Agricultura, saúde e ecologia foram os temas em destaque, esta quinta-feira, no “Seminário Primavera”, em Coimbra, organizado pela Associação Portuguesa de Agricultura Biológica (Agrobio).
Em entrevista ao Integrall, Jaime Ferreira, presidente da associação, garante que investir em agricultura biológica é um ganho para a saúde e para o planeta. Defende ainda que os municípios deviam seguir o exemplo de Idanha-a-Nova, em que 70% das cantinas escolares são fornecidas com produtos biológicos.
Integrall: A agricultura biológica está em destaque no “Seminário da Primavera”, em Coimbra. O que é a agricultura biológica?
Jaime Ferreira: É um sistema holístico de produção agrícola e biológica. Não é só a agricultura: a agricultura é o chamado “agros”, que é a terra, mas, há, também, a produção, que tem a ver com os alimentos que são produzidos na terra e que podemos transformar, por exemplo, o vinho, o azeite, entre muitos outros. A ideia básica é que o solo é a base, ou seja, a agricultura biológica tem a ver com a forma como trabalhamos o solo, que tem de ser provido de matéria orgânica e com as práticas que usamos, que são de pouca mobilização do solo.
“A agricultura biológica é um sistema holístico (…) está tudo ligado: o solo, as plantas, os animais”
Integrall: O estado do solo é fundamental?
Jaime Ferreira: Sim, porque é tudo a partir do solo. Nós temos a geologia – o solo é feito a partir das nossa geologia – e depois, temos as plantas, que são colocadas no solo, os animais, que se alimentam das plantas, é um ciclo holístico, onde está tudo integrado.
Outro aspecto fundamental na agricultura biológica é não usarmos pesticidas de síntese nem nada de que seja de síntese, usamos aquilo que temos que usar para o controlo de pragas e doenças – parte é feita com as próprias práticas agrícolas – e se tivermos que usar alguma substância é de origem natural, como os extratos de plantas. Além disso e porque se trata de uma agricultura preventiva, que tenta imitar a natureza, é muito importante perceber como funcionam, naquele local, a natureza, a água, o solo, as plantas, os animais, tudo tem influência na produção, pelo que, muitas vezes temos que fazer melhorias.
Integrall: A Agrobio dá formação?
“O nosso lema é: ‘pela saúde do Homem e da terra ’”
Jaime Ferreira: Desde o início, em 1985, que a Agrobio dá formação e apoio técnico aos agricultores, ajuda na criação de mercados para venderem os seus produtos diretamente ao consumidor ou na organização para poderem vender em lojas ou supermercados, se for o caso. O nosso lema é: “pela saúde ddo Homem e da terra”, portanto, há uma ligação sempre muito forte às questões da saúde. Aliás, o “Seminário da Primavera” conta com a participação de algumas pessoas da área da saúde, que vão falar dos pesticidas e de como afetam a nossa saúde. Muitas vezes, não imaginamos o que contêm os alimentos que não são de agricultura biológica, alguns têm grandes cargas de agroquímicos.
“Muitas vezes não imaginamos o que contêm os alimentos que não são de agricultura biológica, alguns têm grandes cargas de agroquímicos”
Integrall: A agricultura biológica não leva químicos nenhuns?
Jaime Ferreira: Leva químicos de origem natural, como extratos de plantas ou urtigas e apenas em determinadas quantidades, mas não leva químicos de síntese, que o nosso organismo tem muita dificuldade em reconhecer. O nosso corpo tem facilidade, apenas, em reconhecer moléculas que já existem, tudo o que ele não reconhece, acumula e gera distúrbios. Tudo tem regras, tudo tem quantidades, tudo está doseado, mas tendo sempre por base uma agricultura preventiva.
Integrall: Qual é a percentagem de agricultura biológica em Portugal ao nível da ocupação dos solos?
Jaime Ferreira: Tem vindo a crescer, sobretudo desde 2019. Neste momento, deve rondar os 20 por cento da superfície agrícola útil e o número de produtores, os 17 mil.
