É já esta quarta feira, 8 de julho, que Cascais recebe o 22º Ageas Cooljazz, referência nacional do jazz e sustentabilidade. Entre as novidades deste ano, estão quatro concertos com comandos sensoriais para surdos-mudos, a possibilidade de pessoas com mais de 60% de incapacidade levarem acompanhante sem pagar, balcões de comida e bebida mais baixos para o público em cadeira de rodas e o alargamento do recinto, que passa de dois para três portões de acesso.
Em vésperas da maior edição do festival, Karla Campos, CEO da promotora Live Experiences, que organiza o Ageas Cool Jazz, faz, em entrevista ao Integrall, um balanço “muito” positivo por conseguir manter, há mais de duas décadas, o seu propósito: ver um concerto do princípio ao fim, sem simultâneos, com calma e coolness, em plena comunhão com a natureza.
A edição 2026 do Ageas Cooljazz vai ser a maior de sempre, com mais um dia de concertos/DR
Integrall: Este ano, o Ageas Cooljazz mantém o compromisso ambiental e consolida sua posição como um dos eventos mais sustentáveis de Portugal…
Karla Campos: Sim. Uma vez que o festival está inserido num espaço verde, ao ar livre, desde a sua fundação que sempre teve a preocupação de se integrar na natureza e a sua montagem também parte desse princípio, desde que nasceu. Com o passar dos anos, com a evolução do festival, houve, continuadamente, essa preocupação de tal forma que, a dado momento, em termos ambientais, conseguimos – na altura com EDP-, torná-lo no festival carbono zero, em termos de emissões de CO2. Neste momento, fazemo-lo com a Sociedade Ponto Verde (SPV) serviços, com quem temos uma parceria. Portanto, o Ageas Cooljazz sempre foi líder nessa linha ambiental, mas, também, no facto de deixar de ter as palhinhas de plástico ou na utilização de copos reutilizáveis, em que fomos o primeiro a fazê-lo. Paralelamente, em todos os locais por onde fomos passando, as câmaras (municipais) sempre foram líderes na inovação da reciclagem do lixo, ou seja, na economia circular, o que nos permitiu ir sempre colocando ecopontos dos vários tipos de resíduos e assim ir fazendo a reciclagem ambiental, embora a sustentabilidade não seja só ambiental.
Integrall: A sustentabilidade, como um todo, é uma das vossas imagens de marca…
Karla Campos: Exatamente.
A sustentabilidade é uma das imagens de marca do Cooljazz/DR
Ageas Cooljazz mantém compensação de emissões de CO2 em parceira com a Sociedade Ponto Verde
Integrall: Nesse sentido, o vosso trabalho assenta em três pilares: ambiental, social e económico. Que medidas concretas têm previstas para a edição deste ano?
Karla Campos: A nível ambiental, para além do que referi, mantemos a utilização de fornecedores portugueses e em particular, da Grande Lisboa de forma a que haja a menor emissão de CO2.
A nível social, temos um concurso de talentos na área do jazz em parceria com a Smooth FM, que permite a promoção de bandas. Este ano, temos uma excelente novidade: a Ageas vai atribuir, aos três vencedores, um prémio de 2.000 € -, embora este concurso já tenha, desde que existe, um grande prémio, que é a atuação das três bandas vencedoras no palco Jazz, o que, de resto, já faz parte da programação do festival e que acontecerá nos últimos três dias, a 25, 29 e 31 de julho. Após a atuação de cada banda, vai haver uma cerimónia de entrega de prémios, que dantes não acontecia, onde vão receber o tal cheque. Aos domingos, temos, também, uma programação gratuita – as “Cascais Lazy Sundays – com um DJ set, dentro do Parque Marechal Carmona, onde decorre o festival, que são uma maneira de permitir, a quem não tem tantos recursos, participar, de certa forma, numa parte do programa do festival.
“Anualmente, conseguimos doar cerca de 300 a 400 refeições com o que sobra do festival”
Ainda no social, transformamos em refeições para a equipa o que sobra de cada dia festival e se houver um volume muito grande, entregamo-las a entidades de cariz social – anualmente, conseguimos doar cerca de 300 a 400 refeições. Também no social, temos um protocolo com dois estabelecimentos de ensino, a Escola de Tecnologias, Inovação e Criação (ETIC) e a Escola Superior de Hotelaria do Estoril (ESHTE), cujos estagiários curriculares recebemos para nos ajudarem, acabando por contratar alguns no final.
