Recebeu vários diagnósticos errados, até que um dia, ao ouvir um biomédico brasileiro, descobriu que tinha uma disfunção na tiroide, mas mais do que isso, descobriu a nutrição funcional que lhe mudou a vida. Cátia Miranda tornou-se, ela própria, nutricionista integrativa funcional e decidiu partilhá-la com o mundo. Aquilo que começou por ser uma iniciativa para um grupo restrito foi crescendo e este ano, juntou 480 pessoas no 3º Congresso Internacional de Nutrição Integrativa Funcional (CINIF).
Durante dois dias, médicos, nutricionistas, psicólogos, terapeutas portugueses e estrangeiros juntaram-se na Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril para falar de saúde integrativa. A abrir o evento, a nutricionista afirmou que “vamos unir mundos que nunca deviam ter sido separados- a medicina, a nutrição a psicologia-” e lembrou o seu propósito: “estamos todos aqui para ajudar o outro a ter mais vida e mais esperança e a encontrar o seu caminho. Esta é a saúde que queremos ver em Portugal e no mundo”.
Integrall: Porque decidiste começar a organizar estes congressos?
Cátia Miranda: Este ano, eu abri o congresso a explicar exatamente isso, porque muitas pessoas perguntavam-me o porquê. O primeiro porquê foi minha causa. Eu andava em diferentes especialidades e recebia diferentes diagnósticos, como anemia, ou diabetes, tomando medicação que não era apropriada para mim. Foi num evento que descobri que o que realmente tinha era uma disfunção da tiroide. Até então, tomava medicação errada e sentia-me cada vez pior. Ao sentir-me cada vez pior, só me aumentavam a medicação e eu quase era “obrigada” a aceitar aquilo. Mas eu não queria viver naquele estado de cansado extremo – custava-me levantar da cama, mesmo dormindo oito/nove horas. Um dia, nesse evento um dos palestrantes começou a falar e disse tudo o que eu sentia e eu pensei: “é isto mesmo que eu tenho”. Então, decidi marcar uma consulta com ele e a partir daí descobri a nutrição funcional.
“Comecei a trabalhar numa clínica integrativa e descobri outro mundo”
Integrall: Qual era a especialidade desse médico?
Cátia Miranda: Era biomédico, era o brasileiro Rony Moya, que, na altura, me transformou a vida. Comecei a estudar a nutrição, mudei a minha alimentação e melhorei imenso. Antes, eu tinha obstipação durante quatro ou cinco dia e nunca mais tive. Fica-se sempre com as fragilidades ou tendências -as tendências genéticas existem, mas não dependemos delas. Dependemos, depois, das nossas escolhas, da epigenética, do ambiente e daquilo que fazemos. Claro que, a partir daí, comecei a fazer escolhas diferentes e fiquei apaixonada – nunca mais voltei para trás – e queria partilhar isto com o mundo. Entretanto, comecei a trabalhar numa clínica integrativa e descobri outro mundo – eu trabalhava em conjunto com os médicos e psicólogos e isso era a verdadeira integração-, foi quando surgiu o segundo porquê. Nesse centro, eu dizia: “temos de partilhar isto com o mundo, eu dizia sempre isto, temos de partilhar isto com mais pessoas”. Só que ainda havia muito preconceito – ainda existe – de pessoas que pensam que é “melhor não, porque não é válido, porque é esotérico, porque é holístico”. Talvez agora estejamos a abrir mais, mas mesmo assim ainda é um caminho a fazer, que, acho, aos poucos vai-se construindo. Mais tarde, então decidi: “vamos organizar algo” e começámos online, há cinco anos. Depois, pensei em fazer isto numa sala, sem saber se íamos encher e enchemos – éramos 40 -, mas as pessoas estavam apertadinhas e pensei “isto assim não pode ser”. A partir daí, foi sempre a subir: no segundo, online e presencial, tivemos cerca de 200 pessoas e este ano, decidimos fazer só presencial para trazer experiência e conexão humana.

