Estudou Engenharia Zootécnica pensando que ia trabalhar no campo, com animais, mas as suas expectativas saíram goradas. Para compensar o esforço no mundo corporativo, foi estudar Feng Shui e de repente, o ‘hobby’ tornou-se na sua profissão. Há 25 anos que Alexandre Gama se dedica à harmonização e limpeza energética de espaços, em casas e empresas. Além disso, dá formações e cursos anuais: o de 2025/2026 começa este mês. Participou ainda como decorador no programa de televisão “Querido Mudei a casa”, escreveu para revistas especializadas e é autor do livro “Feng Shui: Lares e Costumes Portugueses”.
Integrall: Formaste-te em Engenharia Zootécnica, mas anos depois percebeste que não estavas no sítio certo?
Alexandre da Gama: Sim, é verdade. Eu fiz o percurso tradicional, que nos é orientado pela maioria das famílias, em Portugal, que é fazermos a escola e depois irmos para a universidade e tirarmos um curso que nos dê uma profissão. Na altura, escolhi Engenharia Zootécnica porque sempre gostei muito da relação com os animais, com a natureza. Penso que foi, também, um pouco pela ilusão de achar que este curso me iria orientar para trabalhar na agricultura, tal como na agronomia, mas as portas que se me foram abrindo, levaram-me a trabalhar na indústria alimentar de produtos de origem animal, o que fez com, ao fim de muito pouco tempo, me sentisse completamente frustrado porque estava fechado dentro de armazéns frigoríficos. Então, percebi que não era por ali.
“Fui estudar Feng Shui porque precisava de algo que me pudesse preencher a nível pessoal, algo que me motivasse e compensasse o esforço em que eu estava na profissão”
Integrall: Estavas congelado?
Alexandre da Gama: De certa forma, porque eu vivia dentro de armazéns frigoríficos. Eram trabalhos – e quem trabalha na área de logística sabe o quão duro é – de 24 horas por dia, sete dias por semana, em que não há paragens, não há descanso. É muito bom termos os supermercados abertos todos os dias, mas nem sempre as pessoas sabem o que está por detrás disso para permitir que haja alimentos nas prateleiras para nos servir. Percebi logo que não era a minha praia e procurei outras coisas. Ainda estive envolvido em projetos ligados ao ministério da Agricultura, mas a vida levou-me para outros caminhos. Foi nessa altura que eu fui estudar Feng Shui, não para ser uma profissão, mas algo que me pudesse preencher a nível pessoal, que me motivasse e compensasse o esforço em que eu estava na profissão. Quando dei por mim, estava a fazer do Feng Shui uma profissão, já lá vão 25 anos.
Integrall: Ao fim de quanto tempo percebeste que as tuas expectativas sobre a licenciatura e o mercado de trabalho nessa área tinham saído goradas?
Alexandre da Gama: Em menos de 10 anos. Eu comecei em empresas, talvez, com 24/25 anos: trabalhei dois anos em matadouros de aves, três ou quatro na grande distribuição e depois, estive dois anos em projetos ligados ao ministério da Agricultura, portanto, com menos de 30 anos, já tinha percebido que não era por ali.
Integrall: Mas nesse período subiste muito alto dentro dessas empresas?
Alexandre da Gama: Foi tudo muito rápido. Em todos os lugares onde estava, era promovido ao fim de seis meses e depois passava para outro departamento. Aconteceu, muitas vezes, começar por trabalhos técnicos, que era o que me levava àquela empresa e me motivava, e muito rapidamente era puxado para chefe de equipa, atingindo patamares de trabalhos puramente burocráticos ou políticos e em que, a certa altura, tinha de ir às reuniões, defender as equipas, definir estratégias da empresa, mas onde perdia o contacto com o produto em si.
Integrall: Estava longe do ambicionavas quando te formaste?
Alexandre da Gama: A minha ideia sempre foi estar de mangas arregaçadas a trabalhar diretamente com o produto e não estar a gerir pessoas ou egos, que é o que acontece nestes mundos.