Entre as novidades deste ano estão quatro concertos com comandos sensoriais para a comunidade surda-muda acompanhados de um intérprete de linguagem gestual
Novidade na edição deste ano, fruto da parceria com a Fundação Ageas, é que, em todos os concertos da mobilidade condicionada- zona que sempre tivemos-, as pessoas com mais de 60% de incapacidade poderão trazer um acompanhante, gratuitamente. Ainda nessa zona, haverá quatro concertos com comandos sensoriais para a comunidade surda-muda, acompanhados de um intérprete de linguagem gestual.
A nível económico, temos uma parceria com a Associação Turismo de Cascais – a campanha “Live Like a Local” -, que consiste em convidar os clientes dos hotéis, restaurantes e empresas de atividades de lazer do concelho e pertencentes à associação, a usufruir das melhores experiências de Cascais durante o dia e à noite, a virem ao festival, num pack que inclui estadia num hotel local e o bilhete para uma noite do Ageas Cooljazz. Quem for residente e tenha o “Cartão Viver Cascais”, pode comprar bilhetes na plateia em pé, a um valor mais acessível, dentro de um stock disponível.
O festival tem uma gama variada de opções vegetarianas e veganas/DR
Integrall: O festival mantém a oferta gastronómica diversificada com opções veganas e vegetarianas?
Karla Campos: Exatamente e também, em alguns bares e concessionários de alimentação haverá balcões mais baixos para atender as pessoas em cadeira de rodas ou que tenham dificuldades, o que só é possível em conjunto dos nossos parceiros – sem eles não fazemos nada.
“Este ano, alcançámos uma grande conquista com estas duas grandes novidades: a da mobilidade condicionada e da acessibilidade dos surdos-mudos. É importante o festival dar estes benefícios às pessoas.”
Integrall: São muitos os parceiros que vos ajudam nesta missão, o que faz com que sejam uma referência nacional e internacional em eventos sustentáveis…
Karla Campos: Sem dúvida. Este ano, alcançámos uma grande conquista com estas duas grandes novidades: a da mobilidade condicionada e da acessibilidade dos surdos-mudos – é importante o festival dar estes benefícios às pessoas.
A Ageas é um dos inúmeros parceiros do Coojazz/DR
Integrall: O Ageast Cooljazz é a prova de que um festival pode unir música, natureza e comunidade de uma forma responsável…
Karla Campos: É isso mesmo.
Integrall: No final de cada edição, fazem o balanço, em termos de resultados concretos, do impacto positivo que as vossas ações tiveram?
Karla Campos: Sim, sempre.
“A sustentabilidade é um grande chavão; reduzir em resultados práticos nem sempre é fácil. É um sentido altruísta que todos temos de conseguir passar à equipa interna e aos parceiros (…) e não conseguimos fazer nada disto sozinhos, tudo depende de parceiros, de pessoas, das empresas”
Integrall: Como é que tem sido essa evolução ao longo destes 22 anos?
Karla Campos: Tem sido cada vez mais produtiva, porque isto da sustentabilidade é um grande chavão: não é o que se ouve, o que se vê e o que se fala; reduzir em resultados práticos nem sempre é fácil. É um sentido altruísta que todos temos de conseguir passar à equipa interna e aos parceiros, é preciso cultivar esta política – não conseguimos fazer nada disto sozinhos, porque tudo depende de parceiros, de pessoas e também, das próprias empresas, que estão, igualmente, a evoluir neste sentido. Efetivamente, o que sentimos é que, de ano para ano, tudo se torna muito mais fácil e até óbvio e por isso, os resultados têm sido muito positivos.
Novidade na edição deste ano é o concerto extra de Gilberto Gil, a abrir o festival a 8 de julho
Gilberto Gil vai dar o concerto de abertura, juntamente com a banda formada pelos filhos e netos/DR
Integrall: A par de ser uma referência a nível da sustentabilidade, o Ageas Cooljazz tornou-se num dos eventos culturais mais importantes do país e este ano será o maior de sempre. Porquê?
Karla Campos: O festival tem sete dias, normalmente, nenhum outro tem tantos dias – costumam concentrar-se em três/quatro ou num fim de semana. A minha proposta, desde que nasceu, foi exatamente ao longo de um mês de verão – julho -, apresentar uma programação por dias e fazer com que as pessoas pudessem saber o que vão ver com 100 por cento de consciência, estar com os artistas a tempo inteiro – e não ter de andar a saltitar de um palco para o outro-, ter a sua cadeira reservada para se sentarem a assistir a um concerto o tempo todo e em sequência e sem haver concertos em simultâneo. Essa sempre foi a lógica do festival e é o que se pretende continuar. Claro que o Ageas Cooljazz começou com um concerto por dia e hoje já vai em quatro, mas a intenção sempre foi dar mais conteúdo, dar mais programação, ter uma plateia variada, preços democráticos, a que todos têm acesso e que as pessoas pudessem aproveitar os palcos todos, circular e terem a acesso a toda a cultura toda – é aqui que o festival se tem mantido ao longo dos anos. Este ano, surgiu a possibilidade de fazer um concerto extra, que vai abrir o evento, a 8 de julho, com Gilberto Gil. Eu não podia, de maneira nenhuma, recusar essa vontade de o cantor brasileiro vir ao Ageas Cooljazz nesta edição, mesmo depois de os artistas principais já estarem todos fechados, em dezembro.
