Dormiu em barracas e arrumou carros, em Lisboa, emigrou para a Alemanha e para a Suíça, mas um dia, disse: “basta”. De uma hora para a outra, José Silva voltou para Portugal, quase sem dinheiro, onde, por ironia do destino, começou a fazer massagens. Hoje, 20 anos depois, tem um espaço na capital portuguesa, o “Mestre del Cuore”, onde aplica uma técnica criada por si e não tem mãos a medir.
Integrall: Porque deixou de estudar na 4ª classe?
José Silva: Porque aos 11 anos fui para a Alemanha para tomar conta de um dos meus irmãos mais novos.
Integrall: Pouco tempo depois veio para Lisboa…
José Silva: Sim, aos 14 anos vim abrir valas para os estaleiros de Lisboa, junto à Avenida 5 de Outubro, onde existia a antiga Feira Popular. Os dormitórios, em barracas, eram muito maus, tinham um simples colchão e muita bicharada à volta e como eu não conseguia dormir durante a noite, comecei a arrumar carros, porque o eu ganhava durante o dia era para dar à minha mãe – foi esse o motivo pelo qual vim para Lisboa.
Integrall: Não dormia?
José Silva: Quase não dormia.

“Devo tudo aos meus avós, porque a vida familiar com os meus pais praticamente não existia”
Integrall: Quanto tempo esteve nos estaleiros?
José Silva: Estive cerca de um ano e meio e depois, regressei à minha terra, no concelho de Sátão, distrito de Viseu, onde fui trabalhar para a agricultura, com os meus avós, até aos 17 anos e entretanto, voltei para a Alemanha com os meus pais – nessa altura fomos a família toda.
O tempo que trabalhei na agricultura foi ótimo, aprendi muito, inclusive, aprendi a ser gente. Devo tudo aos meus avós, porque a vida familiar com os meus pais praticamente não existia.
Integrall: Acabou por ser o pai dos seus irmãos…
José Silva: Um pouco isso, fui pai e mãe. Sou o mais velho de seis.
“Ser emigrante é ótimo”
Integrall: O que foi fazer quando regressou à Alemanha?
José Silva: Fui trabalhar num mini mercado com produtos portugueses e em abril – ainda com 17 anos – decidi que aquilo não era vida para mim e saí de casa – tive de ficar sob a alçada do Tribunal de Menores até completar os 18.
Em julho, com o meu próprio dinheiro, consegui fazer uma semana de férias, foi a primeira vez que andei de avião: entrei no maior do mundo, o Jumbo 747, era estrondosamente grande. Na altura, já tinha o meu apartamento, já tinha as minhas coisas.
Fiquei na Alemanha até aos 30 anos. Foram anos maravilhosos, em que aprendi imenso e aquilo que sou hoje: 100 por cento pontual, a respeitar as pessoas, porque nós não podemos querer que nos respeitem sem nós respeitarmos, primeiro, os outros e ter a humildade que é preciso ter. Foi muito bom. Ser emigrante é ótimo, gostei muito, tenho isso dentro de mim.
Integrall: Então, porque decidiu voltar para Portugal?
José Silva: Apesar de eu adorar a Alemanha e considerá-la a minha segunda pátria, decidi vir para Portugal porque pensei em fazer uma vida diferente e porque já não me estava a sentir muito bem lá por causa do clima. Na altura, pensei que era de vez, mas ainda acabei por regressar, mais tarde, logo a seguir à queda do muro de Berlim, em 1989. O país precisava de ser reconstruído e eu estava a precisar de ganhar dinheiro – em Portugal não ganhava o suficiente – e como sabia alemão, fiquei lá mais quatro anos.
Integrall: Em que momento é que volta de vez para Portugal?
José Silva: Foi no início de 2000, já com 40 anos. Vim trabalhar para um bar, em Tomar, onde casei e residi durante 20 anos. Depois, vendi o bar para abrir uma empresa de construção civil – já trazia os ensinamentos dos tais quatro anos ligado à construção civil na Alemanha. Trabalhei, também, como comercial numa empresa ligada à saúde dentária, sem perceber nada da área e depois, emigrei para a Suíça.
“Foi a pior coisa que fiz na vida, desci muito baixo a nível profissional”
Integrall: Porquê a Suíça?
José Silva: Porque tinha e tenho lá uma irmã, que queria muito que eu fosse conhecer o país – foi, de resto, onde este meu caminho lindo começou.
Na Suíça, fui trabalhar para uma empresa de limpezas de fábricas, escritórios, casas, estradas, tudo o que se possa imaginar. Um dia enviaram-nos para fazer a limpeza de uma casa, que foi a pior coisa que fiz na vida, desci muito baixo, a nível profissional. A casa estava em tão mau estado, cheia de lixo, que não havia cinco centímetros no chão para pormos os pés, tivemos de entrar com um fato, luvas e calçado próprios para conseguirmos fazer a limpeza.