Integrall: Quantas pessoas estão aqui?
Cátia Miranda: Se somarmos participantes e oradores temos 480.
“A nutrição é o pilar de tudo”
Integrall: O CINIF reúne médicos, nutricionistas, psicólogos, terapeutas que abordam a saúde como um todo?
Cátia Miranda: É a saúde como um todo, que é aquilo em que eu acredito. Quando a verdadeira medicina começou, era a nutrição. A nutrição é o pilar de tudo. Quando falamos de nutrição, nas medicinas mais ancestrais – e por isso é que trazemos aqui outras visões como a ayurveda – já se falava de nutrição do corpo, da mente, das emoções e da alma. O que é que isto significa? Significa que todas as outras especialidades têm aqui um papel muito importante, e que nós sozinhos não vamos conseguir – o alimento do prato pode ajudar, mas, se calhar, não vai resolver a causa do problema ou transformar a pessoa. Então, é nesta união que eu acredito. É quando unimos o corpo, a mente, as emoções e o espírito, que eu acredito que alcançamos o equilíbrio.
“Muitas pessoas continuam a achar que a nutrição é só emagrecimento (…) É muito mais”
Integrall: É isso que é a nutrição integrativa funcional?
Cátia Miranda: Sim. Muitas pessoas dizem: “um congresso de nutrição não é para mim”. Muitas pessoas continuam a achar que a nutrição é só emagrecimento. Não. É muito mais. Sabemos que a nutrição é a base. Este congresso podia ser sobre nutrição funcional, mas nessa os pilares já são beber água, a alimentação, o descanso, o sono, a gestão de stress, relacionamentos. Nessa, já se fala do corpo, da mente e do espírito, só que não trabalha todas as partes. Quando nós falamos em integrativo, estamos a integrar todas as partes, por isso é que é nutrição integrativa funcional.
Integrall: Tu defendes que a nutrição integrativa e funcional é uma das melhores ferramentas para recuperar saúde, equilíbrio e bem-estar. É porque vê a pessoa como um todo?
Cátia Miranda: Sim, vê as várias dimensões e o ser humano como um todo.
Integrall: Esta abordagem complementa a medicina tradicional?
Cátia Miranda: Acho que sim, até porque, às vezes, há situações agudas, traumas que têm de se resolver logo ou há situações a que não conseguimos dar resposta porque já são crónicas, mas acho que as medicinas se complementam, elas não têm de se separar. O ideal é evitarmos isso.
Integrall: Porque achas que ainda há alguma resistência de trabalharem em conjunto?
Cátia Miranda: Eu acho que as pessoas estão mais despertas e que já estão mais abertas a escutar e a ver. No entanto, nós fazemos estes eventos e vemos que aparecem quase sempre as mesmas. É certo que também aparecem pessoas novas e isso é bom, mas queríamos que mais pessoas se envolvessem porque não o fazemos por nós, fazemo-los pelas pessoas que nós ajudamos. Acho que, em Portugal, ainda há muita falta de comunidade, de entreajuda, de partilharmos este conhecimento. Se nós nos ajudarmos, se partilhamos conhecimento, vamos conseguir ajudar mais o paciente.
“As pessoas estão cansadas, não se sentem escutadas e estão à procura de outras soluções”
Integrall: Tu abriste este congresso dizendo precisamente: “bem-vindos à comunidade CINIF” e também uma frase, que eu achei muito curiosa e que é “esta é a saúde que nós queremos para Portugal”. É isso que faz falta?
Cátia Miranda: Eu acho que sim. Temos comentado muito entre colegas de várias especialidades que as pessoas estão cansadas, não são escutadas, sentem-se quase um número e estão à procura de outras soluções.

Integrall: Que balanço fazes deste congresso?
Cátia Miranda: Muito bom, muito positivo. Tem vindo sempre a crescer.
Integrall: Para o ano, há mais CINIF?
Cátia Miranda: Para o ano vamos fazer um CINIF Experience, com menos um dia, mas que vai ser a preparação, que vai ser a experiência do próximo grande evento.