O acesso ao recinto vai ser feito através de três portões e não dois como em anos anteriores/DR
O recinto do Ageas Cooljazz vai ser alargado este ano e passa a ter três portões de entrada, de forma a facilitar a circulação
Integrall: Mais novidades este ano?
Karla Campos: Vamos alargar o recinto. Percebemos que o festival cresceu em número de pessoas por dia e que nos dias maiores e com mais público, havia necessidade de dar mais espaço para as pessoas estarem às refeições, a descansar ou a conviver, mais zonas de comida, mais casas de banho e inclusive, mais zonas de acesso, mais portões para poderem circular e o Parque Marechal Carmona tem essa possibilidade – nós usávamos um ou dois e este ano, vamos passar usar três, nomeadamente, o que fica em frente à Marina de Cascais, que é também o que dá acesso ao Museu Condes de Castro Guimarães, situado dentro do parque. Paralelamente, vamos usar os portões por tipologia de bilhete: plateia sentada, plateia em pé, camarote, zona VIP, distribuindo as pessoas, de modo a que a circulação seja mais tranquila, mais cool.
“A preocupação com todas as comunidades da nossa sociedade é uma das lógicas do festival”
O concerto de Jamiroquai já está esgotado/DR
Integrall: Que concertos destaca este ano?
Karla Campos: O Jamiroquai, a 18 de julho, que já está esgotado. Há muitos anos que ele não tocava ao vivo e por isso, a saudade do público era muita, daí ser grande a expectativa. A Diana Krall, a 22 de julho, que é uma artista que reside neste festival e que marca, sem dúvida, o lado jazz do Ageas Cooljazz. Destaco, também, o dia 15 de julho, com o estilo muito próprio do Loyle Carner, para comunidade mais jovem e que mistura jazz com rap. Esse vai ser um dia muito mais jovem do que os restantes, embora os Scissor Sisters, a 29 de julho, sendo muito anos 90, acabem por ir buscar a onda disco e de dança, que também atrai o público mais jovem. Mas não só. Os Scissor Sisters atraem, também, o público queer – diversas orientações sexuais e identidades de género -, que, já ouvi dizer, vai aproveitar este dia para celebrar a inclusão, tendo em conta que o Arraial Lisboa Pride 2026 de junho foi cancelado – a preocupação com todas as comunidades da nossa sociedade é uma das lógicas do festival. Não posso deixar de destacar o incrível concerto de Gilberto Gil, que não será só ele. O cantor vai atuar com e a banda formada pelos filhos e netos; vão ser bastantes em palco – eles não tocam apenas os instrumentos, mas também cantam e por isso, vai ser, sem dúvida, uma experiência e um concerto completamente diferentes.
São esperadas 55 mil pessoas ao longo de todo o festival/DR
Integrall: Quantas pessoas são esperadas na edição deste ano?
Karla Campos: Prevemos ultrapassar as 55 mil pessoas no total do festival.
O Ageas Cooljazz é” um festival em que conseguimos ver cada concerto do princípio ao fim, com calma e coolness – este sempre foi o propósito e não quero perdê-lo”
Integrall: A Karla organiza o festival desde 2004. Que balanço é que faz destes 22 anos?
Karla Campos: O balanço é de uma grande satisfação de conseguir manter um festival destes, ao longo de 22 anos, com o seu formato único e diferenciador, em termos do que é a sua operação e pelo facto de a sua programação ser uma alta mistura de “cool by nature”, com preocupações sustentabilidade, conforto e de trazer todos os anos artistas – muitos deles populares, muitos deles emergentes -, que surpreendem o público, o qual confia na nossa programação. Mesmo que não seja um artista conhecido, o público sabe que, ao apresentar-se no festival, é bom. Portanto, este lugar de se manter num espaço natural, com respeito pela atuação do artista, desde o momento em que começa até que acaba, o facto não haver concertos em simultâneo e de ser um festival em que conseguimos ver cada um do princípio ao fim, com calma e coolness foi sempre o propósito, que eu não perdi e não quero perder de maneira nenhuma.
Integrall: Cascais e o país já não vivem sem o Ageas Cooljazz?