“Fiz muitos trabalhos, mas aquele não era digno para ninguém”
Integrall: Era uma casa particular?
José Silva: Era uma vivenda particular, que estava a ser ocupada por pessoas, que não trabalhavam e viviam à custa do Estado. Não faziam nada, não cozinhavam, deitavam o lixo para o chão. Além disso, a casa não tinha janelas nem portas e estava cheia de todo o tipo de bicharada. Calhou-me limpar uma das casas de banho. Nós começávamos a trabalhar às 8 horas e fazíamos uma pausa para café às 9h30, mas às 9 horas eu disse para mim: “este é o meu último dia na Suíça, não fico mais aqui, vou para Portugal. Não vou descer mais baixo, a partir daqui a minha vida vai começar a subir”. Meti na cabeça que me vinha embora naquele dia e já não fiz a pausa. Disse aos meus colegas: “para mim, acabou, chega. Vou pedir à empresa que me faça as contas e vou para Portugal”.
Estive dois anos na Suíça, mas aquele trabalho não era digno para ninguém. Aquela casa estava em tão mau estado que devia ter sido toda deitada abaixo com máquinas.
“Naquela altura, uma pessoa sozinha a trabalhar na Suíça não ganhava nem para comer”
Integrall: A empresa fez-lhe as contas e veio-se embora para Portugal?
José Silva: Sim, com uma mão à frente e outra atrás. Uma pessoa sozinha, como eu, a trabalhar, no estrangeiro, principalmente, na Suíça, naquela altura, não ganhava nem para comer.
Em Portugal, conheci uma pessoa que trabalhava em massagens, começámos a morar juntos e eu tinha de fazer alguma coisa porque vim sem dinheiro. Enviei vários currículos para as áreas onde me sentia mais à vontade, nomeadamente, restauração e construção civil, mas como já tinha quase 50 anos, a idade já não ajudava muito a ir trabalhar para as obras.
Um dia, fui chamado para uma entrevista, numa pastelaria que ficava, precisamente, na Avenida 5 de Outubro, onde eu tinha trabalhado nos estaleiros na adolescência- está tudo ligado nesta vida. A minha namorada foi comigo e ficou cá fora à minha espera. Quando entrei na pastelaria, olhei para o balcão e vi dois indivíduos. Um deles, apontou-me o dedo à distância e gritou bem alto: “É o senhor que vem para a entrevista? A vaga já está preenchida”. Agradeci, voltei costas e saí. Quando cheguei ao pé da minha namorada, disse-lhe que não tinha havido entrevista. Ela perguntou-me: “o que vais fazer agora?” Eu respondi: “vou fazer massagens contigo” – nunca me tinha passado pela cabeça, nem perto nem longe, jamais. A minha namorada retorquiu: “isso nunca se viu, tu não és capaz, nunca fizeste massagens a ninguém e não vais fazer massagens a mulheres com roupa” – há quase 20 anos, havia muitos tabus em ser um homem a fazer massagens.
Apesar da sua resistência, comecei a acompanhá-la nos trabalhos ao domicílio: levava as marquesas e esperava por ela. Um dia, cheguei a casa e disse-lhe: “vou fazer-te uma massagem, faço aquilo que sei e depois, tu corriges-me”.

“Aquele foi o grande empurrão para começar a fazer massagens”
Quis o destino que, no fim de semana seguinte, fôssemos apanhar conquilhas para a praia e a minha namorada fosse picada na mão por um peixe-aranha. O braço inchou de imediato, não podia fazer massagens e tinha a agenda cheia. Nesse momento, eu disse-lhe: “Eu posso fazer”. Ela respondeu-me: “mas tu não sabes”. Eu disse-lhe: “já sei alguma coisa e além disso, ninguém sabe se, entretanto, tirei um curso ou não. Não vais desmarcar a agenda. Eu faço as massagens e tu vais estar ao meu lado, qualquer coisa dás-me um toque”. Graças a Deus que ela aceitou e na segunda-feira seguinte, às 8 da manhã, lá estava eu de t-shirt branca para fazer a primeira massagem da minha vida. Aquilo correu tão bem que, no final, a cliente chegou junto da minha namorada e disse-lhe: “gosto muito das tuas mãos, trabalhas muito bem, mas daqui para frente prefiro que seja o José a fazer-me as massagens” – aquele foi o grande empurrão até aos dias de hoje.
Integrall: Depois de começar nunca mais parou?