“Nutrir a pessoa como um todo, ou seja, resgatar a nossa nutrição ancestral”
Integrall: Neste congresso, anunciaste um curso que vais lançar, em abril de 2026, que é o Nutrition Restart Pro. É para profissionais?
Cátia Miranda: Sim, é para profissionais, nutricionistas, médicos, terapeutas, pessoas que tenham interesse na área.
O programa Nutrition Restart Pro é o método certificado – Nutrition Restart 4R-, que atua nas doenças crónicas, nas disfunções gastrointestinais, tiroide e imunidade e doenças autoimunes. Portanto, é um programa, um curso para profissionais que querem estudar o ser humano como um todo, ou ver o ser humano como um todo. Tem quatro passos, quatro “R”, indo desde a causa raiz do problema – o primeiro “r”, para encontrar as suas causas a nível físico, emocional, mental. Para isso, utilizamos ferramentas como análises clínicas, testes validados, para encontrar a causa raiz, além da anamnese e tudo aquilo que a pessoa descreve como sintomas, sinais. O segundo “r” consiste em desintoxicar, desinflamar o tubo digestivo, o fígado, que é um órgão muito importante na desintoxicação tanto o corpo como da mente, crenças, pensamentos negativos, mudança de mindset –enquanto vamos trabalhando o corpo bioquimicamente e equilibrando o terreno, vamos trabalhando também a parte mental. O terceiro “r” é regenerar e neste caso, fazemos a modulação intestinal e modulação imunitária, restaurando as paredes do intestino, tratando disbioses, intolerâncias, ou mesmo parasitas e fungos e ao mesmo tempo, neste módulo, ensinamos ainda a trabalhar as emoções, porque quando estamos a falar do intestino estamos a falar de um sistema endócrino também. 95% da serotonina é produzida no intestino, portanto, vamos trabalhar o estado emocional com ferramentas de gestão emocional e a modulação intestinal, na prática, utilizando alguns suplementos individuais específicos para cada pessoa, dependendo da situação. O quarto “r” é reequilibrar a modulação epigenética, é trabalhar o ambiente interno de uma forma individual e de precisão, a pessoa pode fazer testes genéticos se quiser fazer uma nutrição mais precisa, mais adequada a si, e também adequar o seu ambiente, o ambiente onde está, se é tóxico ou não, o estilo de vida, tendo em conta o sono, atividade física, os relacionamentos, as relações sociais, o ambiente onde vive, onde trabalha, a gestão de stress. Nesta fase, trabalhamos a personalização da dieta, de acordo com a epigenética e falamos também de jejum e de dieta cetogénica, entre outras práticas. Neste último “r” também trabalhamos a conexão da pessoa consigo própria, as respirações, o estado presente, ou seja, esta parte mais espiritual.
Em suma, no primeiro “r” vamos à causa, vamos resgatar o corpo, perceber, no segundo vamos ao corpo e à mente, no terceiro, vamos ao corpo, à parte intestinal e à parte emocional e no quarto “r”, vamos à conexão à parte espiritual e de autoconhecimento.
No fundo são três a quatro meses e depois, há um trabalho final em que as pessoas depois ficam habilitadas a colocar o método na sua prática clínica, para acompanhar os seus pacientes, vê-los como um todo e estar mais despertas para este conhecimento de ir para além do paciente.
O objetivo maior é que cada vez sejamos mais pessoas a trabalhar consciência ou seja, com a nossa verdade, com o ser que somos e a trabalhar com o outro ser, que está à nossa frente a ser cuidado, como o ser humano que é, como um todo, portanto, a nutrir a pessoa como um todo, ou seja, resgatar a nossa nutrição ancestral.
Integrall: Vai ser online ou presencial?
Cátia Miranda: Vai ser online, com aulas semanais, onde vamos discutir casos clínicos. Vai ser uma continuação do CINIF, mas em ponto grande para profissionais.
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