Psicóloga clínica, especializada em burnout, depressão e ansiedade, Isa Silvestre atingiu, ela própria, o limite. Depois de 13 anos a trabalhar no ministério da Educação, despediu-se. Hoje, tem uma clínica e dá formações a empresas e a particulares porque, avisa: “o burnout é silencioso e não aparece de um dia para o outro”.
No dia 28 de maio, vai dar um workshop online sobre o tema “Do alerta ao equilíbrio: regular a ansiedade e evitar o burnout’”.

Integrall: O que é o burnout?
Isa Silvestre: O burnout é caracterizado por três dimensões principais: a exaustão emocional, um distanciamento ou cinismo – a pessoa não sente que tem empatia pelo outro, pelo colega de trabalho ou mesmo não consegue estar ligada às emoções do outro da mesma forma como estava antes – e há, também, uma sensação de ineficácia de que faz as coisas, mas não as faz tão bem. Uma vez que há uma grande exaustão física, emocional e intelectual, dificulta muito a atenção, concentração, a memória e claro, a produtividade, que é uma falácia. Eu costumo falar em “burnout funcional” – não é que o termo exista cientificamente -, mas eu falo “burnout funcional” no sentido de a pessoa continuar a funcionar, a trabalhar demasiadas horas, mas o resultado tem muitas falhas e ela não está envolvida nem emocionalmente nem em termos de realização pessoal.
“Como a se pessoa se sente esgotada, fala em esgotamento, mas o burnout não é um esgotamento”
Integrall: Costuma-se falar em burnout como sinónimo de esgotamento, mas não são ma mesma coisa…
Isa Silvestre: Não. Em primeiro lugar, é preciso dizer que o burnout é um processo que não acontece de um dia para o outro. O que pode acontecer é que, muitas vezes, associamos o burnout a um stress crónico em que a pessoa vai esgotando – muita gente utiliza o termo esgotamento, porque sente um cansaço físico. No burnout, o sono não é retemperador – porque, no burnout, também há perturbação do sono – a pessoa acorda de manhã e sente que não houve qualidade do sono, não passou pelos estádios de sono. Então, como há alterações no padrão de sono, existe a ideia de esgotamento, de a pessoa estar esgotada, mas não é um esgotamento. O esgotamento, em si, pode ser já um sinal de alerta e de que é preciso procurar rapidamente ajuda especializada.
Integrall: Quais são os sinais de alerta para um burnout?
Isa Silvestre: Alterações do humor, irritabilidade, apatia, dificuldade em ligar-se ao momento presente. A pessoa está em “presentismo”, mas não desfruta daquele momento, daquela companhia – daí eu falar do tal distanciamento, do cinismo -, existe a ideia de uma fadiga constante, algo persistente -a pessoa já acorda cansada, devido às alterações de sono e existem, também, alterações físicas, como dores de cabeça e tensão muscular, por exemplo, nos ombros e na zona lombar. Uma outra ideia importante a ter em conta tem a ver com o piloto automático: a pessoa vai fazendo as coisas sem ter ideia do que está a sentir e de para onde está a ir.
“Para um diagnóstico de burnout tem de haver exaustão emocional, apatia/ distanciamento e sensação de ineficácia, de (já) não estar a fazer as coisas bem”
Integrall: É preciso uma pessoa ter todos esses sintomas para que lhe seja diagnosticado um burnout ou bastam alguns?
Isa Silvestre: Para um diagnóstico de burnout, tem de haver as três dimensões de que falei: a exaustão emocional, a apatia e o distanciamento, a falta de envolvimento, de ligação com o que a pessoa está a fazer e com as pessoas à sua volta. Uma ideia a ter em conta no burnout é que as pessoas, por norma, gostam do que fazem e por isso, dedicam-se demasiado – atribuem demasiada importância à profissão, mas começam a ter uma sensação de já não são tão boas como eram antes – a sua autoestima profissional ou académica era positiva e passam a ter uma perceção negativa de si próprias.
“No burnout não há tristeza, o que há é cansaço funcional”
Integrall: No burnout não há tristeza, o que há é cansaço funcional?
Isa Silvestre: Isso mesmo.