José Silva: Depois de começar, continuei a evoluir, criei a minha própria técnica – a massagem dreno modeladora – e passado ano e meio, fui certificá-la -a minha técnica está certificada. Portanto, continuei a aprofundá-la e entretanto, comecei a usar o meu primeiro instrumento – a cana de bambu – na “bambu terapia”. Fui evoluindo até que, a certa altura, já era a minha namorada que aprendia a minha técnica e que seguia o que desenvolvi.

Integrall: Onde é que se inspirou para criar essa técnica?
José Silva: Eu não consigo explicar muito bem, mas uma coisa é certa: se nós dermos aos outros aquilo que gostaríamos de receber deles (massagens), esse é um ponto de partida para percebermos se estamos a fazer bem ou não.
Claro que dei os primeiros passos nas massagens com a minha namorada, mas depois, comecei a ler, a estudar o corpo humano, a ver como é que as coisas funcionavam e cheguei, então, à minha técnica.
Integrall: É um autodidata?
José Silva: Exatamente.
Integrall: Há quanto tempo é que certificou a sua técnica?
José Silva: Há 18 anos.
Integrall: E há quanto tempo faz massagens?
José Silva: Quase há 20 anos.
Integrall: Quando é que decidiu abrir este espaço em Lisboa?
José Silva: Não foi bem uma decisão.
“A minha massagem sempre foi 100 por cento manual”
Integrall: Como é que surgiu?
José Silva: Eu fazia massagens ao domicílio e há muito tempo que as clientes me pediam para abrir um espaço, em Lisboa, mas eu resistia e pensava que estava bem a trabalhar em casa.
Um dia, chega-me outra cliente e diz-me: “a minha mãe tem uma loja, em Lisboa, que está fechada. Abriu o espaço para massagens só com máquinas, mas já ninguém as quer ”. Como a minha massagem sempre foi 100 por cento manual, aceitei ir ver o espaço e a verdade é que estou aqui desde finais de agosto de 2013. Ao início, só tinha dois gabinetes, agora são seis. Gostei do lugar, tinha uma boa energia.
Integrall: Para além de serem manuais, em que se distinguem as suas massagens?
José Silva: Estamos a falar de terapêutica muscular. Quando há contraturas, por exemplo, eu consigo – graças não sei a quem, não é só a mim, porque trabalho muito com guias espirituais – resolver, numa só sessão, um problema que muitos não conseguem em várias. Não estou a tirar o valor a ninguém, até porque não sou eu sozinho que faço as massagens, alguém invisível me ajuda. A espiritualidade já está dentro de nós, está dentro da loja. O espaço já está em si espiritualizado. Quando as pessoas entram aqui respiram de alívio e quando saem vão completamente diferentes.
Integrall: Hoje em dia, não trabalha sozinho…
José Silva: Graças a Deus, tenho uma bela equipa a trabalhar comigo. Somos cinco, ao todo.
Integrall: Formou a sua equipa?
José Silva: Sim, porque de outra forma não dava para trabalhar aqui – as pessoas vêm à procura da minha técnica e não apenas de uma massagem. Vêm à procura de se sentirem bem, de saírem daqui melhor do que que chegaram.

Integrall: Que tipos de massagens faz?
José Silva: Nós temos vários tipos de massagens, mas, no fundo, fazem parte de uma só: a massagem dreno modeladora.
Integrall: O que é que envolve?
José Silva: Drenagem linfática, adelgaçamento, relaxamento, eliminação de celulite, eliminação de retenção de líquidos.
Integrall: Ao fim de quantas sessões é que as pessoas começam a ver resultados?
José Silva: Eu gosto muito de honestidade e por isso, ninguém pense que faz uma sessão e fica logo bem, isso é falso. Claro que se nota alguma diferença, mas no dia seguinte está igual, ou seja, são necessárias, no mínimo, entre quatro a cinco seis sessões para se ver resultados.
Integrall: Massagens aliadas a um estilo de vida saudável…
José Silva: É óbvio que para, termos bons resultados com as massagens, a pessoa deve ter uma vida o mais saudável possível.
Integrall: Quem é que vos procura?
José Silva: Nós trabalhamos em 99,99 por cento dos casos com mulheres. Esporadicamente, aparece um homem.
Integrall: Muitas figuras públicas?
José Silva: Sim, uma boa parcela.
Integrall: Como é que o descobriram?
José Silva: No início, foi através do passa-palavra e depois, pelas redes sociais.
Integrall: Quanto custa uma massagem, em média?
José Silva: Entre 40 a 50 euros.
Integrall: Quanto dura uma sessão?
José Silva: Cerca de 45 minutos.
Integrall: Qual é o vosso horário?
José Silva: Abrimos todos os dias, de segunda a sexta, das oito da manhã às oito da noite.

