Integrall: Foste estudar Feng Shui para compensar esse esforço nas empresas. Porquê o Feng Shui e não outra área qualquer?
Alexandre da Gama: Eu sempre tive algum fascínio por História da Arte, Design, Arquitetura, embora nunca tivesse pensado nisso como uma profissão, mas era algo que puxava por mim desde miúdo.
Nessa altura, ao procurar ferramentas para andar mais motivado, mais equilibrado, descobri workshops em que me ensinavam a trabalhar com energia. De repente, apareceu alguém que me falou num curso de Feng Shui e percebi que era um género de decoração, mas com muita coisa por trás, porque vai buscar as energias da natureza, a exposição solar, no fundo, traz para dentro de casa das pessoas a natureza, os fenómenos naturais e isso sempre me interessou imenso.
Integrall: Foi isso que te atraiu no Feng Shui?
Alexandre da Gama: Acho que sim: tinha a ligação do lado estético, dos ambientes, mas trazia, também, uma componente energética ligada à natureza.
“O Instituto Macrobiótico de Portugal teve o mérito de, pela mão do Francisco Varatojo, ser a maior escola de macrobiótica do mundo”
Integrall: Com quem é que foste aprender Feng Shui?
Alexandre da Gama: Eu tive a sorte de descobrir que havia uma grande escola em Portugal, o Instituto Macrobiótico de Portugal – e embora nos sintamos, às vezes, muito pequeninos e não nos apercebamos do quão grandes podemos ser-, o Instituto Macrobiótico de Portugal teve o mérito de, pela mão do Francisco Varatojo, ser a maior escola de macrobiótica do mundo. A macrobiótica acaba de ser a casa-mãe de todas estas disciplinas: da alimentação, do shiatsu e do Feng Shui.
O Instituto Macrobiótico não trabalhava só com professores nacionais, tinha uma rede muito forte de professores internacionais, que trazia a Portugal e, portanto, tive a sorte de integrar uma das primeiras turmas e estudar com profissionais muito bons, reconhecidos a nível mundial, que me abriram portas, a mente, horizontes.
Integrall: Foste pioneiro em Portugal?
Alexandre da Gama: A nível profissional, sim, fui dos primeiros consultores de Feng Shui. Tinha alguns colegas que já eram decoradores ou arquitetos e que adicionaram o Feng Shui ao seu trabalho, mas eu fui aquele que vinha de uma área completamente diferente, a engenharia, e se instalou como consultor de Feng Shui a tempo inteiro, portanto, nesse caso, fui um pioneiro. E talvez por ter sido pioneiro, conseguir encontrar o equilíbrio e dar resposta às solicitações, tenha acabado por ser convidado, não só por jornais e revistas, mas, também, por editores de livros, o que me abriu as portas para a televisão, que é aquela grande janela que nos leva mais longe.
Integrall: Estiveste no programa “Querido Mudei a Casa”?
Alexandre da Gama: Sim, entre vários programas.
Integrall: Quando foste para o “Querido Mudei a Casa” já tinhas começado como consultor de Feng Shui?
Alexandre da Gama: Sim. Comecei a trabalhar com Feng Shui, em 2000, por isso, quando fui para o “Querido Mudei a Casa”, em 2004/2005, já tinha um leque de clientes.
Integrall: Em que momento é que decidiste deixar o mundo empresarial e passar a trabalhar só com Feng Shui?
Alexandre da Gama: Eu deixei de trabalhar no mundo empresarial em 1999, quando estava a meio do curso de Feng Shui. Nesse interregno, aceitei uma série de trabalhos – fui contrarregra no teatro, fiz figuração em cinema- e a partir do ano 2000, comecei a ter clientes de Feng Shui, não os suficientes para alargar todos os outros projetos, mas para ir conciliando, até que, a partir de 2002, passei a dedicar-me a 100 por cento ao Feng Shui.
Integrall: Trocaste o certo pelo incerto?
Alexandre da Gama: Completamente.
