Formou-se em enfermagem há 50 anos, na capital espanhola, mas cedo percebeu que faltava humanidade no cuidado aos doentes nos hospitais públicos onde trabalhou. Pouco tempo bastou para que colocasse a sua carreira ao serviço da enfermagem antroposófica, mais próxima dos pacientes e mais alinhada consigo mesma.
Amparo González Sánchez já podia estar reformada, mas prefere continuar a acompanhar os seus pacientes, em Madrid e no Centro de Salut Vital, Zuhaizpe, em Navarra e dar formações em toda a Espanha e Portugal sobre (autocuidado).
Integrall: Onde se formou como enfermeira?
Amparo Sánchez: Formei-me no Hospital de La Paz em Madrid, aos 21 anos.
Integrall: Em que momento da sua vida se começou a dedicar à enfermagem antroposófica e à medicina antroposófica?
“Vi que os pacientes não recebiam muita atenção de forma humana. Havia sempre muita correria e pouco tempo para eles”
Amparo Sánchez: Nessa idade, justamente quando comecei a trabalhar naquilo que é a medicina pública, vi que os pacientes não recebiam muita atenção de forma humana. Havia sempre muita correria e pouco tempo para ele. Então, eu procurei uma medicina mais alinhada com um olhar para a pessoa de uma forma integrativa. Comecei com a medicina natural e com ela, entrei em contacto, primeiro, com a antroposofia e depois, com a medicina antroposófica.
Integrall: Onde aprendeu medicina natural?
Amparo Sánchez: Em Madrid, havia uma associação de medicina natural. Era um espaço onde eram dados cursos por médicos de medicina natural.
Integrall: A Amparo foi estudar medicina antroposófica, mas continuava a trabalhar no hospital em Madrid?
Amparo Sanchéz: Sim, trabalhei em três hospitais públicos: no de La Paz, em Madrid, em La Paz, depois pedi transferência para as Astúrias porque queria viver no campo, na natureza e também, num hospital em Riaño, na província de Leon.
Integrall: Com que idade fez a transição para a medicina antroposófica e saiu dos hospitais públicos?
Amparo Sánchez: Foi quando tive minha segunda filha, tinha 27 anos. Fiz uma pequena transição entre ambos. Enquanto me estava a formar em medicina antroposófica ainda trabalhava em saúde pública.
“Não tratamos apenas os sintomas e a patologia que os causa, mas há um cuidado com o ser humano como um todo”
Integrall: Em que é que é que a enfermaria antroposófica se distingue daquela que é usada em hospitais centros de saúde?
Amparo Sánchez: Para mim, esta abordagem de enfermagem é uma extensão da enfermagem tradicional para uma compreensão mais integrativa do cuidado ao ser humano. Não tratamos apenas os sintomas e a patologia que os causa, mas há um cuidado com o ser humano como um todo. Precisamos ver o que está a acontecer na vida do paciente, o que aconteceu na sua infância, como desenvolveu essa patologia, como desenvolveu esse desequilíbrio e abordar tudo o que vem depois.Outro aspeto é que a enfermagem antroposófica cuida através de tratamentos de medicina holística, cuidados com a pele, cuidados com banhos, com pomadas, óleos, massagens, banhos — todos esses cuidados externos — mas também priorizando substâncias da natureza, não tanto pílulas, medicamentos e injeções, mas sim num cuidado com a natureza.
“O primeiro passo é sempre um tratamento com o mínimo de efeitos colaterais”
Integrall: A medicina antroposófica, a enfermagem antroposófica, utilizam apenas produtos naturais?
Amparo Sánchez: Apenas produtos naturais e, em casos extremos, se os remédios naturais não funcionarem, pode-se tentar um tratamento com antibióticos ou corticosteroides, mas o primeiro passo é sempre um tratamento com o mínimo de efeitos colaterais e uma abordagem mais abrangente, não apenas para eliminar os sintomas, mas para melhorar a saúde. Queremos potenciar a saúde.
Integrall: Com base na sua vasta experiência com a enfermagem e a medicina antroposófica, as pessoas obtêm resultados?
