Rodrigo Ayoub foi um os palestrantes do 3º Congresso Internacional de Nutrição Integrativa Funcional (CINIF), com o tema: “Imunopausa: quando o sistema imune também muda com a menopausa”.
Com uma vasta experiência em medicina ortomolecular, modulação hormonal e longevidade, o médico exerce nas áreas da nutrigenómica, emagrecimento e saúde integrativa. Além da prática clínica, é coordenador e professor da GEMAE, que organiza o curso de modulação hormonal de Portugal e é autor do best-seller “O Método MES”, lançado em 2024.
Em entrevista ao Integrall, Rodrigo Ayoub defende que as mulheres devem começar a ser acompanhadas por um profissional de saúde ainda na pré-menopausa para preparar o corpo para a chegada de uma fase em que vão estar quase metade da sua vida.
Integrall: Hoje, veio aqui explicar que o sistema imunitário também muda com a menopausa. O que é que acontece ao corpo durante a menopausa?
Rodrigo Ayoub: A menopausa é quando o órgão reprodutor da mulher, o ovário, deixa de funcionar e a mulher sai dessa fase da vida, ou seja, da fase reprodutiva, só que, hoje, a mulher está a viver quase metade da vida nessa fase, que, na medicina chinesa, se chama segunda primavera. Então, nós realmente temos de ajudar a mulher a ter o máximo de qualidade de vida e para isso, temos a abordagem toda da medicina funcional integrativa, que é ajudar a mulher, nessa segunda fase da vida, que é quando ela deixa de produzir as hormonas, sai da fase de reprodução, deixa de ter a função de perpetuar a espécie e passa a ter outras missões na vida.
Integrall: Que alterações é que se dão no corpo da mulher nessa altura?
Rodrigo Ayoub: São muitas alterações no corpo inteiro da mulher. Uma das grandes más interpretações que existem na menopausa é quando a mulher diz: “doutor, eu não tive calores, então, não tive problemas”. Grande engano. O estradiol, que é a hormona mais potente que deixa de ser produzida durante a menopausa, tem uma função importante em todo o corpo da mulher, desde a qualidade dos cabelos, até aos tecidos, músculos, ossos e cérebro, todo o corpo da mulher beneficia quando ela tem níveis ótimos desta hormona, e quando ela deixa de a produzir, precisa realmente de ter ajuda de um professor, de um profissional de saúde – não precisa de ser médico- para tentar modular essas hormonas da forma correta.
Integrall: O sistema imunitário também muda. Que cuidados são necessários nessa altura para reforçar o sistema imunitário?
Rodrigo Ayoub: Existe uma forte relação entre as hormonas ovarianas e a imunidade e quando a mulher deixa de produzi-las, entra numa falência do sistema imunitário, com muito maior suscetibilidade para doenças, como cancro, infeções, entre outras. Então, a abordagem funcional defende a suplementação das hormonas, a otimização do estilo de vida e alguma suplementação nutricional, que podem fazer com que a imunidade dela, que vai estar afetada sempre pela diminuição das hormonas, comprometa menos a sua saúde.
Integrall: No que se refere à modulação hormonal, defende que deve ser natural, ou seja, com hormonas bioidênticas. Que hormonas são estas?
O uso de hormonas bioidências é um “preceito intransponível quando falamos em modulação hormonal”
Rodrigo Ayoub: Isso é um preceito intransponível quando falamos em modulação hormonal, que basicamente seria o equilíbrio hormonal, chamado de hormone balance, nos Estados Unidos. Nunca se consegue equilibrar um corpo se se usar químicos. As hormonas sintéticas não servem para conseguir equilíbrio. Talvez sirvam para melhorar sintomas, mas não servem para a equilibrar o corpo da mulher, que é o que procuramos. Então, é sempre com o uso de hormonas bioidênticas, também chamadas de isomoleculares, que são hormonas que têm a conformação exatamente igual à das que a mulher produzia pelo seu próprio ovário.
Integrall: Onde se compram?
Rodrigo Ayoub: Essas hormonas não se compram em farmácia, têm de ser prescritas por um médico, depois de um acompanhamento. Não é igual para toda a gente: a dose, a via, qual a hormona que a pessoa vai usar, depende muito de uma consulta prévia em que o médico vai avaliar a paciente, como um todo e equilibrar de acordo com as suas necessidades.
Integrall: Mas são vendidas onde?
Rodrigo Ayoub: Depois, podem ser adquiridas em farmácias ou em farmácias de manipulação. Preparamos as hormonas à medida, para aquela mulher.
Integrall: Essa medida depende do quê?