“Há um momento em que é preciso um afastamento emocional e até físico daquela tensão e é nesse momento que, de repente, começa tudo a voar, começa tudo a crescer”
Integrall: Como é que os teus familiares reagiram a essa mudança profissional?
Alexandre da Gama: Primeiro, sentiram insegurança, questionando-se se eu estaria a fazer a coisa certa, mas, ao mesmo tempo, estavam disponíveis para me ajudar, só que essa ajuda causava-me peso e puxava-me para baixo: por um lado, sentia-me apoiado, por outro lado, sentia-me diminuído -parece que não acreditavam que ia correr bem e isso foi uma grande lição. Uma coisa é dizerem-me: “sempre que houver necessidade, eu estou cá, mas vais ver que o teu projeto vai ser fantástico. Outra coisa é estarem sempre a lembrar-me: “não te esqueças que eu estou aqui” – quando esta atitude é persistente, acaba por atrofiar, em vez de ajudar e por isso, há um momento em que é preciso um afastamento emocional e até físico, daquela tensão e é nesse momento que, de repente, começa tudo a voar, começa tudo a crescer e a evoluir.
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Integrall: Crês que há um paradigma na nossa sociedade de que é importante ter um emprego, “só” para pagar contas, mesmo que as pessoas se sintam infelizes?
Alexandre da Gama: Pode não ser transversal a toda a gente, mas eu cresci nessa cultura de que precisamos de um trabalho para a vida toda, principalmente, se for numa empresa estável – e se for no Estado, ainda melhor. Quando, de repente, há uma pessoa na família que não aceita um percurso da estabilidade, e antes, pelo contrário, anda a saltar de emprego em emprego e a fazer experiências diferentes, porque é assim que ela evolui e se desenvolve, quem está de fora não entende.
Há sempre instabilidade, é verdade, e eu paguei essa fatura: nem sempre foi fácil ter um carro novo, voltei algumas vezes para a casa da minha mãe – tive a sorte de ter sempre a porta aberta -, tive ajudas fundamentais, porque, de facto, é sempre um caminho incerto. Mas, ao mesmo tempo, é um caminho de grande crescimento, porque, depois, quando as coisas funcionam, funcionam a dobrar, a triplicar.
Eu conheço muitas pessoas que tinham carreiras muito firmes e estáveis e quando passámos, nos últimos anos, pela “fraudemia”, foram obrigadas a ir para casa, ficaram sem trabalho, tiveram de rescindir contratos, numa carreira, em que tinham investido e que, de repente, lhes foi cortada. E eu com a tal carreira instável, tive a sorte de conseguir manter o meu caminho com muito mais estabilidade do que essas pessoas que estavam dependentes de outras empresas e que perderam completamente o chão.
Integrall: A segurança é interior?
Alexandre da Gama: Sim.
“Aprendi que mais vale ser eu a mudar do que ser obrigado a mudar à força”
Integrall: As crises na nossa vida são oportunidades de mudança de caminho? Alexandre da Gama: Claramente. Quando temos algo a estrangular, por exemplo, quando há uma altura em que um negócio não funciona bem, é o universo a dizer que é preciso olhar para ele e fazer mudanças. Portanto, quando eu começo a ver que, por qualquer razão, o meu projeto já não é aquilo que era, ou que já não me motiva da mesma forma, ou que já não dá o mesmo rendimento que eu estava à espera, ou que já não está a cumprir as expectativas, claramente, é para eu olhar para ele e perceber que há coisas a mudar. Aprendi ao longo dos anos que mais vale ser eu a mudar do que ser obrigado a mudar à força.
“O Feng Shui é uma forma de olharmos para a nossa casa não como matéria (…) É como se a casa tivesse um espírito ou tivesse uma alma”
Integrall: O que é que é o Feng Shui?
