“Como é que os bebés nos ajudam a lembrar quem somos realmente” foi um dos tema dominantes do segundo dia do simpósio “Bebés Felizes, Encarnações Plenas”, organizado pela AlmaSoma para a EUROTAS, que decorreu em S. Domingos de Rana .
A cofundadora da AlmaSoma, Ilja van de Griend, abriu o segundo dia do evento dizendo que “este é um tópico crucial para todos nós, estamos unidos pelo facto de termos nascido, trazemos connosco estes imprints (marcas de nascimento) e por outro lado, a luz da nossa essência. Somos humanos e temos de sentir ligação para nos sentirmos seguros. É por isso que esta fase é tão importante”. A especialista em terapia infantil descreveu que “quando nascemos, o nosso corpo não se sentia seguro, algo que, por vezes, acontece ao longo da vida.” Assim, defendeu: “essas marcas devem ser integradas com compaixão, porque, por vezes, perdemo-nos no caminho”. E foi mais longe: “podemos começar a ajudar-nos, como seres humanos, numa fase muito precoce. Não precisamos de esperar pelos 30 anos para chegar ao consultório do terapeuta. Precisamos de almas com maior consciência, que nos mostrem o caminho, para entrarmos noutra frequência”.
“Não precisamos de esperar pelos 30 anos para chegar ao consultório do terapeuta”
Foi o que a própria fez com seu o cliente mais jovem: um bebé de quatro semanas, cuja mãe teve uma cesariana de emergência, que a obrigou a ficar nos cuidados intensivos. O marido ficou com o bebé na primeira noite, sem saber se a esposa ia sobreviver. Passado o susto e como a mãe tinha ouvido, de um psicólogo, que os bebés podiam ser impactados pelo parto, decidiu recorrer à terapia com Ilja van de Griend, pois, “sabia que o parto tinha sido traumático para o bebé, uma vez que também o tinha sido para ela e para o marido. “A mãe pediu-me ajuda para ultrapassar aquele trauma, pois queria apoiar o bebé”. recordou.
“Quando conseguem processar a dor, os bebés podem libertar as marcas do trauma e encarnar a consciência que realmente são”
Ilja van de Griend explicou que o trabalho com os bebés não é feito com o corpo físico: “trabalhamos com o impacto emocional e com a consciência, ajudando-os a integrar essas experiências, tal como acontece com os adultos”. A ferramenta chave para lhes permitir sentirem-se seguros é com o que chama de “empatia da precisão: sentir onde é que eles estão. Quando os bebés sentem que foram sentidos, o seu sistema nervoso é capaz de atravessar o sofrimento em direção a um estado mais calmo, organizado e conectado. Ao sentir que alguém -o terapeuta- sente aquilo por que passou, o bebé sente-se validado e bem-vindo. O que difere em relação aos adultos é que os bebés não falam por palavras, mas comunicam connosco – se sentem que foram vistos e reconhecidos, acabam por mostrar-nos aquilo por que nós também passámos”, salienta, concluindo: “uma experiência traumática profunda pode ser transformada e dar lugar à calma e à cura da criança interior”.
A cofundadora da AlmaSoma, Ilja van de Griend, explicou “como é que os bebés nos ajudam a lembrar quem somos realmente” /DR
“Os bebés mostram-nos quão profundamente os seres humanos são formados pelas experiências precoces”
Mas há mais formas de os bebés nos ajudam a lembrar quem realmente somos: “muitas vezes, trazem à consciência experiências inacabadas. Pode haver sessões em que o bebé e os pais choram – são corpos em sofrimento. É um momento em que todos podem cooperar”, relata, explicando que “tornar-se pais é, talvez, uma das fases mais desafiantes da vida, para além do parto. É um momento em que as pessoas podem trazer cura às suas vidas: os bebés mostram-nos quão profundamente os seres humanos são formados pelas experiências precoces e também, quão profundamente estão abertos a repará-las em ligação, dentro de uma relação”.
Formadora de terapeutas desde 2005, Ilja van de Griend citou ainda estudos que mostram que “muitos sintomas, como episódios de choros compulsivos ou problemas de pesadelos podem ser – e são – resolvidos em terapia”. Quando tal acontece, “os bebés começam a mostrar algumas qualidades espirituais e humanas, que não são visíveis noutros, que não foram tratados. A terapia tem um impacto positivo nos bebés, mas, também, um impacto imenso na ligação com os pais”. A cofundadora da AlmaSoma referiu ainda que “o trauma não é o que nos acontece, mas como nos acontece”, destacando que “o que é belo é que o corpo sabe quando acontece o processo de libertação e o que tem de ser feito para lá chegar”.
“E se a ferida antes de respirarmos também for uma porta?”
Luís Miguel Gallardo, fundador e presidente da World Happiness Foundation e hipnoterapeuta, alinha no facto de que “o trauma é informação e podemos decidir o que fazer com ele e com a dor”. Por isso, começou a sua palestra com um pedido: Parem de falar em trauma, em medo”, deixando uma reflexão: “E se a ferida antes de respirarmos também for uma porta? E se assim for? Esta é a pergunta. Essa ferida (intrauterina) é uma recordação. Não queremos reparar, queremos lembrá-la com a memória e é aí que vamos poder decidir. É tudo perfeito. As nossas almas decidiram sair para esta vida, estava planeado há séculos. A alma escolheu-nos como corpo”, retorquiu, confessando: “eu também comecei por não acreditar nisto”. O especialista adiantou que “cada sombra é um dom protegido e que as sombras de proteção existem para não sentirmos a dor da nossa ferida”, mas constatou que “quando estamos concentrados e observamos a sombra, vemos o dom, que é a ponte, a ligação e aquilo que nos vai fazer perceber que podemos fazer acontecer algo. Curamos a sombra através do dom”, afiançou.
A palestra de Luís Miguel Gallardo foi pautada por muito mais perguntas do que apenas a reflexão inicial: “De que ferida é que a minha sombra está a proteger-me (hoje)?”, questionou, sem esperar pela audiência e dando, ele mesmo, a resposta: “ vida é sobre querer saber. É preciso conhecer a nossa ferida original porque a sombra está a proteger a nossa ferida. A nossa sombra é uma proteção, não uma patologia”, distinguiu. No entanto, o orador explicou que não é isso que acontece e que, num primeiro estágio, “temos uma reatividade inconsciente, em que usamos mecanismos de proteção das nossas feridas precoces, como, por exemplo, quando nos encolhemos, nos culpamos. Gritamos porque estamos zangados e estamos zangados porque estamos em modo de reação, estamos na nossa sombra”. Por isso, deixou um pedido: “sejam compassivos uns com os outros”.
De acordo com Luís Miguel Gallardo só numa segunda fase é que “reconhecemos as sombras e as contemplamos”, sendo esse o momento em que ficamos prontos para ajudar outros e em que começamos a encaminhar-nos para descobrir o nosso dom”. Numa terceira fase, “descobrimos a intenção positiva dos outros e tornamo-nos na paz, na gentileza e na harmonia que já somos”, enfatizando, que “a paz fundamental não é a ausência de dificuldades, é uma coerência interior sustentável, que existe debaixo das dificuldades”. No final, deixou uma mensagem à plateia: “seres humanos, por favor, sejam humanos”.