O papel do turismo na preservação de áreas classificadas, como o primeiro Geoparque Mundial da UNESCO em Portugal, gerido pela Naturtejo, foi um dos temas em destaque na conferência organizada pela empresa, para a Feira Nacional de Agricultura (FNA) 2026, que decorreu em Santarém, no mês passado.
À margem do evento, Armindo Jacinto, presidente da Naturtejo, salientou, ao Integrall, a importância da certificação dos destinos, em prol de um turismo sustentável e também, dos produtos biológicos, em nome da saúde das pessoas e do planeta ou não fosse a Naturtejo palco de duas das bio-regiões portuguesas.
Integrall: A Naturtejo está a meio que caminho entre Lisboa o Porto de Madrid. É uma posição privilegiada?
Armindo Jacinto: Não fomos nós que inventámos esta posição privilegiada, é da história. Antigamente, não havia Portugal nem Espanha, não havia estas fronteiras, havia uma Lusitânia e este território estava, de facto, a meio caminho e portanto, estamos entre as grandes capitais, portuguesa e espanhola, e para além destes aeroportos, este território é também servido pelo aeroporto do Porto.

Integrall: A vossa posição geográfica é boa para promover um património natural com biodiversidade…
Armindo Jacinto: Esta localização é fundamental para promover um património de excelência que temos, fruto das assimetrias que Portugal e Espanha sofreram por geopolíticas, mas donde resultou, efetivamente, um património natural fantástico e único.
Integrall: Que património é este gerido pela Naturtejo?
Armindo Jacinto: Tudo começa na história da geodiversidade, com 600 milhões de anos, no caso do Geoparque Naturtejo – falamos da riqueza dos solos, da água, da paisagem e também, da biodiversidade e do património histórico cultural. Portanto, há toda uma riqueza que tem a ver com a história da terra – os 600 milhões de anos-, a biodiversidade que se instalou e depois o homem, na sua história, que ao longo dos anos, mudou também a paisagem.
“Conseguimos a certificação como Geoparque Mundial da UNESCO, com as Reservas da Biosfera e as Cidades Criativas”
Integrall: Na Feira Nacional de Agricultura, convidou as pessoas a virem conhecer o que é único na região e certificado. Qual é a importância da certificação?
Armindo Jacinto: Para este território ganhar notoriedade, procurámos as classificações de convénios internacionais, para além das áreas protegidas que o Estado português já tinha definido. No nosso caso, quando falamos de áreas protegidas, falamos da Serra da Malcata e do Parque Natural do Tejo Internacional, onde se privilegiava a biodiversidade e a sua riqueza. Com os convénios internacionais, conseguimos a certificação como Geoparque Mundial da UNESCO, com as Reservas da Biosfera e as Cidades Criativas, programas distintos da UNESCO, focados na conservação ambiental e no desenvolvimento urbano através da cultura, respetivamente – temos duas no nosso território: Idanha-a-Nova, que foi pioneira na música e Castelo Branco, no artesanato. Além disso, integramos a rede mundial das bio-regiões, que se espalha pelo mundo inteiro. São todas classificações importantes.