Rodrigo Ayoub: Essa medida depende de histórico de vida, histórico genético familiar, estilo de vida da mulher, a idade com que chegou à consulta, o tempo em que ela já anda na menopausa, o peso dela, a raça e como está nas análises. É multifatorial, são vários os fatores que vão determinar, não existe uma receita de bolo, porque existe uma individualidade bioquímica, cada uma é cada uma.
Integrall: Daí a importância da medicina integrativa?
Rodrigo Ayoub: Exatamente.

Integrall: É possível determinar a partir de que momento é que a mulher deve fazer a modulação hormonal?
Rodrigo Ayoub: A partir dos 40 anos, é a idade em que quase todas as mulheres vão entrar na pré-menopausa, que é o período que antecede a menopausa, hoje também chamada de transição menopausal ou climatério. A pré-menopausa, ou seja, o momento em que a mulher já não tem a função ovariana perfeita – a hormona ainda é produzida, mas não nos níveis como quando tinha 20 anos – é quando deve começar a ser acompanhada por um profissional, para não deixar o corpo dela chegar a estágio muito crítico ou, como costumo dizer, fazer o seguro depois de bater com o carro. É preparar o corpo para, quando entrar no momento em que realmente o ovário deixa de produzir, já estar bem equilibrado. Então, deve ser a partir dos 40 anos ou quando a mulher começar a notar mudanças no corpo.
Integrall: Por exemplo?
Rodrigo Ayoub: Por exemplo, quando se começa a esquecer muito das coisas, a estar com irritabilidade ou a dormir pior, quando antes ela não era assim.
Integrall: Costuma dizer que a menopausa não é um fim, é um nascimento biológico e emocional.
Rodrigo Ayoub: Eu sou muito de tocar na tecla de que menopausa é uma nova fase da vida da mulher, é uma ressignificação da vida. A mulher já cumpriu a função de perpetuação da espécie, reprodutora, já passou a função de criar os filhos, é uma fase em que normalmente os filhos já estão maiores, crescidos, vão sair de casa e ela, nessa altura, vai ter uma nova missão na vida, um novo propósito. Eu digo que é um recomeço da vida daquela mulher, que, hoje, pode viver metade da sua vida nesse período. É tempo de ressignificar e procurar novos propósitos.
“O ovário precisa que a mulher esteja tranquila, porque é o órgão que vai fazê-la ter um filho”
Integrall: A mulher passa metade da sua vida nesse período porque há maior longevidade, mas também há mulheres cada vez mais jovens a entrar mais cedo na menopausa. Deve-se a quê?
Rodrigo Ayoub: Hoje, existem mulheres com menos de 40 anos já com ovários disfuncionais, o que está relacionado com a vida que as mulheres levam: uma vida altamente stressante, com muitas responsabilidades, muitos requisitos e num ambiente muito desfavorável à tranquilidade ovariana. O ovário precisa que a mulher esteja tranquila, porque é o órgão que vai fazê-la ter um filho. Então, o que é que o corpo faz? Se vê uma mulher sob alto risco de vida, a passar por stress, “’pensa’: não vou dar um filho a uma mulher que está nesta situação. Vamos esperar que passe”. E nunca passa. Então, o ovário vai sofrendo muito com isso. Hoje, há uma grande quantidade de mulheres inférteis- há filas nas clínicas de fertilidade – e, como eu disse, menopausas precoces, porque as mulheres têm muitos estímulos que, talvez há duas gerações, não tinham.
Integrall: Porque não se fala tanto da andropausa como da menopausa? O corpo dos homens também se altera e, consequentemente, o seu sistema imunitário?
Rodrigo Ayoub: Com certeza. O homem também sofre esse processo. Hoje, o homem sofre num mundo altamente desfavorável, com muito stress, com muitos estímulos de recetores estrogénicos – das hormonas femininas – e é por isso que hoje existe, também, muita masculinização do homem e dificuldade na fertilidade, só que o homem tem uma grande diferença em relação à mulher: esse declínio é muito mais lento. O homem sai da fase reprodutiva, às vezes, aos 80 anos. Há homens com 70 e poucos anos a serem pais. Essa é a grande vantagem: a manutenção da função da gônada reprodutiva por mais tempo. Aliás, o homem morre ainda com função testicular.
Integrall: Conselhos para os homens?
Rodrigo Ayoub: Ter um estilo de vida saudável: diminuir o stress, melhorar a qualidade do sono, melhorar a alimentação, fazer atividade física todos os dias, diminuir o álcool, diminuir o excesso de cafeína, ter menos preocupações, mais felicidade, mais risos, mais convívio com as pessoas de que goste, apanhar sol. Viver a vida, que ela é curta, viver no máximo da sua plenitude com responsabilidade.
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