Alexandre da Gama: Se traduzimos à letra, Feng Shui quer dizer vento e água. É uma disciplina que vem da China, mas que é transversal às culturas do mundo inteiro – todos trabalhamos com o Feng Shui – ele tem a ver com saberes antigos, das civilizações antigas, porque tem a ver com a nossa ligação à natureza e tal como o seu nome, vento e água, tem a ver com fluxos. É uma forma de olharmos para o nosso espaço, para a nossa casa, não apenas como um espaço físico com paredes, portas, cores, mobiliário, mas para percebermos que, para além de toda essa matéria, há uma vida. É como se a casa tivesse um espírito ou tivesse uma alma. Há um movimento que faz com que uma sala com mais luz seja mais ativa, com que outra com menos luz seja mais calma, com que um espaço mais aberto tenha um determinado comportamento em termos de movimento e com que um mais apertado tenha outro tipo de movimento. É como olhar para os espaços através dos movimentos e mesmo quando uma casa está vazia ou quando alguém vive sozinho, consegue-se perceber que há uma zona mais rápida e uma zona mais lenta na casa – o Feng Shui ajuda-nos a sentir o fluxo energético dos espaços.
Integrall: E permite harmonizar esses espaços?
Alexandre da Gama: É uma ferramenta que permite criar um espaço harmonioso e adequado às necessidades de quem o utiliza. Só isso já faz uma diferença enorme, com um espaço adequado às necessidades a pessoa vai ter muito mais conforto, muito mais estabilidade, muito mais equilíbrio e, como tal, não vai sofrer qualquer tipo de stress por parte do espaço, antes pelo contrário, o espaço vai até compensar outros desgastes que a pessoa tenha, porque está num ambiente que lhe dá proteção. No entanto, o Feng Shui não está só ligado aos espaços. Eu posso preparar um espaço segundos as regras de Feng Shui, mas se a pessoa não estiver bem, a energia do espaço também não vai ficar, porque a energia resultante do espaço não tem a ver só com a decoração, com a estrutura, com a energia do espaço físico, tem a ver também com a energia da pessoa que o habita. Assim, para além do espaço, temos de estudar a energia das pessoas que o habitam, por isso é que o Feng Shui não é só do espaço, é também das pessoas. Nesse estudo, eu vou considerar se a pessoa dorme bem ou não, a sua idade, a sua atividade profissional ou física, as suas rotinas, o seu ambiente familiar, se está emocionalmente em equilíbrio ou se tem alguns desafios relacionais. Para isso, eu utilizo, também, a astrologia do Ki das nove estrelas, que é um ramo de astrologia que trabalha com os mesmos arquétipos do Feng Shui e que, de uma forma muito simples, me ajuda a orientar a situação, pois diferentes pessoas têm necessidades diferentes. Apesar de parecer que o Feng Shui vai ajudar a trabalhar a casa, é preciso começar pela pessoa – a casa é uma consequência da vibração da pessoa e não apenas o contrário. É a partir da pessoa, que começamos a fazer todo o estudo energético e só depois, vamos montar a casa ideal para ela, com aquelas características.
“A astrologia do Ki das 9 estrelas trabalha com um código de três números, que é o padrão energético que acompanha toda a vida da pessoa”
Integrall: Segundo a astrologia do Ki das nove estrelas, cada pessoa tem um número que é composto por três algarismos. O que significam?
Alexandre da Gama: Essa é a versão mais simples da astrologia do Ki das nove estrelas, que trabalha com a vibração de nove arquétipos diferentes, que habitam no conjunto da nossa energia, mas que têm níveis de importância diferentes. Nessa hierarquia, encontramos um código de três números, que é o padrão energético que acompanha toda a nossa vida: os dois primeiros indicam a energia com que viemos cá vibrar – o primeiro número é a nossa energia não consciente e o segundo é já uma vibração de que temos consciência e com a qual nos é mais fácil lidar, é a forma como pensamos, como vivemos as emoções, como comunicamos. O terceiro número não tem nada a ver com a energia, mas com o tema que viemos cá trabalhar em primeiro lugar. Estes três números são apenas a capa do livro. Para além destes, podemos desenvolver um tema que inclui os nove arquétipos da vida, mas estes três já nos dão muita bagagem para percebermos quais as nossas forças e quais as nossas fragilidades e é engraçado que, quando as conhecemos, temos outra visão de nós próprios e daí justificar que, para mim, tenha sido fácil andar saltar de projeto em projeto, porque eu sou um tipo de energia que não gosta de rotina e assim que entrava em rotina, eu desmotivava completamente.
