes dias?

Mário Resende: Sim, foi uma das frases do simpósio, que teve, de facto, a ver com a capacidade que temos de reiniciar o nosso nascimento e nos libertarmos dos traumas, dos imprints – marcas de nascimento – que sofremos e continuar a nossa vida com uma folha mais limpa e sem crenças e sem atitudes de defesa, que nos acompanham desde que nascemos.

Integrall: Numa encarnação mais plena?

Mário Resende: Sim, isso faz com que a nossa vida seja mais plena, porque estará mais desimpedida, estará mais leve -uma vida em que poderemos desenvolver competências que temos, mas que estão subdesenvolvidas uma vez que as grandes defesas que as bloqueavam, a nível do medo, ao nível de crenças, a nível de contrações internas, podem ficar resolvidas.

Tags: AlmaSomabebésEUROTASferidas intrauterinasgestaçãogravidezimprintsnascimentopartoSofia University

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