Integrall: Que lugar ocupa Portugal ao nível da agricultura biológica, em comparação com outros países europeus?
Jaime Ferreira: Para responder a essa pergunta, temos de ver a escala: Portugal é da dimensão da Andaluzia, em Espanha, mas está em terceiro ou quarto lugar, em termos da área de agricultura biológica. Espanha, por exemplo, está nos 12/13 por cento, a Suécia ronda os 25 por cento e a Áustria, que ocupa o topo, está nos 28 por cento. Da área portuguesa de agricultura biológica, 60 por cento são pastagens forragens e culturas ligadas à produção e à alimentação animais e depois, temos áreas com olival, de vinha, com plantas aromáticas, de pinhal manso, de frutos secos e outras frutas.
“O custo da certificação de uma propriedade até cinco hectares ronda os 180 euros/ano”
Integrall: Deixe-me fazer-lhe uma provocação. Muitas vezes, ouço em feiras e mercados que os “produtos são biológicos, não têm químicos, mas não são certificados porque a certificação é cara”.
Jaime Ferreira: A certificação é um processo de controlo, que vai desde o momento em que o agricultor se instala até à saída dos produtos, ou seja, até estarem à venda no mercado. Existe todo um processo de controlo e de verificação, que é um bocadinho burocrático e exige documentação, exige cadernos de campo, portanto, há uma exigência que muitos agricultores não estão para suportar. Os custos não são elevados. Só para lhe dar um exemplo, o custo da certificação de uma propriedade até cinco hectares ronda os 180 euros por ano.
Integrall: Ao fim de um ano, o agricultor pode perder a certificação?
Jaime Ferreira: Pode, se não cumprir.
Integrall: Quem é que certifica?
Jaime Ferreira: Há 10 certificadoras, em Portugal, que são supervisionadas pelo ministério da Agricultura.
Integrall: Quanto tempo pode demorar um processo de certificação?
Jaime Ferreira: O que existe é um tempo obrigatório, o chamado tempo de período de conversão, em que o agricultor tem de ver se o solo está em condições, em que tem que plantar amostras ao sol, em que, normalmente, de fazer melhorias na exploração agrícola, no fundo, tem de criar as condições para que a produção biológica seja efetiva. Nesta fase, tem, também, reduzir a probabilidade de ocorrência de pragas ou doenças e de utilizar substâncias autorizadas, em agricultura biológica e que mesmo que sejam de origem natural, existem sempre custos acrescidos. Ao todo, é um processo que demora dois ou três anos.
Integrall: Vale a pena investir em agricultura biológica?
Jaime Ferreira: Sim. É o produto mais valorizado e por isso, tem um preço superior a um produto de agricultura convencional, porque está certificado e por isso, tem de ser reconhecido, tem que ser demonstrado, não basta dizer, como o que costuma escutar em algumas feiras e mercados. Aliás, nesses casos, há uma forte probabilidade de lhe dizerem que aquilo é biológico e não ser verdade; é preciso mostrar que o certificado.
“Num mercado aberto de produtos a granel, o certificado (de biológicos) tem de estar visível”
Integrall: Os produtos biológicos têm de ter o selo de certificação?
Jaime Ferreira: Sim, mas no caso dos mercados em que os produtos não estão embalados, o certificado de biológicos precisa de estar visível.
Integrall: Como é que se identifica um produto embalado?
Jaime Ferreira: Pelo selo com a estrela verde, mas atenção que, em alternativa, o produto pode ter um fundo branco com a bandeira a preto. Existem várias imagens, embora a verde seja a principal. Além disso, o produto embalado tem de dizer, claramente, que é biológico, embora, por exemplo, se tiver origem em Espanha possa dizer “ecológico”, um sinónimo acordado entre os países e a União Europeia aquando da criação da legislação da agricultura ecológica, em 1991.
“Se as pessoas quiserem comer mais saudável, devem consumir produtos locais, sazonais e biológicos”
Integrall: Ganha-se em saúde?