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“Devemos viver com aquilo que vem ter connosco naturalmente”
Integrall: Tu trabalhas com esses ciclos e com esses números das pessoas?
Alexandre da Gama: Eu começo por estudar a energia da pessoa e depois vejo outros fatores que possam estar a condicionar a sua vibração e a sua a vida, nomeadamente o tipo de alimentação -apesar de eu não ser especialista, tenho as bases da macrobiótica. Não sou nada fundamentalista, sou daqueles que defendem que a pessoa deve experimentar de tudo e depois, seguir aquilo que lhe for mais natural. Aliás, devemos viver com aquilo que vem ter connosco naturalmente. Assim, no estudo da casa, eu incluo a alimentação e alguns comportamentos da pessoa para que possa tirar o maior partido das características do espaço onde habita. Para as características daquela pessoa – que são sempre as mesmas – é melhor um determinado tipo de casa, mas, pode haver uma fase da sua vida, em que possa precisar de outro tipo de habitação – no Feng Shui, nunca trabalhamos com receitas, mas com o conceito de que cada pessoa, em cada situação, é um caso diferente. O trabalho é sempre personalizado.
Integrall: No Feng Shui, cada ano tem um número?
Alexandre da Gama: São os chamados trânsitos, que funcionam de ano a ano, num total de nove, de acordo com o Ki das nove estrelas. Apesar de termos um padrão fixo, esse padrão vai ter muitas ações e necessidades ao longo dos anos. Vamos tendo ciclos de nove em nove anos, ou seja, estamos sempre em fases diferentes, sempre em processo de evolução. É como se a vida fosse uma espiral que vai circulando e de nove em nove anos, estamos, outra vez, no mesmo sítio, só que noutro patamar, mais acima ou mais abaixo, em função do caminho.
“O Feng Shui integrativo vê a pessoa como um todo”
Integrall: Onde é que entra o Feng Shui integrativo com que tu trabalhas?
Alexandre da Gama: O Feng Shui integrativo é exatamente esta visão mais global em que não serve ser apenas decorador, ou arquiteto, ou organizador de espaços. Eu tenho de olhar para a pessoa como um ser completo e perceber se o seu ambiente familiar funciona, se a pessoa está emocionalmente equilibrada, se tem saúde, se tem uma boa relação com a matéria e com o dinheiro, se tem uma boa motivação no seu trabalho, se se sente reconhecida no emprego. Portanto, eu consigo ter um mapa energético e de eficácia da vida da pessoa. É esta visão a que eu chamo Feng Shui integrativo, porque integra tudo – temos várias ferramentas que podemos trabalhar em simultâneo.
“Felizmente, hoje em dia, grandes empresários já têm uma visão muito aberta (…) Sou muitas vezes chamado para fazer Feng Shui e melhorar os ambientes das empresas”
Integrall: O Feng Shui também trabalha com os espaços nas empresas?
Alexandre da Gama: Sim. Uma pessoa pode ter tudo bem em sua casa, mas na sua empresa nada funciona, porque não é ela que decide – em casa pode decidir onde vai pôr os móveis, mas no trabalho não tem essa liberdade. Felizmente, hoje em dia, grandes empresários já têm uma visão muito aberta e eu sou muitas vezes chamado para fazer Feng Shui e melhorar os ambientes das empresas.
Integrall: Em Portugal?
