Entrou na menopausa aos 42 anos, numa altura em que (quase) não se falava do assunto. Apesar de trabalhar em Tecnologias da Informação, Cláudia Barros foi autodidata, tal era a confusão que sentia sempre que saía das várias – muitas – consultas médicas.
Após um “caminho solitário, mas transformador”, hoje em dia, dedica-se a partilhar com outras mulheres tudo o que aprendeu com a sua experiência. Primeiro, criou um site, “Menopausa, Meu Amor”, que, depois, deu lugar à conferência “Menopausa é uma conversa”, que juntou, recentemente, em Lisboa, médicas, psicólogas, farmacêuticas e 50 mulheres e homens numa conversa esclarecedora sobre esta nova fase da vida. A par disso, Cláudia Barros tem grupos de WhatsApp para um acompanhamento mais próximo do público feminino.

Integrall: Criaste este projeto porque, quando entraste na menopausa, tiveste que desbravar caminho…
Cláudia Barros: Exatamente. Há 10 anos, não se falava do tema e o termo perimenopausa nem sequer existia e como tal, tive de aprender por mim própria, ir a vários ginecologistas e perceber as mudanças hormonais. Cientificamente, fazia-me sentido nós perdemos uma hormona e devermos ocupar esse espaço com outra, mas levantava-se a questão de a (reposição) hormonal provocar cancro e isso deixava as mulheres com medo.
Então, depois de ter gasto um balúrdio em vários médicos, comecei a ouvir podcasts, fiz o curso anual de coach de menopausa da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, comecei a fazer download de documentos em PDF, e, entretanto, encontrei um endocrinologista, autor da página no instagram “hormonas.em.bom.português”, que foi um mãos largas e partilhou comigo uma série de documentos e eu comecei a estudar o assunto.
“Há 10 anos o termo perimenopausa nem sequer existia”
Integrall: Quais foram os primeiros os sinais que o corpo te deu?
Cláudia Barros: Não tive, por isso é que achei estranho acordar um dia, aos 42 anos, e deixar de me vir o período. Eu bebia, fumava charros, saía à noite, tinha uma vida completamente desregulada, mas, entretanto, tinha feito mudanças na minha vida a nível espiritual, emocional, físico e ao mesmo tempo, fiquei sem período. Então, pensei “será que é porque mudei o estilo de vida?”.
Integrall: Não te passou pela cabeça que podias estar grávida?
Cláudia Barros: Não. Não havia hipótese de estar grávida e por isso, estava sem perceber. Além do mais, a minha mãe tinha tido a menopausa bastante tarde, pelo que, o tema não estava sequer no meu radar. Só passados quatro ou cinco anos, já na menopausa, é que eu comecei a ter sintomas, como falta de sono, ganho de peso, irritabilidade.
Integrall: Apesar de não teres tido sintomas na perimenopausa, houve um sinal de alerta que te tocou particularmente…
Cláudia Barros: Tive vários. O maior foi um dia estar a fazer um trabalho no excel (folha de cálculo) e não conseguir, o outro foi o facto de o meu pai ter Alzheimer e eu achar que podia ter também.
“Saí da consulta com uma responsabilidade que eu não podia ter, pois não tinha conhecimento sobre o assunto (menopausa)”