Integrall: Além da certificação, mencionou, também, a importância terem produtos biológicos…
Armindo Jacinto: Para além das classificações que nos dão notoriedade e reconhecimento internacional é importante certificar os serviços, é importante que os destinos, a restauração hoteleira e a produção agrícola, ou seja, que as empresas que estão no (nosso) território tenham processos de certificação das suas atividades que dão garantias e segurança aos mercados mundiais, que procuram turismo e nós temos essa oferta – queremos que os (nossos) turistas percebam que estão a contribuir para um destino mais sustentável.
Integrall: O que significa um turismo sustentável?
Armindo Jacinto: É um turismo que visa investir na regeneração: deixarmos melhor, para os nossos filhos, aquilo que herdámos dos nossos pais. Para que isso aconteça, é preciso que o mercado mundial tenha muita segurança naquilo que lhe é oferecido e daí a importância da certificação por entidades credíveis.
Integrall: A União europeia vai apertar as regras sobre o turismo sustentável a partir de setembro…
Armindo Jacinto: A União Europeia vai ser muito exigente com quem utiliza as menções de turismo sustentável, de eco friendly – práticas que minimizam os danos ambientais – vão ter que ter por trás de si um processo de certificação que seja credível.
Integrall: A Naturtejo tem certificação em todo o seu território?
Armindo Jacinto: Não tem, mas estamos a trabalhar nisso, não só para os seus destinos, que ocupam 5000 km², mas para os nossos parceiros, que são, exatamente, a hotelaria, a restauração, a animação, os circuitos turísticos e que é algo que nós já fazemos. O nosso objetivo é ter, com os 110 membros que estão no nosso território, um processo de certificação credível.
Integrall: No vosso território, está Idanha-a-Nova, a primeira bio-região portuguesa e a Naturtejo já tem a segunda.
Armindo Jacinto: A segunda que é no território da Lusitânia, que envolve toda a zona do Pinhal Maior – a Associação de Desenvolvimento do Pinhal Interior Sul tem um conjunto de municípios, entre Mação, Proença, Oleiros, Sertã, a que chamaram Lusitânia para integrar as bio-regiões.
“Uma bio-região é uma estratégia de desenvolvimento sustentável assente no desenvolvimento da agricultura biológica nesse território”
Integrall: O que é uma bio-região?
Armindo Jacinto: Uma bio-região é uma estratégia de desenvolvimento sustentável assente no desenvolvimento da agricultura biológica nesse território, incluindo os diferentes atores que estão no terreno, desde agricultores, passando por todo o setor agroalimentar. A estratégia, que tem por base o património alimentar da zona, visa fazer educação ambiental, nomeadamente, junto das escolas e da sociedade, de modo a haver uma preocupação com uma alimentação saudável, a bem da saúde dos humanos, do solo, da água, da paisagem e da saúde do planeta.
Integrall: Quais são os requisitos para ser uma bio-região?
Armindo Jacinto: Antes de mais, é preciso querer sê-lo e depois, ter uma estratégia que reúna atores políticos locais e uma associação de desenvolvimento, que possa representar os diferentes municípios, os agricultores e os diferentes atores, que possam contribuir para o turismo sustentável. No fundo, é necessária uma estratégia para envolver os cidadãos, através da educação, da cultura, das atividades sociais de modo a que toda uma população trabalhe para essa mesma estratégia.

Integrall: Os territórios das bio-regiões têm que ser obrigatoriamente biológicos?
Armindo Jacinto: Não. Não há ninguém 100 por cento biológico.
Integrall: Quais são os mínimos?
Armindo Jacinto: Não há mínimos, mas tem de haver um compromisso, por parte da governança da bio-região, no sentido de desenvolver esta estratégia e ter, obviamente, também, alguns atores no território representativos do setor e que possam a ser boas referências para o desenvolvimento de mais projetos.
“Defendemos que, aos doentes, sejam prescritos menos medicamentos e mais atividades na natureza”
Integrall: Qual o impacto na saúde das pessoas e do planeta?
Armindo Jacinto: Hoje, quando discutimos as questões da saúde, discutimos a doença. O objetivo é que, quando falemos de saúde, estejamos a discutir cidadãos mais saudáveis. Nós somos daqueles que defendemos que temos que procurar os médicos quando estamos doentes, mas que, aos doentes, sejam prescritos menos medicamentos e mais atividades na natureza, atividades que façam bem à saúde, mental e física, como uma boa alimentação, atividades ativas, por exemplo, na idade pós-reforma. Esta é a ligação entre a saúde humana e a saúde do planeta. Quando nos alimentamos com produtos saudáveis, nomeadamente, biológicos, eles são, também, saudáveis para o solo onde são semeados, porque há uma atividade regenerativa e há uma preservação da biodiversidade e da nossa saúde. O mundo não pode continuar a crescer com pessoas cada vez mais doentes, não há médicos suficientes para isso.

