Amparo Sánchez: Sim, têm resultados, e muitas vezes, melhores do que com medicamentos mais potentes que tratam apenas os sintomas. Quando se trata os doentes com cuidados que equilibram todos os sistemas do corpo, consegue-se um efeito maior e mais duradouro. Deixa-se a pessoa com mais vitalidade porque não se drena a sua energia, mas revigoramo-la, ou seja, tem mais recursos para que o tratamento dure mais. Por outras palavras, esta medicina trata as causas, não os sintomas.Vamos à causa raiz do possível trauma ou do possível problema que, ao nível emocional, que pode tê-lo desencadeado do ponto de vista biográfico. É como fazer uma ligação entre a biografia da pessoa com o momento em que a doença surgiu, ver um pouco da origem na sua biografia.
Integrall: Permita-me a comparação, mas esta medicina lembra-me as mezinhas das nossas avós.
Amparo Sánchez: Sim, é isso mesmo, porque a enfermagem antroposófica baseia-se na medicina tradicional ocidental. Tem muito a ver com plantas, minerais que são cultivados e têm a ver com o Ocidente. Portanto, é uma medicina tradicional de um ambiente que surgiu na Europa Central.
Integrall: Que países têm clínicas de medicina e enfermagem antroposóficas?
Amparo Sánchez: Suíça, Holanda e Suíça têm clínicas de medicina antroposófica. Em Espanha, também há, onde se inclui o Centro de Salut Vital – Zuhaizpe, que é um centro onde pode ter uma estada – com uma consulta médica -, onde as pessoas podem cuidar e trabalhar o emocional, o psicocorporal e o físico.
Integrall: Como é a reação dos pacientes que procuram a medicina antroposófica pela primeira vez? Rejeitam-na ou aceitam-na?
Amparo Sánchez: Não rejeitam. Quando veem os resultados, querem, procuram e também a promovem, espalham-na a outras pessoas. Transmitem à família, aos amigos, porque é um remédio que cuida da vida do ser humano.

“Existe uma ligação direta entre a natureza, o órgão e o ser humano”
Integrall: Os nossos órgãos funcionam de acordo com o ritmo da natureza?
Amparo Sánchez: Sim, é como se nossos órgãos formassem um organismo, esse microcosmo que é um organismo que está em ligação com a natureza, com as estrelas, com o nosso céu que cuida de nós. E nesse microcosmo, que carregamos, cada órgão está relacionado com a uma planta adequada, com um processo planetário, com as forças que também estão presentes na natureza. É por isso que vamos à natureza, apanhamos plantas, minerais, que cuidam dos nossos órgãos, porque existe uma ligação direta entre a natureza, o órgão e o ser humano.
“O corpo nunca se prejudica, nunca se suicida. O corpo sempre cuidará de sua saúde”
Integrall: A Amparo costuma dizer que esta é uma medicina que permite “deixar de ser paciente para passar a ser ciente, atuante”. Esta é uma medicina que ensina as pessoas a tomarem as rédeas da sua saúde?
Amparo Sánchez: Sim, de facto, essa é a frase que eu mais gosto, que é deixar de ser um paciente e tornar-se num ator. Um protagonista que assume o controle de si mesmo, que toma as rédeas de suas vidas, que se levanta e se mantém firme, assumindo a responsabilidade, mas responsável através de ações saudáveis para não prejudicar seu corpo. Porque o corpo nunca se prejudica, nunca se suicida. O corpo sempre cuidará de sua saúde.O que fazemos é acompanhar os doentes para tornar isso possível. A partir daí, os pacientes sempre querem trabalhar para o seu próprio bem e participar da sua própria saúde. Trabalhamos, também, para que entendam que podem curar-se com essa ajuda e que não têm de depender sempre de médicos e químicos.É o poder de como eu cuido do meu próprio corpo, que busca a saúde – eu estou a seu lado. Eu não procuro poder apenas fora, mas dentro de mim, porque sei que esse poder está dentro e que o médico, principalmente, o médico do futuro, é também aquele que vai acompanhar o paciente para que o corpo encontre o remédio saudável e o caminho para a saúde.