Integrall: Foste a uma consulta, mas saíste de lá muito confusa. Porquê?
Cláudia Barros: Porque vim de lá com uma responsabilidade que eu não podia ter, pois não tinha conhecimento. A médica passou-me uma receita em que eu podia escolher pôr o selo de estradiol ou o gel ou o spray, sem me ter esclarecido sobre a diferença entre eles.
Integrall: Portanto, saíste de uma consulta com a responsabilidade de escolher entre três opções, mas com pouca informação. Foi nesse momento que sentiste que tinhas que ir pesquisar sobre o tema?
Cláudia Barros: Exatamente. Já tinha começado a ouvir os podcasts, mas foi quando decidiste ir fazer o curso da universidade de Harvard, nos Estados Unidos.
Integrall: Pelo caminho descobriste que havia muita desinformação…
Cláudia Barros: Sim, porque eu sou da geração de 74, em que as mulheres estavam proibidas de fazer reposição hormonal, desde que, em 2002, a Food and Drug Administration (FDA), a agência federal do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, veio alertar para os riscos para a saúde dessa terapia.
Integrall: Apesar de trabalhares na área das Tecnologias da Informação, não quiseste guardar o conhecimento que adquiriste só para ti e decidiste partilhar a informação com outras mulheres…
“Começou a ser transformador ver-me de uma forma holística, perceber que eu não era só Cláudia, que não tinha o período”
Cláudia Barros: Sim e tem sido muito apaixonante para mim. Eu comecei no TikTok, há muitos anos, antes de o meu pai ficar com Alzheimer e percebi que havia empatia, identificação (dos seguidores). Então, comecei a fazer vídeos, mas por brincadeira. Só que, depois, comecei a apaixonar-me tanto por este tema, que, afinal, é lógico e começou a ser transformador ver-me de uma forma holística, perceber que eu não era só Cláudia, que não tinha o período e foi a partir desse momento, que eu disse para mim: “quero começar a falar nisto”, mas só há pouco tempo é que comecei a falar do tema no Instagram.
Integrall: E recentemente, organizaste, pela primeira vez, a conferência “Menopausa é uma conversa” para esclarecer outras mulheres sobre o tema…
Cláudia Barros: Sim, porque como já conheço muitos médicos, sei quem é que pode acompanhar as mulheres nesta jornada e as médicas presentes na conferência têm sido fantásticas, pois estão alinhadas com a minha visão de que o médico não é um supra-sumo e que não é ele que te vai dizer o que tu vais fazer com a tua vida. O médico dá-te toda a informação para tu teres essa responsabilidade e colabora com ela.
Integrall: O médico acompanha…
Cláudia Barros: Exatamente.
“É um poder meu saber se aquele médico é o melhor para mim”
Integrall: É precisa ter literacia sobre a saúde feminina?
Cláudia Barros: Sim, para poder debater o tema com o médico e ele colaborar comigo, porque é um poder meu saber se aquele médico é o melhor para mim.
Integrall: Esta foi a primeira conferência que visa promover a literacia em saúde feminina e apoiar mulheres nesta fase de vida de forma científica e humana. Sentes que ainda há muita falta de acompanhamento ou a divulgação sobre o assunto tem vindo a melhorar?
“A mulher, neste momento, está a revolucionar a Ciência”
Cláudia Barros: Tem vindo a melhorar, mas ainda falta muita literacia a muitas mulheres.
Integrall: Porquê?
Cláudia Barros: Porque esta literacia vem agarrada a uma parte comercial: está sempre tudo pensado para o homem, como o Viagra, por exemplo, mas para a mulher, nada. No entanto, a mulher, neste momento, está a revolucionar e a ensinar Ciência porque a ocidental, só trata o sintoma e nós somos mais do que uma cura para um sintoma, somos um todo. Apesar de estarmos a mudar o caminho da Ciência, ainda estamos a ser vítimas do comércio – há, de facto, muita informação, mas, se formos a ver toda a que é dada pelos médicos, vem associada a um link para ir marcar ou comprar algo em que os clínicos são parte interessada. Aquilo que eu quero fazer é evitar que as mulheres gastem tanto dinheiro, como eu gastei, quando entrei nesta fase de vida, que tenham acesso as outras organizações da menopausa, que não seja o Serviço Nacional de Saúde (SNS), porque se for, vão “morrer” na linha à espera. Aquilo que eu quero é que, pelo menos, as primeiras análises sobre a menopausa sejam mais em conta para as mulheres.
“Aquilo que eu quero fazer é evitar que as mulheres (na menopausa) continuem a gastar tanto dinheiro, como eu gastei na altura”
Integrall: O que é que essas análises mostram em particular?
Cláudia Barros: Os níveis de progesterona, de testosterona, de estradiol, de vitamina D.
Integrall: Essas análises não são prescritas pelo Serviço Nacional de Saúde (SNS)?
Cláudia Barros: São, mas, primeiro, é preciso ir a uma consulta e ter um clínico que as queira passar, porque os médicos de família têm um orçamento limitado para a prescrição de análises.
“As mulheres precisam de perceber que, apesar de poderem não ter sintomas, há consequências escondidas como a osteoporose ou as doenças cardiovasculares”
Integrall: O que é que as mulheres, nesta fase da vida, precisam de saber?
Cláudia Barros: Acima de tudo, precisam de saber que, apesar de poderem não ter sintomas, há consequências escondidas, como a osteoporose ou as doenças cardiovasculares. Portanto, dizer só que não têm sintomas, não é suficiente. Precisam de perceber que há muito mais além do que aquilo que se vê e que se apalpa, há sintomas invisíveis.

Créditos: Marques produtora
Integrall: Além do teu testemunho, convidaste para esta conferência profissionais de diversas áreas da saúde, porque a menopausa é um tema transversal a várias especialidades…
Cláudia Barros: Sim, tudo está ligado. Por exemplo, quando a mulher entra na menopausa, as artérias enrijessem, devido à queda dos níveis de estradiol, mas, neste contexto, não faz sentido ir a correr para o cardiologista. Algo de que se fala pouco, também, é o síndrome geniturinário, que explica porque é que as mulheres fazem xixi, sem querer, quando dão um espirro. Assim, é importante perceber que o ginecologista não é só para quando a mulher está com um problema na vagina ou na vulva.
Integrall: Existe esta visão de conjunto sobre a menopausa no Serviço Nacional de Saúde?
Cláudia Barros: Não.
“Temos que criar consciência nas empresas (…) precisam de perceber que não podem optimizar o resultado de trabalho se não perceberem o que se está a passar com as suas trabalhadoras”
Integrall: A sociedade não entende as mulheres?
Cláudia Barros: Temos que criar consciência nas empresas, não é só no seio familiar. As empresas precisam de perceber que isto vai acontecer a todas e que não podem otimizar o resultado de trabalho se não perceberem o que se está a passar com as suas trabalhadoras.
Integrall: Uma frase para a menopausa?
Cláudia Barros: É o resto da minha vida. A menopausa não é para rejeitar, é para abraçar e é para estamos em paz com ela.

Integrall: Quantas pessoas é que estiveram nesta conferência?
Cláudia Barros: Cerca de 50.
“Quero levar a literacia da saúde feminina a mais mulheres”
Integrall: Qual é o balanço que fazes desta iniciativa?
Cláudia Barros: Foi a primeira, tive muita aprendizagem, mas sei que vou ter que começar a organizar mais conferências deste género para levar a literacia da saúde feminina a mais mulheres.
Integrall: Já há data para a próxima conferência?
Cláudia Barros: Não, mas eu vejo isto a acontecer de uma forma mais simples, por exemplo, um menopausa brunch.

