Integrall: O que é o cansaço funcional?
Isa Silvestre: É quando a pessoa já começa o dia cansada, mas continua a produzir e a trabalhar12, 14 horas sem parar. Não pára para regressar ao corpo e sentir.
No burnout, “o stress faz parte da vida (da pessoa), mas não há espaço para recuperar e por isso, vai acumulando até entrar em stress crónico, em stress prolongado”
Integrall: Tu explicas, inclusive, que o burnout acontece, normalmente, às pessoas que trabalham muito…
Isa Silvestre: Sim. Há muitas crenças, que vêm da vida familiar ou até mesmo do contexto sócio cultural, que condicionam a pessoa que, por exemplo, sempre viu os pais a trabalharem demasiado – podia nem haver carência financeira -, mas sempre a trabalharem muito e ela sente que tem de se dedicar demasiado. O que acontece, por norma, no burnout é que, de facto, a pessoa gosta do que faz e envolve-se, podendo ter uma sobrecarga de trabalho, trabalhar muitas horas, não respeitar as pausas, ou seja, o stress faz parte da sua vida, mas não há espaço para recuperar e por isso, vai acumulando até entrar em stress crónico, em stress prolongado e como está em piloto automático, não tem consciência emocional nem física do que está a sentir.
Integrall: É como diz aquela música dos Coldplay: “quando estás tão cansado que não consegues dormir” …
Isa Silvestre: Sim.

“Vivemos a cultura da exaustão”
Integrall: Tu costumas dizer que vivemos a cultura de exaustão…
Isa Silvestre: Sim, temos ainda muito uma cultura da exaustão: temos de trabalhar para ser produtivos ou para ter um certo estatuto ou para alcançar o tal estatuto profissional. Por outro lado, há características da personalidade de cada um que expõem pessoas mais vulneráveis a um burnout.
“Saber dizer ‘não” treina-se e ensina-se ao longo da vida”
Integrall: Por exemplo?
Isa Silvestre: Por exemplo, não conseguirem dizer que não, não saberem definir prioridades – isso treina-se e ensina-se ao longo da vida.
Integrall: Quais são os setores de atividade em que as pessoas sofrem mais de burnout?
Isa Silvestre: A área da saúde, a área da educação, o atendimento ao público, em que há muito a relação com o outro.
“É preciso perceber o que é que a empresa prioriza: se promove relações saudáveis em que há cooperação, se não procura denegrir ou humilhar a equipa quando erra”
Integrall: A cultura da empresa onde se trabalha é importante?
Isa Silvestre: Sim, é preciso perceber o que a empresa prioriza, por exemplo, se defende que as pessoas devem sair a horas, se faz um encontro para promover a relação entre colegas, se é uma empresa que promove relações saudáveis, em que há cooperação, se não procura denegrir ou humilhar a equipa quando erra, porque só falha quem trabalha e na realidade, em qualquer profissão, também é assim que se aprende. Tem muito a ver com cultura da empresa porque, muitas vezes, o que eu percebo em consulta é que sair a horas não é bem visto na equipa – nem é pelo coordenador, é pelos próprios colegas.
Integrall: As lideranças estão mais despertas para esta problemática ou ainda estamos longe disso, em Portugal?
Isa Silvestre: Em Portugal, hoje em dia, há um modelo híbrido em que, por um lado, a pessoa vive cá, mas trabalha por uma empresa estrangeira ou vice-versa, o que não traz um grande envolvimento relacional com as chefias.
Integrall: Há, também, o teletrabalho…
Isa Silvestre: Mas, se calhar, no teletrabalho, a pessoa vai conseguindo ter algumas ferramentas, por exemplo, sair à hora do almoço nem que seja para dar uma caminhada, ir ao ginásio ao fim do dia ou marcar um encontro com um grupo de amigos, ou seja, vai tendo algumas atividades sociais. O que é preciso é cada um perceber quais são as suas necessidades, qual o contexto e como é que se adapta a ele, por isso, não consigo afirmar, em termos científicos, se as empresas estão a melhorar, agora, a verdade é que continuo, cada vez mais, a receber, em consulta, pessoas em situação de exaustão emocional – podem não preencher todo o quadro de burnout -, mas estão em exaustão e procuram ajuda especializada e isso é bom.
