Joana Vasconcelos dedica-se, há mais de uma década, à medicina dentária integrativa e biológica. Mestre em terapia neural pela universidade de Barcelona, doutorada em Ciências Médicas pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e pós-graduada em ozonoterapia, é detentora da patente de um novo adesivo dentário sem bisfenol A. Foi uma das oradoras do 3º Congresso de Internacional de Nutrição Integrativa Funcional (CINIF).
Em entrevista ao Integrall, Joana Vasconcelos partilhou a sua visão integrativa da medicina dentária e explicou porque é que os dentistas não podem ficar apenas pela observação da boca dos pacientes.
Integrall: Considera que é muito importante integrar o todo, com respeito pelo outro, pelos pacientes. Esta é a sua visão da medicina integrativa?
Joana Vasconcelos: Eu acho que através da boca nós podemos fazer uma leitura do que é que se pode passar, em termos sistémicos, na saúde da pessoa e não ficarmos só presos aos dentes. Devemos olhar para a boca como um espelho, como um mapa da saúde e cada dente, muitas vezes, reflete alterações a nível do corpo e por isso, é olhar para isso e ver de que forma é que conseguimos, através do nosso tratamento, do nosso cuidado, devolver saúde ao paciente. Não podemos ficar só pelos dentes, temos de falar com o paciente sobre hábitos de respiração, da parte esquelética, onde é que se acumulam tensões, se tem bruxismo, como é que é o sono, alimentação, portanto, o médico dentista tem de atuar nestas frentes todas para que os seus tratamentos e que a sua regulação da boca possa ter um impacto também a nível sistémico.
“A boca está ligada a todo o nosso corpo, por isso, temos de ter a visão do paciente de forma global”
Integrall: Mas esta não é a prática comum dos médicos dentistas em Portugal?
Joana Vasconcelos: Infelizmente, a abordagem da medicina dentária é cada vez mais técnica, tecnicista, mecânica, mecanizada, onde, à semelhança da medicina convencional, vemos apenas aquele problema. Por exemplo, há uma cárie, nós vamos abrir, vamos limpar e vamos restaurar. O médico dentista está muito focado nesta parte técnica, faz as restaurações mais belíssimas, as facetas em cerâmica mais incríveis, usa as tecnologias mais avançadas, mas, às vezes, esquece-se de perceber porque é que aquilo está a acontecer naquela boca, como é que pode regular, porque se a higiene chegasse – se chegasse só a escovar os dentes – nós não tínhamos problemas e não chega, porque a boca está ligada a todo o nosso corpo. Então, nós temos de ter uma visão do paciente de forma global.
Integrall: Em que momento é que na sua carreira optou por esta abordagem da medicina oral?
Joana Vasconcelos: Sempre me fascinaram as pessoas, trabalhar com pessoas era algo que eu queria e tinha que ser com as minhas mãos, portanto, tenho uma ligação muito forte às pessoas e facilmente me empatizo com elas e portanto, acho que é algo que me é inato. Depois, em termos de características, eu sou uma buscadora, eu gosto sempre de tentar ver várias perspetivas para uma mesma coisa e olhar a boca de várias formas e várias perspetivas. Interessei-me por esta abordagem desde que terminei a faculdade e depois, desde 2015, quando veio a maternidade- acho que a maternidade nos abre sempre muitas portas. Durante anos, trabalhei juntamente com a minha mãe – que é a médica integrativa Alexandra Vasconcelos -e observava que, quando eu tratava a boca, os pacientes dela também melhoravam. Então, comecei a ter, realmente, interesse nestes temas sempre muito por entusiasmo e inspiração dela, que me dizia sempre: “tens de estudar a boca, tens de perceber o impacto da boca”. Foi a partir daí que eu comecei, muito pelo que íamos observando nos pacientes, a investigar, a fazer formação e a voar nesta área.
“A saliva é um elixir dourado. Pode dar-nos muita informação sobre o paciente”
Integrall: Na sua palestra disse que a saliva é um lugar único. Que lugar único é este?