Alexandre da Gama: Sim, em Portugal. Neste momento, 30 a 35 por cento dos meus clientes são empresas porque há esta abertura, esta visão e é muito fácil medir resultados de um trabalho bem feito de Feng Shui nas empresas: há menos rotação de pessoal, há maior satisfação, há maior rentabilidade do trabalho. Claro que há determinadas profissões em que não dá para aplicar Feng Shui: eu não vou a uma oficina dizer ao mecânico como é que ele tem de ter as máquinas de soldadura ou que têm de ter os pneus todos virados para o lado esquerdo. É um disparate.
Integrall: Hoje em dia, há muitas empresas com regime misto, em Portugal e em que várias pessoas utilizam a mesma secretária. Isso é bom ou mau, segundo o Feng Shui?
Alexandre da Gama: Eu acho que tem um lado bom e tem um lado mau. Do ponto de vista económico, sabemos que uma secretária, partilhada por três ou quatro pessoas, está a ser rentabilizada. Além disso, há uma grande vantagem em não ter uma secretária marcada territorialmente com o vasinho, com a fotografia da criança, que era aquilo que antigamente funcionava, porque era uma forma de a personalizar, das pessoas se sentirem um bocadinho mais acolhidas, de tornar o ambiente menos frio, mas não sei se funcionava eficazmente. Antes de eu começar alguns projetos, preciso, primeiro, de esvaziar a secretária toda, porque quanto mais vazia estiver, mais fácil é, para mim, trabalhar. Quando se começa a acumular coisinhas numa mesa, é tanta a confusão que, em vez de ajudar, vai desorientar e distrair. Por isso, uma mesa mais vazia ajuda-nos a trabalhar melhor do que uma mesa cheia.
“O fenómeno da fertilidade é muito fácil resolver com o Feng Shui (…) porque é uma questão energética e não física”
Integrall: Podes dar exemplos de melhorias a que já assististe quer na vida das pessoas, quer das empresas que te consultam?
Alexandre da Gama: Por exemplo, o fenómeno da fertilidade é muito fácil resolver com o Feng Shui, embora as pessoas continuem a achar que a fertilidade tem a ver com questões físicas. É verdade que uma mulher que tenha uma infertilidade física, ou seja, que não tenha desenvolvido os seus órgãos reprodutivos, dificilmente vai ser mãe. Mas uma mulher que já foi a várias consultas e o médico lhe diz que tem tudo a funcionar – e o marido também-, não sei como é que não consegue engravidar, porque a fertilidade é uma questão energética – não física -, e quando as pessoas percebem isso, fica tudo muito mais fácil. Não tem a ver com esforço, tem a ver com equilíbrio de vibração. Através da organização da casa, da mudança da energia da casa, podemos proporcionar uma mudança da energia das pessoas que a habitam. O trabalho é feito em duas frentes: a da tomada de consciência e a da manipulação física da casa: mudança da posição da cama, do sofá, da decoração, da organização, que abre espaço a uma nova vibração, a uma nova forma de estar.
Acompanhei um casal que tinha um negócio próprio que o obrigava a trabalhar todos os dias até às duas da manhã e como não engravidava, o espaço destinado ao quarto do bebé tinha sido transformado num escritório. Como é que um casal que trabalha todos os dias até às duas da manhã tinha espaço na sua vida para ter uma criança? Às vezes, basta um pequeno alerta. O que é que se fez? O quarto do bebé deixou de ser escritório e voltou a ser um quarto, não de bebé, mas disponível para poder ser transformado como tal. Como o negócio já tinha um volume significativo, o casal pôde alugar um escritório fora de casa e contratar uma pessoa para o ajudar. Passado um ano, teve uma criança e passados três anos, duas. Não houve nenhum passo de mágica, eu não tenho nenhum dom para resolver estas questões, apenas utilizo as ferramentas do Feng Shui para ajudar as pessoas a tomarem consciência do que é que está e não está a funcionar nas suas vidas – quando algo não está a funcionar, é uma chamada de atenção para mudar.
Integrall: Como é que explicas o Feng Shui aos céticos?