“Em Portugal, falta olharmos para a pessoa como um todo (…) faltam empresas que valorizem a pessoa e em que o colaborador não se sinta só um número”
Integrall: O que ainda falta do ponto de vista empresarial, em Portugal, nesta matéria?
Isa Silvestre: Faltam empresas que valorizem a pessoa, em que o colaborador sinta que é o João, a Beatriz, a Ana e não um número, que em determinada fase da vida parece que já não é suficientemente competente – tem a ver com a idade- às vezes, a própria pessoa sente que passou por uma fragilidade familiar, um luto, uma depressão, uma doença e como já não consegue dar tanto, sente que é um número na empresa. porque já não produz. Falta, também, olharmos para a pessoa como um todo, que tem vida familiar, social, profissional e tem, também, uma dimensão individual. A minha clínica de psicologia tem um protocolo com a “Reorganiza”, que tem muito em conta a vida familiar. É a própria empresa que paga as sessões de psicoterapia aos colaboradores, porque tem a consciência de que uma situação emocional influencia o trabalho.

Integrall: Essa empresa é uma exceção?
Isa Silvestre: Até hoje é a única empresa que eu conheço que o faz.
Integrall: As pessoas procuram ajuda demasiado tarde?
Isa Silvestre: Procuram, sim, porque ainda temos a tal cultura da exaustão muito enraizada, ou seja, quando procuram ajuda já estão, pelo menos, numa das três dimensões do burnout, como a exaustão emocional. O que é que isso significa? Por exemplo, que a pessoa passa o fim de semana a trabalhar ou chega ao fim de semana e sente que consegue recarregar as energias, ou não tem paciência em casa ou fica irritada e responde mal aos filhos ou ao companheiro/companheira e isto começa a afetar as relações.
Integrall: Como é que se trata o burnout?
Isa Silvestre: É importante a pessoa ter a autoconsciência do corpo e da mente, das emoções, até onde é que chegou, o que é que a fragilizou, trabalhar a questão do sono, a alimentação, o exercício físico. Está comprovado que é fundamental haver uma boa qualidade de vida porque vamos, depois, produzir endorfinas e neurotransmissores – serotonina e dopamina -, que regulam o humor, motivação e aumentam o nosso prazer. É, igualmente, muito importante ter uma rede de apoio, ter com quem partilhar os momentos prazerosos. Muitas vezes, pode ser necessária medicação e aqui, entra o médico de família ou até mesmo, o psiquiatra – a abordagem é multidisciplinar – para avaliar quais são os que prejuízos que a pessoa está a ter fisicamente.
“As pessoas pensam sempre que têm de ter tempo para a família e para o trabalho e esquecem-se de tempo para si próprias”

Integrall: Como se evitam recaídas?
Isa Silvestre: Primeiro, é preciso acabar com o mito de que um burnout passa nas férias ou durante uma baixa. Não é verdade. É importante ter muita consciência e isso tem a ver com uma reflexão muito ativa. Depois, a pessoa vai ter que, através de acompanhamento psicológico ou de psicoterapia, tomar consciência do que é que a levou até ali: características de personalidade, crenças limitantes, que a fazem reproduzir um determinado padrão de comportamento, quais as suas expectativas em relação ao trabalho, o que é que pode ou não fazer para mudar o contexto profissional ou até familiar e ir tomando pequenas decisões ou mesmo fazendo grandes escolhas, como mudar de emprego. Há muitas variáveis, mas, acima de tudo, é preciso tomar consciência ativa e realista do que é que levou a pessoa até àquele lugar.
Integrall: Para além da tua clínica, tu dá as formações e fazes intervenções em empresas nesta área?
Isa Silvestre: Sim, faço muitas formações e workshops nesse sentido. Para prevenirmos o burnout, são precisos espaços profissionais saudáveis em que se valoriza a saúde física e mental.
Integrall: Acompanhas as equipas após as tuas formações?
Isa Silvestre: Sim.
“O burnout não se instala de momento para o outro (…) é silencioso e prolongado”
Integrall: A que mudanças é que já assististe?