Jaime Ferreira: Ganha-se em saúde direta e indiretamente, através de uma menor poluição da água, do sol, do ar. Além disso, se as pessoas quiserem comer mais saudável, devem consumir produtos locais, da época, ou seja, sazonais e biológicos, obviamente.

Integrall: A proximidade remete-me para outra questão: os consumidores podem confiar nos produtos biológicos à venda em grandes superfícies cuja origem é de países longínquos?
Jaime Ferreira: A única coisa que têm de questionar é quando a certificação não é europeia. Por exemplo, no caso de produtos que só certificação americana. Nesse caso, é preciso ter cuidado porque estão sujeitos a padrões de certificação que não são equivalentes.
Integrall: Mas são confiáveis ou não?
Jaime Ferreira: Eu diria que, em determinadas áreas, não são muito bons, por exemplo, se forem de produção animal porque podem usar hormonas.
Integrall: De resto, os consumidores podem confiar nos produtos biológicos importados?
Jaime Ferreira: Sim, porque esses produtos têm, obrigatoriamente, que cumprir as regras europeias, senão não podem ser vendidos com o selo da União Europeia.
Integrall: Há cada vez mais agricultores despertos para esta temática?
Jaime Ferreira: Eu acho que sim, sobretudo, os novos que herdaram e não querem fazer como os pais faziam, esses são mais exigentes, têm mais atenção às questões ambientais e ao uso ou não de pesticidas – é uma nova geração. Depois, há outros novos agricultores, que vêm da cidade e que, também, querem fazer uma agricultura diferente. Há, ainda, em muito menor quantidade, agricultores antigos, que mudam para a agricultura biológica.

“Os consumidores estão mais despertos, mas pouco informados”
Integrall: Os consumidores também estão mais despertos?
Jaime Ferreira: Os consumidores estão mais despertos, mas pouco informados.
“Há muita confusão nas marcas, nas rotulagens, as pessoas não olham com cuidado nem estão preparadas para identificar os produtos (biológicos)”
Integrall: Porquê?
Jaime Ferreira: Porque quem tem de dar informação não a tem trabalhado suficientemente e por outro lado, não há muito interesse, em termos gerais, em que as pessoas consumam só biológico. Há interesse é que as pessoas consumam tudo. Além disso, há muita confusão nas marcas, nas rotulagens, as pessoas não olham com cuidado nem estão preparadas para identificar os produtos. Como tal, um dos nossos trabalhos é explicar como se identifica um produto biológico embalado ou a granel.
“As vendas de cabazes pela internet cresceram muito”
Integrall: O que mais é que os consumidores devem saber a respeito dos biológicos?
Jaime Ferreira: É relevante os consumidores saberem que têm três formas de consumir produtos biológicos: ou vão aos hipermercados, onde há alguma variedade, ou vão a mercados biológicos e às lojas da especialidade, exclusivamente biológicas ou podem recorrer às vendas de cabazes pela internet, que cresceram. Muitos produtores vendem os seus produtos quase exclusivamente neste sistema de encomendas. A pandemia foi, de resto, uma grande oportunidade para os produtores pequenos ou de média escala, que passaram a vender diretamente aos consumidores.
“A Agrobio dá assistência técnica e formação aos agricultores”
Integrall: Qual é o papel da Agrobio?
Jaime Ferreira: A associação foi criada para promover e divulgar a agricultura biológica, para dar assistência técnica e formação aos agricultores, na criação de condições de mercado e na certificação. Nós fomos a primeira certificadora, antes da criação da legislação europeia, mas, entretanto, ficou estipulado que não podíamos dar assistência técnica e ao mesmo tempo, certificar os agricultores, uma vez que certificação tem de ser isenta.
Integrall: Quem é que audita o ministério da Agricultura?
Jaime Ferreira: A União Europeia faz, anualmente, auditorias ao sistema do ministério da Agricultura e às próprias certificadoras.