Integrall: Este tipo de enfermaria dá ao corpo o tempo que necessita para curar-se e para alcançar o equilíbrio?
Amparo Sánchez: Sim, ajuda a alcançar o equilíbrio, porque não intervém retirando forças vitais; pelo contrário, cuida para que as forças do corpo estejam bem vivas, bem ativas, e se possa curar.Removemos toxinas, removemos elementos que interferem na saúde e deixamos a própria saúde com suas forças mais puras, autênticas e genuínas. É uma prática de enfermagem que ajuda a fortalecer o corpo de forma integrativa e cuidadosa para que o ser humano se sinta cuidado e sinta que tem a força dentro de si.
Integrall: A Amparo faz uma distinção entre curar os sintomas e sanar, ou seja, despertar o médico interno que reequilibra a homeostasia?
Amparo Sánchez: É isso. Há uma diferença entre curar e sanar. É como se, ao remover os sintomas sentir que eliminei o problema ou melhorar a saúde, que é a verdadeira cura, porque o corpo nunca perderá a sua força e concentrar-se-á na saúde. Não nos concentramos tanto na patologia e na doença, mas, sim, em melhorar a saúde. É como acender a luz num lugar escuro, não importa quão pequena seja, essa luz iluminará e trará saúde a toda a escuridão do corpo.
“Deixamos o corpo encontrar o caminho para a saúde, mas acompanhamo-lo para lhe dar modelos saudáveis”
Integrall: A enfermaria antroposófica defende que devemos deixar o corpo curar-se a si mesmo?
Amparo Sánchez: Sim, mas de forma inteligente. Deixamos o corpo encontrar o caminho para a saúde, mas acompanhamo-lo para lhe dar modelos saudáveis. Assim, se ele estiver perdido, se estiver perdido por ter perdido o equilíbrio, por ter perdido o rumo, nós ajudamo-lo a encontrar o modelo certo através de plantas, minerais, óleos, fricções, massagens e banhos. Então, o corpo orienta-se e encontra o caminho perdido, encontra a força para alcançar esse objetivo de saúde.
Integrall: O nosso médico interno é o nosso próprio corpo?
Amparo Sánchez: O médico interior é aquele ser interior que procura a saúde, que deseja o bem. Devemos ouvi-lo e ao mesmo tempo, e ajudá-lo a alcançá-la, removendo os obstáculos. É como se eu removesse os obstáculos, removesse o tóxico, removesse o que está a descarrilá-lo, removesse o que não funciona para lhe dar a possibilidade de alcançar a saúde.
“Temos de tratar a mente e o corpo simultaneamente, porque, se não o fizermos, curamos o corpo, mas a mente não se cura”
Integrall: As doenças têm causas emocionais?
Amparo Sánchez: Sim, tenho a certeza de que há uma percentagem muito, muito, muito, muito alta. Eu quase diria que isso acontece em dois sentidos. Existem doenças psicossomáticas e somatopsíquicas. Existem doenças em que tudo o que é psicológico e emocional terá impacto no corpo. E também, quando o corpo sofre algo, quando há uma deterioração em algum órgão, tal pode originar um humor. É por isso que temos de tratar a mente e o corpo simultaneamente, porque, se não o fizermos, curamos o corpo, mas a mente não se cura. Temos de cuidar de ambos.
Precisamos de falar ao nível mental, emocional e biográfico. O que aconteceu na vida da pessoa? Como se sentiu? Quando é esse desconforto apareceu? Quando tomou aquela decisão? E também olhar para o seu corpo para ver qual sintoma que surgiu. Eu olho para o sintoma como um sinal que me diz que há algo ali para ser resolvido.
Integrall: O que é que uma febre quer dizer, por exemplo? Que grito está a dar o corpo?