Integrall: Na comunicação entre colaboradores, na gestão do tempo individual, familiar e profissional, que é uma dificuldade transversal, porque as pessoas pensam sempre que têm de ter tempo para a família e para o trabalho, mas esquecem-se de tempo para si próprias. Independentemente da idade ou da fase de vida, é fundamental as pessoas entenderem o que é que lhes faz bem, ir recuperando do stress do dia-a-dia para que não se torne no tal stress crónico e prolongado, que leva ao burnout, porque ele não se instala de momento para o outro – é uma coisa silenciosa e prolongada.
“’Do alerta ao equilíbrio: regular a ansiedade e evitar o burnout’ é o workshop online que a psicóloga vai dar no próximo dia 28 de maio”
Integrall: Tens alguma informação prevista para breve?
Isa Silvestre: Sim, no dia 28 de maio, das 19h30 às 21h30, vou dar um workshop online, que também vai ser gravado, onde vou disponibilizar material com estratégias práticas e um plano individual sobre o burnout. Chama-se “Do alerta ao equilíbrio: regular a ansiedade e evitar o burnout”. É um workshop onde vou falar sobre como regular a parte emocional, como ter um estilo de vida mais saudável, em termos de gestão de tempo, profissional, familiar e individual, para prevenir situações de burnout e acima de tudo, promover autoconsciência.
Integrall: Esse workshop destina-se a qualquer pessoa?
Isa Silvestre: Sim.
“Precisamos de mais humanidade”
A reflexão de Isa Silvestre sobre a sua própria experiência
Durante muito tempo, aprendemos a funcionar em modo sobrevivência.
Empurramos o corpo para a frente enquanto a mente corre atrás da próxima
tarefa.
E desligar do corpo foi, para muitos de nós, uma forma de proteção.
Desligar da dor. Da exaustão. Daquilo que, se fosse sentido, poderia congelar-nos.
Mas o corpo guarda tudo: o que não dissemos, o que não chorámos, o que suportámos em silêncio e quando o sistema nervoso está em stress constante, fica hiperativado, deixamos de conseguir estar atentos e focados no momento presente. Deixamos de estar com presença e de estar com empatia.
Em 2012, entrei no doutoramento em Neurociências e nesse mesmo ano, tive uma enxaqueca com aura. O corpo já falava, eu é que ainda não sabia escutá-lo. O stress prolongado ativa o nosso sistema nervoso, ficamos em estado de alerta e desliga-nos da empatia.
Aprender a parar. Respirar. A identificar o que estamos a sentir no corpo…
É um ato de autocuidado e um caminho de reconexão.
Em 2016, publiquei o meu primeiro livro. Vieram as entrevistas, o “sim” constante. Achei que bastava amar o que fazia, que a paixão chegava, mas o corpo voltou a falar.
Em 2019, tornei-me mãe e percebi que havia outras prioridades. Não consegui escrever o segundo livro e por muito tempo achei que tinha falhado.
Mas hoje sei que há momentos em que é preciso parar, ficar, estar.
Porque a presença é a forma mais profunda de conexão.
É mais do que ouvir. É escutar com o corpo inteiro.
É sustentar o silêncio. É validar sem resolver. E a escuta ativa não é apenas uma técnica; é uma escolha de presença.
Chega um momento, mais cedo ou mais tarde, em que o cuidado se esgota no
fazer, em que nenhuma técnica chega, em que nenhum plano resolve e é aí que voltamos ao princípio: ao sentido. E no cuidado, o “porquê” faz toda a diferença. Porque fazemos o que fazemos? Porque escolhemos estar para o outro? Recomeçar com sentido é lembrar o início.
É voltar à primeira intenção. À motivação que nos move. Tão urgente que, depois de 13 anos a trabalhar no Ministério da Educação, despedi-me. Estava grávida da minha segunda filha, queria abraçar novos desafios profissionais. A desconexão comigo mesma e com o meu trabalho eram gritantes. E, mais do que nunca, precisei escutar-me. Não precisamos de mais técnicas. Precisamos de mais humanidade.


