Integrall: O governo está disponível para colocar produtos biológicos nas cantinas das escolas?
Jaime Ferreira: Teoricamente está, inclusive, a legislação sobre as compras públicas, contempla uma determinada percentagem de biológicos, mas, depois, coloca tudo numa única categoria: os produtos biológicos e os locais. Então, na prática, depende muito porque, hoje, quando falamos de alimentação nas escolas públicas, ela está nas mãos dos municípios.
Eu acho que a alimentação escolar é muito importante porque tem um efeito na saúde na pública – estamos a falar das nossas crianças, dos nossos filhos – e depois, acaba por ter um efeito a médio e longo prazo, permitindo fazer uma ligação ao Plano Nacional de Promoção para a Alimentação Saudável.
Integrall: A colocação de produtos biológicos nas escolas, na prática, acaba por ser residual…
Jaime Ferreira: Sim, não é simples, mas é exequível.
Integrall: Seria simples tendo em conta que os municípios estão em contacto direto com os produtores…
Jaime Ferreira: Tudo é possível, mas, tem de haver um trabalho que não existe. Durante quatro anos, a Agrobio fe-lo com a junta de freguesia dos Olivais, mas, neste momento, já não está a funcionar.
“Um sistema de fornecimento de refeições biológicas nas escolas implica um trabalho prévio com os agricultores da região”
Integrall: Qual é a dificuldade de implementar mais projetos como esse?
Jaime Ferreira: Para nós termos, de facto, um município que aceitasse implementar um sistema de fornecimento de refeições biológicas nas escolas, seria muito difícil consegui-lo aos preços que existem hoje. Portanto, é necessário um trabalho prévio com os agricultores da região. Na Agrobio, recomendamos sempre que comecem numa pequena escala e que vão avançando passo a passo, por exemplo, à escala de uma freguesia, que é a ideal, na minha opinião. Pouco a pouco, podemos até começar um projeto piloto numa escola e depois ir avançando aos poucos.
Hoje, os municípios podiam fazê-lo, mas é um trabalho que demora, porque têm de encontrar os agricultores, contratualizar com eles, arranjar uma organização que concentre os produtos e que os leve às escolas em determinados dias e em determinados horários.
“O município de Idanha-a-Nova é o único com um sistema de incorporação de alimento de produtos biológicos nas escolas em mais de 70 por cento”
Integrall: Já pensaram nisso?
Jaime Ferreira: Tivemos aquele projeto com a junta de freguesia dos Olivais e agora, o único município que eu sei que está a fazer este trabalho é o de Idanha-a-Nova, que já tem um sistema de incorporação de alimento de produtos biológicos nas escolas em mais de 70 por cento.
Integrall: Idanha-a-Nova que é a primeira bio-região portuguesa…
Jaime Ferreira: Sim.
“É preciso mudar as emendas escolares (…) têm de ser mais acessíveis, ter produtos de maior qualidade, locais, sazonais e de preferência, biológicos”
Integrall: Quer deixar um repto aos municípios portugueses?
Jaime Ferreira: Sigam o exemplo de Idanha-a-Nova e a Agrobio pode ajudar nisso: a organizar os agricultores, a criar uma cooperativa ou outro tipo de organização, que concentre os produtos e que os forneça à escola, a encontrar os produtos da região e sazonais – eu diria que é o básico – não é pôr as crianças a consumir produtos, completamente, fora da época, que são muito mais caros e, às vezes, nem sequer se conhece a sua proveniência. Nós sentimos que os agricultores estão desejosos que haja modelos de consumo de produtos biológicos locais nas escolas, hospitais, nos lares. Outro aspeto importante é mudar as emendas escolares, não é só estarem de acordo com a dieta mediterrânea. Do nosso ponto de vista, têm de ser mais acessíveis, ter produtos de maior qualidade, locais, sazonais e de preferência, biológicos.
Integrall: No final, ganham todos…
Jaime Ferreira: No final, ganham todos.


