Joana Vasconcelos: A saliva e a boca, no geral, não é só a saliva. A saliva é um elixir dourado, como eu costumo dizer. A saliva pode dar-nos muita informação sobre o paciente em termos de diagnóstico e tem um potencial terapêutico muito grande ainda por explorar, ainda há muito trabalho a ser feito em relação à saliva. Normalmente, nós nunca ligamos à saliva, mas conseguimos ter muitas informações, até de risco para doenças sistémicas, mas acima de tudo, termos uma saliva equilibrada é aquilo que nos pode proteger. Se nós tivermos uma boca seca, vamos ter disbiose, vamos ter um impacto grande. O que eu disse, também, da boca, é que além de ser um ambiente quente e húmido, está sempre sujeito a alterações mecânicas, térmicas, químicas, que vão ainda acelerar mais esta disbiose.
“A saliva pode ser o nosso protetor se estiver em equilíbrio”
Integrall: Como é que se analisa a saliva?
Joana Vasconcelos: Normalmente não se analisa e por isso é que é um problema, ou seja, nós andamos anos a tratar a doença periodontal, a pedir aos doentes para escovar, a tratar cáries, mas não nos lembramos de ver como é que está a saliva do paciente, porque é que ele tem tanta tendência a cáries e a saliva pode ser a nossa solução tampão, o nosso protetor, se ela estiver bem e em equilíbrio. O que é que nós podemos avaliar em consultório? Ver a textura ou viscoelasticidade da saliva, ver o fluxo salivar, ver o pH salivar, conseguimos de uma forma muito simples perceber se temos uma saliva desequilibrada ou não e depois, claro, evoluir para testes mais profundos de microbioma oral, através de análises de saliva, de produção de óxido nítrico e de toxinas pela saliva, para percebermos se ela precisa de ajuda e de ser regulada.
“A doença periodontal é a que mais impacto tem a nível sistémico, pois é fator de risco para obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares ou neurológicas”
Integrall: Essa informação ajuda-vos em quê?
Joana Vasconcelos: É muito importante porque nos dá informações dos riscos para a disbiose e para o aparecimento de uma série de doenças. Se eu conseguir estabilizar, por exemplo, a doença periodontal, que é a que mais impacto tem a nível sistémico, pois é fator de risco para obesidade, para diabetes, doenças cardiovasculares ou doenças neurológicas. Os pacientes não precisam ter dor para ter periodontite, basta que a gengiva sangre – o sangramento gengival é já sinal indicador desta doença estar instalada e as suas bactérias são muito agressivas, pois migram para os tecidos à distância. Então, com uma saliva equilibrada, há menor crescimento destas bactérias agressivas e menos probabilidade de ter periodontite.
Integrall: O que é que os pacientes podem fazer para ter uma saliva equilibrada?
Joana Vasconcelos: Há uma série de medidas que nós deduzimos numa primeira consulta, é um dos nossos pontos de partida: o sono, perceber se o paciente respira pelo boca ou pelo nariz, darmos medidas para a respiração pelo nariz, como por exemplo, selar os lábios com fitas, a parte da gestão do stress – se o cortisol estiver alto e a pessoa estiver sempre em stress vai ter boca seca -, a parte de reduzir alguma medicação química, a ingestão de água, beber água regularmente é importante e ativar a produção de saliva.
“A língua é talvez o órgão mais forte do nosso corpo, em termos musculares e que tem a capacidade de entortar e de mexer dentes”
Integrall: Como é que se pode selar os lábios à noite, quando muita gente respira pela boa quando dorme?
Joana Vasconcelos: À noite é que é interessante, só que o que é que acontece é que pessoa pode ter uma função de base, como uma sinusite ou alguma alteração da função respiratória nasal, podendo ter alguma condição que não lhe permite fazê-lo e, portanto, se selar a boca, aquela paciente vai ficar em pânico e não vai conseguir respirar. Portanto, primeiro, temos de descartar se existe alguma situação de base que faça com que a pessoa não consiga respirar pelo nariz, porque, de facto, é no sono que nós relaxamos os músculos e a boca, normalmente abre, devido a uma posição errada da língua. Para poder retificar uma respiração nasal e a qualidade da saliva também é preciso ver como é que está a língua – está tudo interligado. Às vezes, temos línguas muito baixas, que não estão habituadas a pousar no palado – que é onde elas devem pousar -, porque têm uma tensão dos freios ou porque existe uma alteração da sua posição. A língua é um órgão muito forte – talvez o mais forte do nosso corpo em termos musculares -,e que tem a capacidade de entortar e de mexer dentes, então, é preciso reeducar o seu posicionamento. Há vários exercícios que podemos fazer e só depois é que deve entrar a fita, que pode ser muito útil nem que seja para começar a habituar o paciente a reeducar o posicionamento da língua e a habituar-se a selar os lábios.