Alexandre da Gama: Não explico, não me dou esse trabalho, porque eu já passei por isso e quando acontecia, era uma necessidade de braço de ferro. Não estou cá para provar nada a ninguém. Estou disponível para quem quiser e precisar da minha ajuda. Eu estou visível, as pessoas sabem onde estou. Quando sentem necessidade, vêm ter comigo.
“Não evangelizo ninguém, mas estou disponível para dar e partilhar tudo aquilo que sei com quem me procura”
Integrall: Muita gente te procura?
Alexandre da Gama: Felizmente. Acho que é a consequência exatamente de eu não querer evangelizar ninguém, mas estar disponível para dar e partilhar tudo aquilo que sei com as pessoas que me procuram e depois são os meus clientes que se tornam nos meus maiores e melhores vendedores.
Integrall: Tu dás consultas e cursos?
Alexandre da Gama: Sim, eu tenho várias consultas diferentes. Tenho as consultas de Feng Shui, em que eu vou a casa da pessoa e proponho uma nova organização do espaço: uma decoração com novas cores, novos materiais ou até uma mudança completa daquela casa. O trabalho de Feng Shui pode ter vários níveis: desde a mais pequena mudança até à mais estrutural. Para além disso, faço limpezas energéticas de espaços, faço a leitura dos sinais da casa e tenho as consultas de astrologia do Ki das nove estrelas.
Integrall: E tens também cursos anuais?
Alexandre da Gama: Tenho alguns workshops presenciais, que, pontualmente, vou dando em Lisboa, na Lousã e em Leiria e depois, tenho o meu curso online anual, que é o de Feng Shui Integrativo. No primeiro ano, ensino todas as ferramentas ligadas à organização e à decoração da casa e no segundo ano, a astrologia do Ki das nove estrelas e as limpezas energéticas de espaços.
Integrall: É possível fazer módulos avulso?
Alexandre da Gama: Sim.
Integrall: Quem quiser encontrar-te, basta ir ao teu site?
Integrall: Por que é que, segundo o Feng Shui , o ano começa em fevereiro?
Alexandre da Gama: Como eu disse, o Feng Shui está ligado aos fenómenos da natureza e se considerarmos estas questões, temos que colocar de lado a ideia do ano civil e pensar de que forma é que os pescadores e os agricultores mediam o ano. Há vários fenómenos marcantes: as estações do ano e as luas acabam por ser as duas ferramentas que precisam de ser estudadas e registadas para perceber que trazem, realmente, vibrações e características diferentes a cada uma das épocas. Então, o ano energético não começa no dia 1 de janeiro, mas, sim, no dia 4 de fevereiro, porque é a semana do início da energia da primavera. Nós estamos habituados a pensar que a primavera começa no dia 21 de março, mas não é correto. Se olharmos para a energia, o dia 21 de março é o pico, é o máximo da energia da primavera; o equinócio é o meio da primavera, não é o início. Recuando um mês e meio, paramos na primeira semana de fevereiro, daí o 4 de fevereiro.
“2026 vai ser um ano para procurar a paz, a transparência, a verdade, mas é muito importante que cada pessoa tenha consciência da sua verdadeira essência”
Integrall: Qual é o número da energia de 2026 e o que é que se espera?
Alexandre da Gama: Segundo o Feng Shui, 2026 vai ser um ano um e vai corresponder à entrada num ciclo de nove anos. 2026 vai ser o ano água, de regeneração, de cura, vai ser um ano para aprendermos a ser mais flexíveis, mais tolerantes, mais concentrados na nossa própria direção – podemos ser flexíveis sem nos deixarmos perder, portanto, vai ser um ano para usar cada um usar a sua intuição, o seu sentido de direção, o seu propósito, para seguir o seu lado individual, mas sem ser obtuso. Vai ser para seguir aquela direção, mas serpenteando, tal como a água vai fazendo as necessárias curvas que se lhe vão apresentando no caminho.
2026 vai ser um ano para procurar a paz, a transparência, a verdade, mas é muito importante que cada pessoa tenha consciência da sua verdadeira essência, das suas verdadeiras necessidades porque, senão, pode ser uma grande sova emocional.