Amparo Sánchez: A febre é um mecanismo que nosso sistema imunológico usa para superar e tratar o aumento de temperatura causado por vírus, bactérias e tumores. Quando a febre sobe, é porque o corpo está a tentar organizar-se. Esse aumento de temperatura é para equilibrar os processos do corpo. Então, o que essa febre me está a dizer é: cuide-se, o corpo precisa se manter aquecido. Ela está a avisar-me que esse aumento de temperatura não deve ser eliminado, não deve ser reduzido, não deve ser ignorado, mas, antes, deve ser acompanhado, talvez baixando um pouco alguns graus, mas mantendo a febre porque ela está a ter um efeito benéfico no corpo.
Integrall: Quer dizer que a enfermagem antroposófica não defende medicamentos contra a febre?
Amparo Sánchez: Não. Pode dar-se um antibiótico num determinado momento, mas só para manter a febre sob controle nos 38/38,5 graus. Também se pode baixar um pouco com banhos de água com limão, amenizando um pouco a febre, mas deixando o seu efeito permanecer, porque senão, na idade adulta, ou em outros momentos quando o corpo tiver febre, o sistema imunitário não está treinado. O nosso sistema imunitário precisa permitir-se ter febre, desde a infância, para que o próprio corpo possa recuperar-se à temperatura correta, depois de cumprido o propósito da febre.
Esses banhos são para o corpo todo, às vezes, aplicados nos pés e nas mãos.Normalmente, quando as crianças têm febre muito alta, pode-se aplicar compressas embebidas em água com limão nos braços, antebraços, barriga das pernas e pés. Tal diminuirá a temperatura, mas manterá o sistema imunológico ativo e a funcionar, como necessita.
Integrall: Em quanto tempo baixa a febre com esses banhos?
Amparo Sánchez: Depende, mas em princípio, uma criança, que responde muito bem, estará melhor no dia seguinte. Claro que tem de se considerar o processo individual, como está a vitalidade da criança. Quando há vitalidade, é muito fácil para ela responder facilmente, mas se o organismo estiver um pouco enfraquecido, levará mais tempo.
Integrall: E num adulto?
Amparo Sánchez: Um adulto, muitas vezes leva mais tempo porque essa vitalidade, essa parte etérica vital, em pessoas mais velhas, é sempre menor.

Integrall: Quantas pessoas já acompanhaste ao longo da vida?
Amparo Sánchez: Não sei, não sei. Só aqui pelo centro Zuhaizpe passam mil pessoas por ano.
“(As pessoas) sentem que há um caminho, que são revitalizadas, que melhoram, que, com algo simples, o seu corpo se sente melhor. Recuperam o entusiasmo”
Integrall: Como é que elas se sentem depois de tratamentos antroposóficos?
Amparo Sánchez: O que observo é que as pessoas se sentem cuidadas ao serem apoiadas no desconforto que as incomoda, mas também cuidadas em si mesmas, na sua pessoa, no seu ser, na sua dor, que não é apenas uma dor física, mas também uma dor emocional que está por detrás dela. Sentem que há um caminho, que são revitalizadas, que melhoram, que, com algo simples, o seu corpo e o seu ser se sentem melhor. Recuperam o entusiasmo.
Integrall: Esta é uma enfermagem de autocuidado e de proximidade com o ser humano?
Amparo Sánchez: Sim, de facto. É sobre proximidade e humanidade, sobre cuidar da pessoa e sobre confiança.O cuidado é uma via de mão dupla. Tem de ser a pessoa que precisa e a pessoa que se importa. Então, esse encontro entre as duas pessoas tem de acontecer, e desse encontro emerge algo mágico que está além das duas pessoas, que também são forças de cura, que são sutis, invisíveis, mas que também estão presentes.A substância faz muito, mas também o encontro, o fruto do encontro.
Integrall: Que conselhos de saúde daria a quem está a ler esta entrevista?
Amparo Sánchez: O meu conselho é confiar nos poderes de autocura do corpo. Confiar que, dentro de cada um de nós, existe um grande potencial para superar doenças, desequilíbrios e qualquer coisa que nos tenha saído do controle, em algum momento.
Confiar na força interior de cada um.
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