Integrall: Uma pessoa pode experimentar a fita sozinha?
Joana Vasconcelos: Pode, não tem qualquer problema, o máximo que lhe pode acontecer é ficar sem respirar e retirar a fita, mas, efetivamente, está mais do que provado que se nós tivermos uma respiração nasal, a nossa oxigenação cerebral, a qualidade do sono, do descanso, a reparação celular e de celular, durante a noite, são potenciadas ao máximo.
Integrall: Onde é que se compram essas fitas?
Joana Vasconcelos: Podem ser compradas online e às vezes, em farmácias.
“Falta olharmos para o paciente e não só para a boca, não só para os dentes”
Integrall: Considera que falta uma abordagem integrativa da saúde oral. O que é que falta na sua opinião?
Joana Vasconcelos: O que falta é olharmos para o paciente e não só para a boca, não só para os dentes. É muito comum sentarmos um paciente na cadeira e olharmos logo para dentro da cavidade oral e esse não é o objetivo. Nós temos de ver como é que o paciente caminha, como é que se posiciona, como é que respira, como é que está em termos emocionais, a alimentação, o sono, o exercício físico – é importante escutar a sua história de vida e perceber que tratamentos anteriores fez. Só depois é que vamos observar a boca. Isto é muito importante para conseguimos identificar prioridades e onde é que nós vamos conseguir regular a saúde daquele paciente através da boca. É necessário estabelecermos pontes entre a saúde oral e as outras áreas de saúde, os outros profissionais de saúde. Qualquer profissional de saúde, qualquer da área da cura e do tratamento pode fazer perguntas de despiste a um paciente.

Integrall: Por exemplo?
Joana Vasconcelos: Se tem a boca seca, se acorda a meio da noite para beber água, como é que respira, se tem borbulhas na gengiva que vão deitando pus e que são sinais de fístulas e de abscessos dentários, se já fez extrações dentárias e como é que cicatrizou, se as gengivas sangram com facilidade quando escova ou quando passa o fio dental, se sente mau sabor na boca – uma série de perguntas de despiste que qualquer pessoa, que não seja dentista, pode trazer para, depois, saber encaminhar o paciente.
Integrall: Há essa abertura dos médicos das outras especialidades para fazerem essa ponte convosco, médicos dentistas e vice-versa?
Joana Vasconcelos: Na área da saúde integrativa sim, os terapeutas de saúde integrativa já têm muito esta preocupação. É quase desgastante e inútil para eles estarem a tentar retificar a microbiota intestinal, quando o problema vem da boca, e portanto, é inevitável que sejam obrigados a pensar na boca e por isso, há uma grande abertura e uma grande necessidade, na verdade. Às vezes, podem ficar é um bocadinho perdidos sobre para que tipo de médico dentista devem encaminhar. Mas, na saúde integrativa, sim, já há essa abertura. Por exemplo, os cardiologistas já referenciam muito para a medicina dentária por causa das bactérias que se desprendem da gengiva e se alojam no coração. Na neurologia, deveriam enviar pacientes – e enviam pouco -, infelizmente, há abscessos cerebrais, problemas no cérebro e uma parte das doenças neurodegenerativas que acontecem por bactérias que, também, migram para o cérebro. Na endocrinologia era fundamental encaminharem doentes, porque sabemos que há uma estreita relação da diabetes e a doença periodontal e aí também, não há tanta abertura, portanto, ainda há muito caminho a fazer, principalmente, nas áreas da medicina mais convencional.
Integrall: O que é que é preciso para que esses profissionais – vossos colegas-, se sensibilizem para a importância dessa ligação?
Joana Vasconcelos: É preciso falarmos, disseminarmos e apresentarmos, cada vez mais, estas relações em congressos, é preciso que um congresso de medicina tenha médicos dentistas a falar e vice-versa, como aconteceu recentemente no congresso da Ordem dos Médicos Dentistas – a Ordem está a abrir muito para isto e chamou profissionais da saúde integrativa para falarem sobre saúde integrativa e também, para perceber o papel que nós, médicos dentistas podemos ter na regulação sistémica, através da boca. Eu acho que isto eleva a profissão dos outros, se nós conseguirmos fazer esta articulação, se permitirmos eventos como este, onde profissionais das várias áreas partilham conhecimentos.
“O (uso) de flúor deve ser avaliado caso a caso”
Integrall: Exemplos práticos da sua abordagem clínica. Sei, por exemplo, que não defende o uso de flúor e que também se diferencia ao nível dos implantes utilizados.
Joana Vasconcelos: Esta é a abordagem que eu pratico já há bastantes anos, mas eu não gosto nada de ser radical, em nenhuma situação. Imagine que eu tenho uma criança que tem todos os dentes cariados e tem um bom no meio. Se calhar, ali vou pôr flúor para salvar aquele dente, eu não posso dizer “nunca” ao flúor. O que eu posso dizer é que o flúor deve ser avaliado, caso a caso, e principalmente, em mulheres com problemas na tiroide, crianças hiperativas ou com dificuldades de concentração, pois, como o flúor é um tóxico, ele vai influenciar, vai competir com o iodo e por isso, vai alterar a função da tiroide. Cada vez têm saído mais estudos sobre o flúor. Antigamente, fazia-se flúor sistémico em comprimidos, hoje em dia, foi retirado por algum motivo e a verdade é que nós temos muitas fontes de flúor, tanto nos alimentos como na água e por isso, já temos o aporte de flúor que precisamos. Se estivermos a falar de crianças, ainda temos que ter mais atenção porque existe a possibilidade delas engolirem pastas e nesse caso, acabamos por estar a fazer um aporte de flúor desnecessário. Se o flúor fosse completamente protetor contra a cárie deixávamos de ter cáries, mas a verdade é que essa doença ainda não se erradicou, portanto, a prevenção das cáries não acontece só pelo flúor. Então, se pudermos retirar toxicidade, através dos produtos em, geral, melhor, e eu não falo só do flúor: os elixires têm álcool, sódio, óleo, sulfato, dióxido de titânio, portanto, todos estes ingredientes induzem a disbioses, são tóxicos, são cancerígenos, são disruptores endócrinos, por isso, é uma toxicidade desnecessária na boca, que tem uma absorção tão grande.
Integrall: Em que alimentos é que é possível encontrar flúor?
Joana Vasconcelos: Nós temos flúor em brócolos, em verduras, água, em vários alimentos.
“Os implantes cerâmicos são os mais neutros, mais biológicos, mais saudáveis para o corpo”
Integrall: Como é a abordagem integrativa a nível dos implantes dentários?
Joana Vasconcelos: A nível dos implantes dentários, posicionamo-nos muito para implantes cerâmicos, que são os mais neutros, mais biológicos, mais saudáveis para o corpo. Têm algumas limitações ainda, portanto, também, devem ser avaliados, caso a caso – devemos ponderar se, naquela situação concreta, podemos tratar com implantes cerâmicos, mas são sempre preferíveis. No entanto, pelas limitações do próprio material, em termos mecânicos, se tivermos de encher ossos e se tivermos de fazer grandes procedimentos cirúrgicos, aí, se calhar, é preferível não colocar um implante cerâmico, mas o objetivo é reduzir ao máximo a carga de implantes titânicos do corpo.
Integrall: Uma mensagem no que respeita à medicina oral integrativa?
Joana Vasconcelos: Acho que a mensagem mais importante é não esperar pelas dores. Infelizmente, ainda temos uma grande maioria das pessoas que só vai ao dentista, em caso de dor e o que acontece é que, na dor, é muito mais difícil, não só a solução, como o tratamento e o preço. Por isso, aconselho vigilância apertada, acompanhamento. A prevenção é o mais importante para minimizar o impacto na saúde global, para apanhar as situações atempadamente, para os tratamentos serem menos dolorosos, mais acessíveis. Há muitas situações que se desenvolvem sem o alerta da dor.
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